Capítulo 5 – Retornando para Casa
Com a Cidade-Fortaleza Murcia finalmente concluída, é hora de voltar para casa. Reúno todos junto aos portões da frente que dão para Scuderia para oferecer a eles a minha gratidão. [Foi um projeto e tanto, mas concluímos todos os pedidos de Sua Majestade. Muito obrigado a todos!]
| Soldados | [[[[[Sim, senhor!]]]]], responde a Ordem de Cavalaria.
Na primeira fileira estão o Murcia e os comandantes temporários de sua Ordem de Cavalaria, Dee e Arb. Atrás deles estão duzentos membros da Ordem de Cavalaria da Vila Seatoh, cerca de cem guardas pessoais o Murcia e mais ou menos dez aventureiros que vão ficar para trás com o Murcia e o resto. O garoto supergênio, o pequeno Van, enquanto isso, posiciona-se ao lado de sua bela noiva Arte, da adorável empregada Till e do Khamsin, o menino que um dia será o cavaleiro mais forte de todos. Também tenho o Lowe e o Rango, Paula e seu esquadrão de arcos de repetição, e outros dez aventureiros para nos proteger e guiar pelas montanhas.
| Van | [A Companhia Bell e Rango começará a fazer viagens de reabastecimento para cá em breve, então fiquem à vontade para gastar todas as especiarias e bebidas que vocês têm agora], eu digo com um sorriso. Murcia acena com a cabeça.
| Murcia | [Obrigado, isso tira um pouco do peso dos meus ombros. Comida é a chave, afinal. Lamento fazer pedidos a você, mas seria de grande ajuda receber reforços o quanto antes. Detesto admitir, mas estou apavorado com a possibilidade de outro ataque de Yelenetta]
Aceno positivamente, montando rapidamente um plano na minha cabeça. [Claro. Como a Cidade-Fortaleza Murcia será a linha de frente desta guerra, planejo manter um certo número de combatentes na Vila Seatoh e enviar outros para cá como reforço assim que eu puder. Devemos ficar bem por lá, já que também temos a Ordem de Cavalaria Esparda. Então, se o nosso plano de povoar este lugar der certo, seremos capazes de enviar ainda mais reforços]
A expressão tensa do Murcia finalmente relaxa. [Isso seria muito útil. Sou um mago elemental, mas não sou talentoso o suficiente para mudar o rumo de uma batalha por conta própria], diz ele com naturalidade.
Isso me faz pensar nas melhores maneiras de usar a magia dele. Um rifle de ar vem à mente, mas a ação mais eficaz seria usar sua magia de vento para detonar armadilhas remotamente. Poderíamos construir uma ponte de pedra falsa que apenas parecesse resistente, por exemplo, e então, quando o momento fosse o correto, fazer o Murcia destruir a estrutura com sua magia de longe. Algo assim seria eficaz contra os nossos inimigos.
E se preparássemos múltiplas armadilhas desse tipo, nossas capacidades defensivas, mesmo em uma guerra contra uma nação massiva, aumentariam aos trancos e barrancos.
| Van | [Não], digo finalmente, [tenho uma maneira melhor de usar a sua magia. Deixe-me pensar um pouco a respeito]
| Murcia | [Huh? Sério?]
| Van | [Sim. Sua magia é tão rara que quero fazer o uso mais eficaz possível dela]
Isso conclui nossa conversa. Ofereço mais palavras de apreço às pessoas alinhadas na minha frente e, em seguida, explico a importância de defender este reduto. Finalmente, volto-me para as pessoas que vão se juntar a mim na viagem de volta e informo que é hora de cruzar mais uma vez a Cadeia de Montanhas Wolfsbrook. Minha postura é grave; o caminho diante de nós está apinhado de monstros enormes e, não importa quanto trabalho de estrada eu tenha feito, não podemos nos dar ao luxo de baixar a guarda.
Como se constatou, tudo isso foi em vão. Assim como na nossa última viagem pelas montanhas, ter aventureiros habilidosos, balistas e meu esquadrão de arcos de repetição faz com que a travessia pela Cadeia de Montanhas Wolfsbrook pareça um passeio pacífico. Os monstros são avistados muito antes de chegarmos a eles e são eliminados antes que se tornem um problema. E com nossas carroças sendo capazes de progredir rapidamente pela estrada, vivenciamos muito menos incidentes perigosos.
