Capítulo 4 - Uma Situação Aterrorizante




Jalpa


AS COISAS NÃO PODERIAM ESTAR PIORES.
As ações de tolos certa vez me envergonharam diante de Sua Majestade. Na época, foi o pior momento da minha vida. Olhando para trás agora, aquilo não foi nada.
Este é o pior momento da minha vida.

| Cavaleiro | [Sua Excelência! Eles estavam nos esperando afinal!]
Solto um grito frustrado. [Eles jogaram totalmente de acordo com o manual! Aqueles desgraçados!]

O objetivo em avançar contra o inimigo era ignorar suas defesas em ambos os lados. Obviamente, eu tinha antecipado que eles estariam nos esperando. Em nossa reunião de estratégia, previ que o inimigo esperaria por nós nos lados da estrada, esperando nos pegar em um ataque de pinça, ou destruiria a própria estrada para depois nos alvejar com flechas a partir dos lados. Em qualquer um dos cenários, serão os canhões que vão desferir o golpe final.
Da perspectiva de Shelbia, nosso alcance à sua cidade-fortaleza tornaria infinitamente mais difícil para eles preverem nossos próximos passos. A estratégia ideal deles deveria ter sido nos encurralar em um ambiente onde não pudéssemos escolher nossa formação, para depois nos bombardear com seus canhões. No meu modo de pensar, estaremos a salvo se pararmos nosso movimento de avanço logo antes da área onde o inimigo espreita. Isso daria uma oportunidade para eu usar minhas chamas e incinerar qualquer um esperando à frente ou ao nosso redor. Targa e eu somos ambos capazes de conjurar magia a cavalo, então, se as coisas correrem bem, podemos atacá-los sem medo de um contra-ataque.

Isso era o que eu pensava. Mas então algo aconteceu que eu nunca poderia ter antecipado.

| Cavaleiro | [Sua Excelência! Não é uma parede de soldados ou um bastião bloqueando nosso caminho à frente; é um dragão! Algum tipo de dragão da terra!]
| Jalpa | [Impossível! Um segundo dragão após aquele em Scudet?! Eles deveriam estar focando a maior parte de seus recursos na nossa batalha na fronteira. Como eles poderiam possivelmente ter trazido um dragão para cá?!], ou o oficial encarregado do outro lado está fora de si ou nossos inimigos têm múltiplos dragões em seu arsenal — mas, em última análise, nada disso importa neste momento. Eu esbravejo: [Não temos esperança de sobreviver se formos atingidos pelo sopro do dragão em um espaço tão confinado! Recuem imediatamente! Vamos atrair o dragão até nós e cercá-lo! Mantenham-se em movimento a todo custo! O inimigo quer nos parar no caminho para poder nos massacrar com seus canhões— Ahn?!]

Um som perturbador interrompe minhas ordens: passos, e em quantidade suficiente para fazer parecer que o próprio chão está retumbando. O som não de um mil ou dois mil soldados, mas de dez mil.

Olho para a infantaria inimiga flanqueando-nos por ambos os lados, levantando nuvens de poeira e terra enquanto marcham, e percebo que cometi um erro fatal. [Fomos enganados! Os canhões eram uma distração!]

Nossa magia de fogo é superior aos canhões do inimigo. A menos que nos peguem de surpresa, eu tinha confiança de que os canhões não apresentavam ameaça alguma para nós. Apenas naquele momento percebi que minha confiança era uma autoilusão, uma tentativa de esconder o medo em meu coração, e que isso será a minha ruína: meu plano está falhando precisamente porque eu temia os canhões.
Eu estava tão certo de que o inimigo atacaria com suas novas armas que ignorei a possibilidade de uma tática de pinça mais tradicional!

Enquanto permaneço estupefato, minha estratégia desmoronando em um erro fatal diante dos meus olhos, Targa se aproxima de mim e grita: [Sua Excelência! Estamos recuando para a Fortaleza Centena! Presumo que o senhor não tenha objeções?!]
Olho nos olhos dele, que estão inundados de raiva amarga. Atualmente, minha mente começa a funcionar novamente. [Claro que não! Essa é a nossa única opção! Todos capazes de conjurar magia, disparem seus melhores feitiços contra a parede de soldados inimigos que nos flanqueia! Se pudermos esmagar a linha de frente da formação deles, poderemos desacelerá-los!]
| Stradale | [Sim, senhor!], Stradale parte a cavalo para entregar minha ordem aos outros.