Sendo a nossa jornada o que é, passar a noite ao relento era inevitável, mas conseguimos até mitigar esse problema. Construo três grandes instalações de descanso nas áreas abertas em que deparamos. Elas não são de modo algum complexas, mas podemos descansar ali com paz de espírito. Por causa de tudo isso, nossa viagem de volta para casa foi ainda mais rápida e calma do que previa.
O verdadeiro inferno veio depois que chegamos à Vila Seatoh. Embora minha primeira noite em casa tenha sido relaxante, Esparda me convocou para uma reunião de emergência logo no dia seguinte.
| Van | [Bom dia], eu murmuro, esfregando meus olhos sonolentos.
Esparda, trajado em suas vestes habituais de trabalho, acena com a cabeça. [Bom dia, Lorde Van. É hora do trabalho. Vamos começar com os assuntos que discutimos anteriormente]
| Van | [Uh, que assuntos eram esses?]
Ele fixa seus olhos nos meus. [O senhor propôs que treinássemos pessoas talentosas], 『certamente o senhor não se esqueceu?』 ficou subentendido.
Entro em pânico e esquadrinho meu cérebro, tentando lembrar o que ele quer dizer. [Ah, sim! Claro! Eu me lembro! Você está falando daquela garota que está trabalhando sob o seu comando, certo?]
Ele fica me encarando, quase como se estivesse contando cada gota de suor que escorre pelo meu rosto. [Correto. Incluindo ela, terminei de treinar cinco indivíduos até o nível um]
| Van | [Cinco?! Isso é incrível! É notável que você tenha conseguido deixá-los prontos para começar em menos de um ano... Espere, o que é o nível um?]
Esparda ergue uma mão, com a palma para fora. [Dividi o currículo deles em cinco etapas. O nível um significa que eles conseguem gerenciar as coisas apenas durante um período de paz. No nível um, eles memorizaram os fundamentos e conseguem lidar com uma variedade de situações. No nível três e além, posso confiar neles para lidarem com situações imprevistas por conta própria]
| Van | [Huh. Acho que eu devo ser nível três, certo?], eu pergunto modestamente.
Ele estreita os olhos. [Lorde Van, em assuntos de guerra, o senhor é nível quatro. Da mesma forma quando se trata de seus estudos. No entanto, o senhor está apenas no nível dois em administração interna, e para diplomacia e tratamento com a nobreza, eu o colocaria no nível um. Oh, e no lado comercial das coisas, eu diria que o senhor se situa no nível três]
| Van | [M-muito obrigado], consigo dizer diante dessa enxurrada de críticas.
Vendo meus ombros caírem de desânimo, Esparda afaga gentilmente sua barba. No que ele está pensando? [Nas áreas em que se destaca, o senhor demonstra um conhecimento e uma iniciativa notáveis. O senhor é desmotivado, no entanto, em questões de etiqueta, relacionamentos com a nobreza e diplomacia internacional. O senhor deve trabalhar mais duro para superar suas fraquezas]
| Van | [S-sim, eu entendo...]
Essencialmente, ele está me dizendo que vamos focar em todas as matérias que odeio daqui para frente. Que triste para o pequeno Van! Tenho zero interesse em aprender sobre o banquete de algum conde ou quais viscondes um marquês convidou para um baile, e desejo negativo por uma promoção para algum cargo importante no reino. Planejo continuar enclausurado no meu território; juntar-se a uma facção terminaria comigo tendo que comparecer a banquetes e bailes todo mês, o que não é nem um pouco atraente.
Meu relacionamento diplomático ideal é o que tenho com a Panamera, que vem até aqui para passar o tempo, tomar um banho agradável e tomar algumas bebidas comigo e com meus amigos.
Esses pensamentos dificilmente condizem com um membro da nobreza, então tomo o cuidado de não dizer nenhum deles em voz alta. Mas o Esparda suspira, enxergando direto através de mim. [Sei que o senhor abomina tais aborrecimentos, por isso treinei duas pessoas para administrarem as coisas em seu lugar. Uma é uma ex-nobre que, devido ao seu histórico, é muito suspeita em relação aos outros. A outra é a filha mais velha de um cavaleiro; julguei-a mais do que talentosa o suficiente para o cargo. Daqui para frente, vou incluí-las proativamente em assuntos que envolvam outros nobres. Eu as liberei de seus contratos de escravidão e as acolhi como filhas adotivas]
| Van | [Espere, o quê?! Você não pode simplesmente soltar uma bomba dessas do nada para cima de mim!], não consigo acreditar nos meus ouvidos, mas o Esparda apenas acenou positivamente, com sua típica cara de paisagem intacta.
| Esparda | [Ao lidar com a nobreza, é crucial ocultar as próprias intenções. Indivíduos brilhantes e compulsivamente honestos são os primeiros a serem aproveitados. Por outro lado, nobres que perderam suas casas e famílias e se tornaram escravos frequentemente possuem excelentes talentos]
Aqui está ele, friamente apresentando suas novas filhas (?!) como um recrutador profissional. Tudo o que posso fazer é segurar minha cabeça e acenar positivamente. [Tudo bem, eu entendo. Vou deixá-las em suas mãos capazes, então certifique-se de treiná-las bem]
| Esparda | [Certamente. Quanto aos outros três indivíduos, fui capaz de ensiná-los a gerenciar nossas finanças públicas, nossas mercadorias e a infraestrutura da cidade, respectivamente. Eu gostaria que o senhor conhecesse cada um deles para que possa decidir pessoalmente quanta discrição deve ser permitida a eles]
| Van | [É possível deixar você cuidar de tudo isso?]
| Esparda | [De jeito nenhum. O senhor é o verdadeiro líder deste território]
| Van | [... Tudo bem]
Ter mais terras com certeza vem acompanhado de dores de crescimento.
Ugh, ele é tão sério! Sério demais! Tão cabeça-dura, como um grande bloco de pedra!
Mas ele também é incrivelmente leal a mim e tem um forte senso de responsabilidade. É por isso que ele é tão estrito comigo e até com os outros. Sinceramente, é por causa dessa força de caráter que dou a ele autoridade total sobre tudo. Ele está encarregado não apenas de gerenciar meu território e suas defesas na minha ausência, mas também de decidir quem pode se mudar para cá como novo cidadão e até mesmo de gerenciar as partes de monstros e suas vendas, nossa principal fonte de renda.
Se o Esparda quisesse pegar o dinheiro e fugir, ele poderia facilmente ter feito isso no dia seguinte — esse é o tamanho da discrição que concedo a ele. O que é precisamente a razão pela qual posso confiar nele para selecionar quaisquer indivíduos de que precise para apoiá-lo ou gerenciar nossos vários deveres. Esparda sempre deixa as decisões importantes para mim, no entanto. Nunca se trata de suas próprias realizações; tudo o que ele faz é para me sustentar.
Contudo, tenho a sensação de que suas verdadeiras intenções residem em outro lugar.
Pensando a respeito, lanço um olhar ao redor da sala, um espaço que usamos para receber convidados especiais. Cinco indivíduos sentam-se em cadeiras equidistantes uns dos outros. Atrás deles estão o Esparda e o Lowe, encarando a parte de trás de suas cabeças. À minha esquerda estão o Khamsin e a Till, ambos de pé, e à minha direita senta-se Arte, olhando para as cinco pessoas.
As pessoas diante de nós estão claramente nervosas. Eles fixam seus olhos em mim e apenas em mim. Olho-os mais uma vez e digo: [É hora da entrevista final! Começando pela direita, por favor, apresentem-se e digam-me em qual campo vocês se especializam!]
Com a coisa toda tendo a vibe de uma entrevista de emprego coletiva japonesa, decido me jogar de cabeça no papel. Prevejo que minhas palavras vão surpreendê-los um pouco, mas o homem para quem apontei na extrema direita rapidamente se levanta.
| Giu | [Sim, senhor! M-meu nome é Giu Giaro, e sou um ex-escravo. Antes disso, trabalhei em construção e design, mas sofri uma grande redução no trabalho depois que outra empresa começou a monopolizar os serviços, e me tornei um escravo por dívida. Como escravo, temi pelo meu futuro, mas então a Companhia Bell e Rango me comprou, dando-me a oportunidade de viver aqui. Eu gostaria de oferecer ao senhor minha sincera gratidão!]
Assim começa a introdução seríssima do Giu. Fica imediatamente claro para mim por que o Esparda o selecionou. Esses homens e mulheres de aparência séria se apresentam um após o outro, até que finalmente chega a hora de a quarta pessoa falar.
Ela é uma jovem chamada Giulietta Berlina, e é membro da nobreza — a garota que o Esparda havia mencionado mais cedo. Uma garota fofa com cabelo loiro curto, ela parece quase sempre ter um sorriso no rosto e fala como se estivesse verificando sutilmente como a pessoa oposta está respondendo. Ela também expressa palavras de concordância e simpatia como se estivesse tentando captar as emoções de seu parceiro de conversa.