Giro no meu cavalo e começo a conjurar um feitiço. Minhas tropas disparam uma saraivada de flechas, tentando nos ganhar tempo para recuar. Respiro fundo, e então lanço um feitiço de fogo de nível médio contra o exército inimigo que se aproxima. Targa e os outros fazem o mesmo momentos depois, usando magia de amplo alcance, alto nível e superpoderosa. Eles conjuram feitiços em menor quantidade, porém mais poderosos, em vez de um número maior de feitiços de alcance médio, mas obtêm um alcance muito maior como resultado.

| Jalpa | [Frebúsia], eu digo, ativando meu feitiço. Meu braço direito, que está trajado em uma manopla de mithril e couro de dragão de fogo, é engolfado em chamas rodopiantes que se movem como se estivessem vivas. As chamas se intensificam até dispararem em direção à infantaria inimiga que se aproxima, cercando e engolfando os soldados em um cinto de fogo e reduzindo-os a cinzas.

Do outro lado, o inimigo enfrenta tsunamis e linhas de lanças feitas de terra. O poder combinado de toda essa magia é suficiente para conter o exército massivo que se aproxima como uma avalanche pelas encostas ao nosso redor.
Um calafrio corre pela minha espinha, parando-me antes que eu possa soltar um suspiro de alívio. Se isso faz parte do grande plano de Yelenetta, então não terminará aqui. Eles não seriam tão tolos a ponto de deixar sua presa escapar após nos atraírem para fora do nosso ninho.

| Jalpa | [Não baixem a guarda!], eu clamo, erguendo a cabeça. [Eles foram contidos em seu avanço! Corram— Ah!]

O céu fica subitamente escuro. Não consigo ouvir nada, mas uma dor aguda corre pelo meu corpo. Algo está errado. Eu deveria estar cavalgando meu cavalo, mas parece que algo está pressionando contra meu ombro direito, meu quadril direito e ambas as minhas pernas.
Minha visão retorna lentamente a mim. Eu ainda não sei o que aconteceu, mas consigo juntar as peças e perceber que estou onde comecei. Isso é perigoso. Aquele dragão amaldiçoado vai chegar antes que os canhões possam acabar conosco. À medida que minha visão embaçada clareia, vejo um cavalo absurdamente grande correndo em minha direção. É tão grande, na verdade, que não consigo ver o rosto da pessoa que o cavalga. Tudo isso é tão estranho.
O cavalo para na minha frente, chutando um pouco de terra no meu rosto, e ainda assim não consigo ouvir nada. O cavaleiro parece estar estendendo a mão para mim e gritando algo, mas não consigo ouvir uma palavra. Sem entender o que está acontecendo, estendo a mão em direção à pessoa no cavalo e tento erguer meu corpo, mas sou dominado por uma tontura.

Ah, entendi agora. Estou caído no chão.

Olho para minha mão e descubro que ela não se parece em nada com o que costumava ser. Dois dos meus dedos do meio se foram. É provável que eu tenha sofrido outros ferimentos graves também, mas é bizarro como tudo parece distante, como se estivesse acontecendo com outra pessoa.

| Cavaleiro | [Sua Excelência!], o cavaleiro desce do cavalo e começa a gritar na minha cara, parecendo grave. Parece que meus ouvidos estão finalmente funcionando de novo.

| Jalpa | [Eu... sei... Apenas... espere...], não consigo mover muito bem minha boca e mal consigo distinguir minha própria voz. Agora que minha audição retornou, meu corpo está ficando dormente e minha dor de cabeça se intensificando. Arrastei meus braços pelo chão, tentando me levantar, e o cavaleiro me puxa para cima e me deixa apoiar meu peso contra seu ombro.

Foi quando descobri quão sombria era a situação.
Um disparo de um dos canhões atingiu a retaguarda da nossa cavalaria em cheio. Há cerca de cem cadáveres na minha frente, cavaleiros e cavalos do mesmo modo. Na verdade, é possível que alguns deles ainda estejam vivos, mas um ferimento no campo de batalha significa morte, de um jeito ou de outro.
Imagino que o lado bom tenha sido eu ter dividido minha Ordem de Cavalaria em esquadrões menores. À distância, vejo um grande número de cavaleiros no processo de recuo. Mas um único olhar ao redor demonstra quantos dos meus homens se tornaram bucha de canhão.
A guerra tinha mudado. Esta é a prova, por mais doloroso que seja aceitar isso.
Avisto um cavaleiro grande cavalgando em nossa direção, a uma curta distância. Eu reconheceria aquela estrutura física massiva em qualquer lugar. É o Targa.

| Targa | [Sua Excelência! O senhor está bem?!]

O que aconteceu com a Ordem de Cavalaria do Targa? Talvez ele tenha deixado seu vice-comandante no encargo temporariamente.

| Jalpa | [Nós... não podemos... ter todos os... oficiais comandantes... em um só lugar!], eu digo, surpreso com quão rouca minha voz tinha ficado. Ambos os cavaleiros me entendem perfeitamente bem, no entanto, e o Targa acena com a cabeça, um olhar de desespero no rosto.
Ele lança um olhar para o cavaleiro que está me segurando. [Você consegue colocar Sua Excelência em um cavalo?]
| Cavaleiro | [Com sua ajuda, sim. Podemos amarrá-lo ao meu corpo com alguma corda]
Enquanto eles discutem isso, sinto-me ficando mais irritado a cada momento. [Seus tolos... Eu me recuso a... ser a bagagem de alguém!]
Tento me afastar dos cavaleiros, mas eles rapidamente me impedem. [O-o senhor não deve se mover!]
| Targa | [Sua Excelência, sua perna está...]

Lanço meu olhar para baixo. Fazer isso dói meu pescoço, mas este não é o momento para se preocupar com tais trivialidades. Como se constatou, minha perna direita termina no meu joelho. Alguém a tinha tratado envolvendo minha coxa firmemente, mas eu ainda estou perdendo sangue rapidamente.

| Jalpa | [Apenas deixem...me aqui. Encontrem-se... com o Stradale, e re... organizem-se em Centena], se eles tentarem me levar de volta para a fortaleza, seremos todos mortos, e a batalha estará verdadeiramente perdida.

Então percebo quão ingênuo foi meu pensamento. Nós já tínhamos perdido.
Ouço explosões de longe. Targa acalma seu cavalo em pânico e começa a se preparar para nosso recuo.
Solto um suspiro muito, muito profundo. Não há sentido agora em tentar proteger meu orgulho. Eu sou o Marquês Jalpa Bul Ati Fertio, o nobre de alto escalão encarregado de proteger esta terra. Se eu não fizer tudo ao meu alcance para realizar essa tarefa, nunca poderei encarar meus pares ou meu país novamente.

| Jalpa | [Targa], eu digo por fim.
| Targa | [Senhor!], o homem grande se vira para me encarar, e eu o encaro bem no fundo dos olhos.
| Jalpa | [Chame pelo, Van], eu coaxo. [Barão Van... Nei Fertio... é a única pessoa que pode... nos levar à vitória]



Targa


O PEDIDO DO MARQUÊS PARA QUE EU CHAMASSE PELO BARÃO VAN evocou uma variedade de emoções em mim, mas minha prioridade é nos tirar dali.

| Cavaleiro | [S-Sir Targa! O dragão da terra está quase aqui!], diz o cavaleiro. Aceno com a cabeça.
| Targa | [Estamos perto demais. Não seremos capazes de escapar a menos que desferirmos um golpe na besta], virei-me para olhar o dragão que se aproxima. [Reúna todos e corram para Centena. Estou contando com você para cuidar de Sua Excelência]
Ergo o marquês com um braço só e o coloco no cavalo do cavaleiro, habilmente amarrando os dois homens juntos.
O cavaleiro recolhe o queixo, parecendo grave. [Boa sorte, senhor. Lembre-se, Centena precisa do senhor]
| Targa | [Eu sei]

O cavaleiro parte em disparada e, enquanto o observo ir, começo a cantar meu feitiço. Eu estou arriscando tudo no limite. Se o dragão da terra usar seu sopro agora, eu estarei morto.

| Targa | [Um rufus, eh?], não consigo evitar de deixar escapar uma risada ao descobrir o tipo de dragão da terra contra o qual estamos lidando. [E eu pensando que as coisas já estavam tão ruins quanto poderiam ficar]