Esta é exatamente o tipo de garota que poderia se tornar a imperatriz de um lugar como Kabukicho. Se eu ainda morasse no Japão, poderia ter acabado gastando meu salário mensal com ela... não que eu já tivesse feito algo do tipo antes.
De qualquer forma, após a introdução dela, chega a hora da última pessoa. Ela é uma mulher alta, provavelmente por volta dos vinte e cinco anos de idade. Ela tem cabelos arroxeados que usa presos para trás e um olhar poderoso que lhe dá a aura de uma guerreira. Minha impressão inicial: ela é linda, mas também um pouco assustadora.
A mulher posiciona a coluna ereta e diz: [Meu nome é Emira Khomi. Nasci em uma casa de cavaleiros, mas nossa família ruiu depois que meu pai morreu no campo de batalha. Eu me vendi como escrava para salvar minha mãe e meu irmão mais novo. Felizmente, pude vir para cá, onde o Senhor Esparda me selecionou e começou a me treinar para trabalhar como governadora interina. Estou dando tudo de mim para esse objetivo para que possa corresponder às expectativas do Senhor Esparda e ser útil ao senhor, Lorde Van]
Ela curva-se profundamente. De todas as apresentações, a dela foi a mais simples, mas, por alguma razão, sua personalidade honesta realmente brilhou. Dou-me conta de que estou simpatizando bastante com a mulher, então decido lhe fazer algumas perguntas. [Emira, entendi. Você disse que nasceu em uma casa de cavaleiros, certo? Você tem algum conhecimento de esgrima ou estratégia de batalha?]
| Emira | [Sim. O meu pai não foi particularmente abençoado quando se tratou de ter filhos e, quando finalmente concebeu, teve uma filha. Não foi senão até eu completar dez anos que meus pais tiveram meu irmão mais novo, então, até aquele ponto, meu pai me treinou vigorosamente nos caminhos da espada. Estou confiante de que minha habilidade com a espada e a lança está, no mínimo, no mesmo nível da de um cavaleiro comum]
Aceno positivamente, depois lanço um olhar para o Esparda. [Quão avançada ela está no treinamento?]
| Esparda | [Acredito que ela poderia desempenhar suas funções como governadora interina de uma cidade pequena. Ela é mais do que capaz de gerenciar finanças, recursos e assuntos humanos, sem mencionar problemas pessoais e questões relacionadas à água. Ela ainda está aprendendo sobre tributação, mas, como ainda não coletamos impostos de nossos cidadãos, acredito que podemos adiar isso por enquanto]
| Van | [Entendi. Nesse caso, vamos fazê-la administrar a Vila Espa por um mês como um teste. Se não houver problemas, gostaria que ela atuasse em um papel de apoio lá na Cidade-Fortaleza Murcia. O plano é que o Murcia eventualmente assuma o controle de outras cidades e cidades-fortalezas; quando isso acontecer, quero que ela se torne a governadora interina no lugar dele]
Mas, antes que ele possa reagir, os olhos da Emira se arregalam. Apesar de sua postura calma, ela está claramente surpresa. [Governadora interina de uma cidade-fortaleza? E-eu?]
Eu adoro esse tipo de reação. Como um presente, o pequeno Van vai lhe dar uma balista! Você pode até usá-la na Cidade-Fortaleza Murcia!
Esparda afaga o queixo, parecendo sério. [Entendo. É verdade que eles têm uma necessidade maior de pessoal, e ela seria de grande ajuda para o Lorde Murcia. No entanto, meu plano original era que ela gerenciasse a Vila Espa e a Vila Seatoh. Terei que encontrar outra pessoa para treinar...]
Não consigo entender muito bem a relutância dele a princípio. Só depois de encará-lo por um momento é que me ocorre.
| Van | [Você está tentando me pressionar a cuidar de todos os pedidos de Sua Majestade, não está?], eu pergunto, estreitando os olhos para ele. Esparda desvia o olhar em desaprovação. [Nossa, isso é aterrorizante! Você quer ter um governador interino posicionado tanto na Vila Seatoh quanto na Vila Espa para que eu possa sair e fazer tudo o que Sua Majestade pedir?! Você sabe que eu não quero deixar a vila!]
Esparda franze a testa como se não estivesse esquematizando pelas minhas costas. [A verdade é que o senhor não deveria recusar nenhum dos pedidos dele, especialmente agora que ele depositou tanta confiança no senhor]
| Van | [Não, não, não! E quanto ao que eu quero? Se eu acabar fazendo tudo o que ele pede, ele vai me fazer ir para a capital!]