Dragões da terra são conhecidos por sua tenacidade, mas o consenso é de que geralmente se movem devagar. Infelizmente, os rufus são diferentes. Eles são mais próximos em natureza dos dragões das florestas, então, embora não possam voar, são mais rápidos em seus pés e mais espertos do que outros dragões da terra. Como outros dragões da terra, no entanto, seu sopro é extremamente poderoso, se bem que estreito em alcance. O único lado bom que pude encontrar nesta situação é que eles não têm a pele tão dura quanto os outros membros de sua espécie.

| Targa | [Espinho de Terra], eu pronuncio. No momento em que ativo minha magia, uma matriz de lanças de terra, cada uma do tamanho de um corpo humano, irrompe do chão na frente do dragão, criando uma parede imponente. Dragões da terra são tão duros que tentar combatê-los usando magia de terra é uma tolice. O melhor que eu poderia esperar era conter a besta.

E, como esperado, apenas consigo desacelerar a criatura. Usando suas patas dianteiras grossas, ela pisoteia as lanças, esmagando-as sob seus pés.

| Targa | [... Sou uma péssima combinação contra esta coisa, mas não há muito que eu possa fazer quanto a isso. Muralha de Rocha!], eu grito, conjurando meu feitiço e invocando uma parede de mais de quatro metros de altura para bloquear o caminho do dragão. A parede é apenas uma parede, embora uma extraordinariamente espessa e dura; magia simples, mas eu espero que seja o suficiente para me conseguir algum tempo.

Não tive tempo para relaxar, no entanto, antes de ouvir uma explosão próxima. A princípio pensei que fosse um canhão inimigo, mas logo percebo que este estouro foi de tamanho muito menor.

| Targa | [As esferas negras!], eu giro nos calcanhares para varrer meus arredores e encontro a cavalaria inimiga vindo a cavalo de ambos os lados — algumas dúzias de combatentes mirando cortar meus meios de fuga. Para piorar as coisas, também avisto a cavalaria inimiga perseguindo o marquês à distância. [Não estão facilitando as coisas para nós, estão?!]

Ranjo meus dentes, tentando suprimir minha fúria. Enquanto o gosto de sangue preenche minha boca, queimo os neurônios em busca de uma solução. Nesse meio-tempo, dou impulso ao meu cavalo e desfiro um corte em um dos homens que se desviou do grupo maior de soldados para se aproximar de mim. Esferas negras explodem ao meu redor.
A única escolha que me resta é cavalgar o mais rápido que posso, sabendo muito bem que a morte espreita na esquina.
Chego a entender algo sobre os canhões do inimigo, mesmo enquanto seus disparos explodem ao meu redor sem parar: é quase impossível atingir um alvo em fuga com o fogo dos canhões. Na maioria dos casos, o projétil do canhão acaba voando para algum lugar inesperado. Eu temo as esferas negras muito mais; a curta distância, elas são aterrorizantemente mortais. O sopro do dragão é igualmente assustador.

| Targa | [Tch, não consigo alcançar!], enquanto eu estiver a cavalo, posso me esquivar das esferas negras lançadas pela cavalaria inimiga, mas eu nunca alcançaria o marquês a este ritmo. Estou encarando as costas do Lorde Fertio, irritado pela minha incapacidade de alcançá-lo, quando noto um cavaleiro grande se aproximando de mim a cavalo.
Seu manto é preto, exatamente como o do marquês, e tem um touro dourado nele.
| Targa | [Sir Stradale!], eu grito enquanto o homem cavalga em minha direção como se tivesse cronometrado sua aparição. Mas essa não é a real surpresa. Não, a real surpresa vem a seguir.

Stradale cavalga vindo de logo à frente do marquês, e então avança direto contra a cavalaria que se aproxima da minha posição por trás. Ele tem um desejo suicida? Essa é a única conclusão que eu poderia tirar de suas ações. Mas mesmo com seu cavalo galopando a toda velocidade, ele consegue ceifar as cabeças dos cavaleiros que correm em sua direção. Eles apenas se cruzam pelo mais breve dos momentos e, naquele instante, cinco cabeças rolam pelo chão.

Sem diminuir sua velocidade, ele cavalga até mim. [Você tem a minha espada]
| Targa | [Sou grato!]

Essas poucas palavras são suficientes para entendermos as intenções um do outro. Stradale é o braço direito do Lorde Fertio até o fim. Ele colocará sua vida em jogo para proteger seu mestre. Observo o Stradale por trás enquanto ele corre através de explosão após explosão e me vejo com inveja do marquês. Não, da relação que eles compartilham.

| Targa | [Espinho de Terra], conjuro minha magia, dividindo a cavalaria em dois grupos. Compreendendo instantaneamente minha intenção, Stradale abate os soldados por perto.
Apesar das explosões quase constantes ao nosso redor, o homem não dá sinais de fraquejar. Ele consegue manter seu cavalo aterrorizado calmo mesmo enquanto derruba soldado inimigo após soldado inimigo.
No fim, a cavalaria recua.

| Targa | [Acho que já está na hora], eu digo ao Stradale, observando-os ir embora.
Ele se vira rapidamente. [Entendido]

Bem nessa hora, o dragão da terra aparece atrás dele, tendo finalmente superado a parede que fiz. Ela conteve a besta por mais tempo do que eu esperava, mas se temos tempo suficiente para recuar é muito mais duvidoso.

| Targa | [Perdoe-me], eu digo. [Só pude conter a criatura]
| Stradale | [Não se preocupe. Vamos fazer o dragão de tolo e esmagar um de seus olhos]
| Targa | [Você está falando sério?], eu pergunto, atônito por ele conseguir dar de ombros e fazer piadas em um momento como este.



Stradale acena com a cabeça sem dizer nada, e então dispara em direção à besta colossal.
Atônito e em pânico, começo a cantar um feitiço, mas o dragão rapidamente se prepara para usar seu sopro. Eu não tenho certeza se conseguirei me esquivar a esta altura. Mas então, vejo o Stradale arremessar algo, e uma explosão irrompe bem na frente do dragão.

| Targa | [As esferas negras...!], quando ele pôs as mãos naquilo? Ele as tinha desde o início? Não, nada disso importa neste momento; o que importa é que nossas chances tinham melhorado significativamente.

Como o Stradale sem dúvida antecipou, o dragão se vira em sua direção e parece concluir que, entre nós dois, ele é a ameaça maior. Infelizmente para a besta, isso foi mais do que um pouco ingênuo.

| Targa | [Deixar sua boca escancarada desse jeito é uma péssima falta de educação], eu digo. [Espinho de Rocha!]

Conforme conjuro meu feitiço, uma lança de pedra enorme aparece na frente da boca do dragão, esmagando sua mandíbula superior. Nem mesmo um dragão pode controlar quão macia é a pele do interior de sua boca. Não consegui empalar o monstro, mas o ataque foi forte o suficiente para manter seu sopro temporariamente sob controle.
O dragão solta um rugido de ensurdecer os ouvidos e chacoalha a cabeça, reduzindo a lança de pedra a pó. Mas enquanto isso acontecia, Stradale corria para o lado dele. Mesmo à distância, eu o ouço soltar uma respiração afiada — [Hah!], — enquanto balança sua espada e corta a perna do dragão. Seu corte não decepa o osso, mas ele foi bem-sucedido em ferir a imensa besta com sua arma, uma façanha tremenda por si só.
Furioso, o dragão chicoteia seus membros e cauda para todos os lados, golpeando qualquer coisa nas proximidades. A essa altura, no entanto, Stradale está bem fora do seu alcance. Para meus olhos, parece que o Stradale e seu corcel haviam se tornado um só.

Quando o dragão para de se rebater, ativo meu próximo feitiço. [Muralha de Rocha!], eu grito, invocando uma parede entre nós e o monstro e finalmente nos dando a chance de recuar. [Terminamos aqui! Recuar!]
| Stradale | [Entendido!], Stradale grita prontamente.

No mesmo momento, vejo o topo da muralha explodir enquanto o dragão se choca contra ela, disparando pedaços de destroços do tamanho de humanos contra nós. Torço meu tronco, tentando me esquivar, mas um impacto violento contra meu ombro direito me lança para fora do meu cavalo. Rolo pelo chão múltiplas vezes antes de finalmente parar com o rosto na terra.

| Targa | [Ngh...], resmungo de dor, cravando meu cotovelo na terra e erguendo a cabeça.