Eu não tenho a intenção de entrar em uma discussão generalizada com o Esparda, mas aqui estamos. Meus cinco entrevistados devem achar isso super desconcertante, mas isso é algo que eu tenho que deixar claro bem aqui e agora. Não me importa quem seja: ninguém tem permissão para entrar no caminho de eu viver uma vida agradável, longe de conflitos e das expectativas dos outros.
Arte limpa a garganta de forma adorável. Todos param e se viram para olhar para ela. Ela olha de volta para nós, com um sorriso gentil se formando em seu rosto. [Lorde Van, o que faremos a respeito da entrevista coletiva?]
Apesar de seu tom suave, dou-me conta de que estou endireitando minha postura. [Certo! Hum, deixe-me explicar tudo para as pessoas que vão gerenciar o território daqui para frente], eu digo, e vou direto ao ponto.
Bastou essa única frase da Arte para me colocar de volta nos trilhos. É hora de conversar com meus entrevistados sobre o futuro. [Esta conversa é apenas entre mim, as pessoas nesta sala, Dee, Arb e Murcia, tudo bem? Certifiquem-se de que vocês vão manter segredo]
| Todos | [[[[[C-claro!]]]]]
| Todos | [[[[[Absolutamente]]]]]
Todos os cinco concordam em manter os lábios selados e vejo em seus olhos que não estão mentindo. Aceno positivamente e continuo: [Então escutem com atenção. Estaremos aumentando a população da Vila Seatoh em um futuro próximo. Assim que fizermos isso, vou selecionar mais dez pessoas para gerenciar as coisas e mais dez candidatos para o comando das Ordens de Cavalaria. Enquanto esses indivíduos estiverem sendo treinados, vamos invadir o Reino de Yelenetta]
Os cinco entrevistados ficam tensos, com os olhos arregalados. Suas respostas são variadas, mas a reação de ninguém é abertamente negativa. [I-invadir Yelenetta?], diz um.
| Candidato | [Estamos em guerra, então eu estava preparado para isso], diz outro.
Satisfeito com a expressão no rosto deles, aceno positivamente de novo. [Vamos invadir Yelenetta e abrir caminho em direção à costa. No mínimo, ocuparemos quatro grandes cidades ou cidades-fortalezas ao longo do caminho, culminando com a ocupação da capital], todo esse plano deve parecer completamente sem cabimento para eles, mas estou confiante na minha explicação. [Suspeito que as cidades ocupadas se tornarão minhas, então vou acabar precisando da ajuda de todos vocês para gerenciar esses novos lugares]
Monitoro as reações deles enquanto falo, interrompendo-me ao ver suas expressões ficarem cada vez mais sérias. Isso me preocupa um pouco.
| Van | [Hum, só para deixar claro, eu não perdi o juízo nem nada], tranquilizo-os. [Entendido?]
Eles balançam a cabeça e acenam com as mãos para mim, parecendo muito mais em pânico do que eu antecipei. A vibe é como a de um grupo de criminosos caminhando no corredor da morte. [O-oh, nós sabemos!]
Rio um pouco e dou de ombros. [Quero dizer, eu entendo: o que um barão novato está fazendo indo contra uma grande nação estrangeira, certo? Bem, acontece que tenho uma paixão ardente em mim que me torna imparável], baixando a voz para um sussurro, eu adiciono: [Vou comer arroz com curry de novo não importa o que aconteça, e não vou perder para ninguém enquanto persigo esse objetivo]
Os entrevistados olham para mim com expressões vazias. Eu os ignoro.
| Van | [Daqui para frente, vou começar a fazer movimentos para aumentar a população da Vila Seatoh. Se esse influxo de pessoas incluir alguém com potencial para se tornar governador interino ou comandante de Ordem de Cavalaria, vou atribuir-lhes cargos independentemente de nascimento ou raça. No fim das contas, a qualidade mais vital para eles terem é uma grande personalidade. Vou selecionar pessoas que sejam idôneas e sérias no que diz respeito ao seu trabalho. Gostaria que todos vocês se certificassem de não ficarem para trás quando isso acontecer]
Os cinco entrevistados posicionam a coluna ereta.
PELA PRIMEIRA VEZ EM MUITO TEMPO, TENHO A CHANCE de falar com o Lorde Van diretamente. Tínhamos nos falado pela última vez quando ele nos cumprimentou pessoalmente após nossa chegada à Vila Seatoh.