Um dos canhões tinha acertado em cheio a muralha. Apesar de quão espessa eu a tinha feito, a parte superior da estrutura de pedra foi explodida, e vejo o dragão da terra descansando suas patas dianteiras sobre ela.
Escuridão e desespero se abatem sobre mim.



| Targa | [S-Sir Stradale...], eu chamo. O comandante da Ordem de Cavalaria do marquês é o único homem em quem eu poderia me apoiar nesta situação severa. Ele está soterrado em algum lugar sob os destroços. Ele já tinha —?

Antes que eu pudesse terminar o pensamento, ouço alguém galopar em minha direção.

| Stradale | [Sir Targa! O senhor está bem?!]

É o Stradale. Ele não está completamente ileso; seu elmo tinha ido embora e uma única trilha de sangue escorria por sua testa. Felizmente, ele está com todos os membros intactos e seus olhos ainda transbordam vida.

| Targa | [E-eu estou bem], eu respondo, erguendo meu tronco. Meu braço direito está dormente demais para se mover, então empurro a palma da minha mão esquerda contra o chão e fico de pé. Stradale me observa cuidadosamente e acena com a cabeça, para depois lançar um olhar feroz para o dragão à distância.
| Stradale | [Nossas únicas opções são lutar até a morte ou arriscar a vida e os membros para recuar. Qual o senhor prefere?], ele pergunta.
Crio um rompante de risos. [Pfft! Ha ha ha! Qual eu prefiro? Eu sou um cavaleiro. Quero colocar minha vida em jogo para proteger nossa grande nação. Se estiver nos planos, também gostaria de levar a cabeça daquele dragão e me tornar um matador de dragões]

Um sentimento risível, dado que um dos meus braços está inútil, mas o Stradale sorri de qualquer forma e recolhe o queixo.

| Stradale | [Que coincidência. Um antigo subordinado meu derrotou um dragão não muito tempo atrás, e eu estava justamente pensando que não deveria me deixar ser superado. Poderia contar com sua assistência?]
| Targa | [Com certeza], eu digo com um sorriso antes de me virar para o dragão e começar meu canto mágico.

Eu não tenho mais a força de espírito para ficar atento ao fogo dos canhões inimigos. Tudo o que eu posso fazer é bombardear o dragão com toda a magia que eu tenho e atrair sua atenção para mim.

Minha morte será espetacular.

Pelo canto do olho, pego o Stradale assumindo uma postura com sua espada. Meus lábios formam um sorriso.
No momento seguinte, uma dupla de cavaleiros altos passa voando por nós como o vento.

| Targa | [O qu—?], eu digo idiotamente enquanto observo o que transcorre. Pensamentos banais cruzam minha mente, como: Eu nunca vi um cavaleiro mais alto do que eu.

Meu olhar atônito trava nas costas dos dois cavaleiros, o feitiço que eu estava conjurando totalmente esquecido. Eles correm em direção ao dragão enquanto ele debruça seu tronco sobre a muralha de pedra. Os cavaleiros disparam a velocidades aterrorizantes e, logo antes de se chocarem contra a muralha, impulsionam-se contra o chão e ganham o ar, correndo pela muralha de uma maneira que só poderia ser descrita como inumana.
Eles balançam suas espadas. O dragão da terra solta um rugido que me faz estremecer, e o céu se pinta de vermelho com seu sangue. O cavaleiro da direita corta limpidamente a perna dianteira do dragão, enquanto o da esquerda decepa partes de suas mandíbulas superior e inferior. Humanos não possuem esse tipo de força.



Stradale, ao meu lado, deve ter se sentido de forma semelhante. Seus olhos estão arregalados e travados na visão que se desenrola diante de nós. E não termina aí. Imediatamente após esses ataques iniciais, ouvimos o som do ar sendo perfurado e o dragão da terra começa a convulsionar.

Ao meu lado, ouço um Stradale confuso perguntar: [O que aconteceu?], mas não possuo respostas. Observamos enquanto o dragão se dobra para trás e desmorona no chão. Mantenho meus olhos bem abertos, tentando entender o que tinha acontecido, e avisto um único ponto negro na muralha de pedra que eu tinha feito. Não estava lá antes, então talvez seja um buraco.

| Targa | [Você está me dizendo que algo perfurou a muralha de pedra e atingiu o dragão do outro lado...?], eu não acreditei em minhas próprias palavras, embora isso explique o colapso do dragão. Luto para juntar meus pensamentos no meio de toda a confusão. Onde foi? Onde eu tinha ouvido falar sobre um virote capaz de perfurar escamas de dragão...?
Bem nessa hora, ouço a voz sossegada de uma criança. [Vocês estão bem, pessoal?]

A voz vem de longe, mas de alguma forma ainda ecoa alto pelo ar. Eu me viro para encontrar dúzias de cavaleiros na nossa retaguarda acompanhando um conjunto de carruagens de aparência estranha. Sentadas no boleia da carruagem da vanguarda estão duas crianças e um cavaleiro trajado em uma armadura resplandecente. Lanço um olhar para a criança de cabelo prateado no meio, finalmente me lembrando do que estava na ponta da minha língua.
O filho mais novo da Casa Fertio. Um gênio agraciado com o título de barão antes dos dez anos de idade. Eu tinha ouvido falar tudo sobre os feitos inacreditáveis que ele supostamente realizou no campo de batalha.

O garoto para sua carruagem ao nosso lado e oferece um sorriso, do tipo que não pertence ao campo de batalha. Contudo, por alguma razão, não parece fora de lugar. [Fico feliz por ter chegado a tempo! Agora se apressem e subam!]
| Targa | [Você tem nossa gratidão], eu digo. [Estou certo em pensar que você é o Barão Van Nei Fertio?]
| Van | [Sou eu mesmo! Mas podemos deixar as apresentações para mais tarde! Vocês dois podem subir nesta carruagem. Por favor, se apressem. Eles podem começar a atirar na gente a qualquer momento!]
| Targa | [Minhas desculpas], ele está certo; não é hora para apresentações. Agradeço a ele e me embarco na carruagem. Ela é gigantesca, mas o que acho ainda mais fascinante é seu design. No topo repousa um virote de cerco gigante; com certeza ele não usou aquilo para atirar no dragão?

Perguntas aceleram na minha mente. Entro na carruagem, meu olhar caindo imediatamente sobre uma mulher bonita cuja aura é facilmente a mais forte de qualquer um presente. Ela é claramente uma soldada nata. Em seguida, noto uma empregada fora de lugar e uma jovem bonita.

As surpresas continuam vindo, deixando-me incapaz de reagir adequadamente a qualquer uma delas. Em vez disso, saúdo brevemente todos na carruagem. [Com licença pela intrusão. Eu sou Targa Brescia, o comandante da Ordem de Cavalaria da fronteira encarregado de proteger Centena. Vocês têm minha gratidão por virem em nosso auxílio]
A beleza de cabelo loiro permanece sentada com as pernas cruzadas e dá de ombros. [A própria Scuderia estaria em perigo de cair em mãos inimigas se não protegermos esta região. Você não tem nada a nos agradecer. Ah, eu sou Panamera Carrera Cayenne e estou aqui para prestar assistência como aliada do Barão Van]
Eu franzi a testa. [Viscondessa Panamera... Ouvi falar muito sobre você], que ela é tremenda e talentosa. Que ela abriu caminho para a nobreza a despeito da sua linhagem. Que ela não demonstra misericórdia com aqueles que se opõem a ela.
| Panamera | [E o que, exatamente, você ouviu, Sir Targa? Adoraria saber]
| Targa | [Ah, minhas desculpas. Não quis ofender], eu digo, passando sem elegância pelo assunto. [Sinto muito por me intrometer, mas estaria tudo bem se eu andasse com todos vocês?]

Eu me sento em um dos assentos vagos, ao lado da empregada. O interior da carruagem é muito maior do que parece pelo lado de fora. Mesmo com quatro ocupantes e comigo sendo maior do que a maioria das pessoas, continua espaçoso. Stradale é um homem grande também, mas ele não terá problemas tampouco.

Eu me viro em direção à porta, mas o homem em questão não é encontrado em lugar nenhum. Em seu lugar, o garoto de cabelo prateado aparece. [O Comandante Stradale me disse para trocar de lugar com ele], ele diz com um sorriso culpado, subindo na carruagem. Ele se senta entre a Panamera e a jovem, com um olhar inocente no rosto.




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