Quando me tornei escrava, desesperei-me por ter perdido meu pai, visto a Casa Khomi ruir e sacrificado meu próprio futuro por minha família ao me vender. Ser jogada em uma gaiola e alimentada como gado certamente não ajudou. Os outros escravos engaiolados diziam que eu receberia um tratamento favorável porque era uma escrava de exibição que venderia bem no mercado, mas achei isso difícil de imaginar. Conversar com os outros escravos no caminho para a Vila Seatoh mudou minha percepção, mas, na época, eu realmente pensava que minhas circunstâncias eram as mais miseráveis possíveis.
Ser escrava significa ter um preço colocado em sua existência, e esse preço balança cruelmente sobre sua cabeça. Aprendi que eu valia quatro moedas de ouro. Um preço alto para uma escrava, talvez, mas aquilo me marcou de qualquer forma. A Companhia Bell e Rango me comprou em um acordo comercial semelhante a uma compra em massa, feita com a mesma leviandade que alguém poderia demonstrar ao comprar uma grande quantidade de pão — mas era eu quem estava sendo comprada. Pensei que minha autoestima já tivesse sido extirpada de mim, mas eu ainda devia ter um fiapo dela restante, porque até hoje me lembro de como foi difícil me conter para não soluçar.
Que crime horrível eu havia cometido? Quão miserável eu teria que me tornar antes de poder ser perdoada? Essas eram as perguntas que me preocupavam quando chegamos à Vila Seatoh e fiquei cara a cara com o Lorde Van. Ele era uma criança de oito anos, mas, mesmo naquela idade jovem, tinha a aura de um homem nobre. Essa foi minha primeira impressão dele. Mas, conforme ele falava conosco agora, fui forçada a reescrever essa impressão.
Que tipo de vida ele viveu para se tornar um nobre proprietário de terras na idade dele, fixar seu olhar no futuro e colocar seu plano em ação? O Senhor Esparda e o Senhor Dee deviam estar lhe proporcionando uma educação excelente, mas, mesmo assim, isso era incompreensível vindo de alguém tão jovem. Ele falava de objetivos para tornar a Vila Seatoh mais forte e mais abundante. Prometia proteger a qualidade de vida de seus cidadãos. Com a maioria das pessoas que se mudam para lá não tendo riqueza própria, ele lhes fornece comida e abrigo, tudo pago do próprio bolso.
Tudo a respeito disso é inacreditável. Antes de ser escrava, cresci em uma cidade que eu achava que era próspera, mas a Vila Seatoh é algo totalmente diferente.
Agora, o Lorde Van continua a cumprir sua palavra. Quando soube que nossa vila participaria da guerra contra Yelenetta, preparei-me para o pior — mas, de alguma forma, ele e os outros retornaram para casa sem uma única baixa. Não apenas isso, mas corre o boato de que os poderes do Lorde Van contribuíram significativamente para a vitória do nosso país.
Ouvindo isso, talvez por ter sido criada por uma família de cavaleiros, senti um senso de lealdade crescer dentro de mim, do tipo que eu nunca havia sentido antes. Eu preciso trabalhar ainda mais duro, eu pensei. Preciso ser útil ao Lorde Van. Mas as coisas não pararam por aí.
Aproximadamente um ano após nosso primeiro encontro, tive a oportunidade de falar com o Lorde Van novamente. Ele está com nove anos agora. Enquanto os outros moradores da vila tinham chances de socializar casualmente com ele, os outros e eu recebíamos instruções diretamente do Senhor Esparda, então nunca tínhamos esse tipo de tempo livre em nossas mãos. Essa é a primeira vez que eu o vejo em muito tempo.
Algo está diferente no Lorde Van. Talvez ele esteja mais alto agora? Algo nos olhos dele está diferente, com certeza. Percebi uma forte determinação neles.
E então ele declarou que invadiremos Yelenetta, o mesmíssimo país que havia tentado nos invadir. Para proteger sua terra natal, ele voluntariamente se colocará contra um inimigo massivo e poderoso.
Esse fato por si só me fez tremer. Eu quero sair correndo naquele momento e me gabar dele para todos que cruzarem meu caminho. Sentindo meu coração acelerar, coloquei uma mão sobre o peito e a fechei em um punho.
Eu entendo agora. Eu nasci para servir ao Lorde Van.
Talvez isso seja um clichê, mas parece o destino. Meu mundo outrora cinzento está de repente cheio de cor.


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