Capítulo 1 - O Dia em que a Barreira Desapareceu
Algum tempo depois da minha pequena visita ao território dos elfos, Tet e eu estamos no meio da nossa floresta, olhando para o céu.
| Tet | [Senhorita Bruxa, está acontecendo!]
| Chise | [Está sim]
Canalizando mana para nossos olhos, nós conseguimos ver a barreira em forma de domo que a Liriel ergueu ao redor da região eras atrás. Agora tendo cumprido seu propósito, a barreira começou a se dispersar.
| Chise | [É tão bonita], eu comento.
| Tet | [Parecem pétalas de flores dançando no vento!]
As deusas tinham me avisado que a barreira eventualmente desmoronaria, e parece que hoje é o dia. Um buraco se abre no topo do domo, espalhando-se gradualmente à medida que a barreira desmorona. Os fragmentos quebrados tremulam no vento como muitas pétalas de flores, dissolvendo-se gradualmente no ar e banhando a terra.
| Chise | [Eu pensei que a barreira duraria um pouco mais, mas parece que ela cumpriu seu propósito, né?], eu reflito em voz alta.
Esta terra, uma vez conhecida como o Deserto do Nada, tinha sido deixada estéril devido a um acidente causado por uma civilização predecessora. Todo o mana dali desapareceu instantaneamente, e a terra inteira se tornou uma espécie de vácuo de mana, absorvendo gradualmente a energia dos territórios ao redor até que a deusa Liriel ergueu uma barreira para parar isso. Sem a barreira, a concentração de mana de tudo o que faz fronteira com o Deserto teria despencado, levando à extinção de toda a fauna e flora que dependem de mana. Além de evitar que mana, pessoas e monstros entrem, a barreira também puxava mana não utilizada da Terra, revitalizando lentamente a terra.
No entanto, as coisas mudaram drasticamente quando eu fui reencarnada neste mundo.
Tendo sido invocada ao lado de uma infusão de mana da Terra, eu, junto com a Tet e meus outros amigos, passei décadas remodelando a zona de exclusão. Agora ela fervilha com plantas, animais e mana. Sendo assim, a diferença entre a concentração de mana do antigo Deserto e da área ao redor se tornou tão insignificante que quase não há mais necessidade da barreira. Eu sabia que ela desapareceria um dia, mas...
| Liriel | 『Ela se tornou completamente desnecessária agora』, a voz de uma mulher sussurra em nossos ouvidos enquanto observamos a barreira desmoronar.
| Chise | [Ahn?! Essa foi a Liriel?], eu pergunto com um sobressalto.
| Tet | [Tet ouviu ela também!]
Eu tinha sido capaz de me encontrar com a Liriel e suas irmãs quando elas me visitam em meus sonhos, e posso ouvi-las fracamente em lugares específicos no mundo desperto, como igrejas. Mas a voz dela nunca tinha soado tão nítida antes.
Liriel dá uma risadinha com a nossa reação. 【Parece que minha pequena brincadeira foi um sucesso】
| Chise | [Sua pequena brincadeira? Desde quando você consegue projetar sua voz tão claramente?], eu pergunto.
| Tet | [Outras pessoas conseguem te ouvir também?], Tet adiciona.
| Liriel | 『Minhas irmãs e eu só conseguimos nos comunicar com você assim agora que o mana da terra foi restaurado. E não, nem todo mundo consegue nos ouvir』, Liriel responde.
De acordo com ela, ela e suas irmãs conseguem entregar oráculos mais facilmente em lugares com abundância mana e uma forte presença espiritual. Aparentemente, a floresta agora atende a esses critérios.
| Tet | [Então nós vamos conseguir te ver mesmo quando não estivermos sonhando?], Tet pergunta, esperançosa.
| Liriel | 『Bem, isso vai ser um pouquinho difícil』, Liriel responde de jeito sem jeito. 『Anjos podem descer ao plano humano, mas nós, divindades, só somos capazes de manifestar temporariamente um fragmento de nós mesmas, e mesmo assim, vem com restrições』
| Chise | [Então é difícil, mas não impossível], eu digo, surpresa.
| Tet | [Tet espera que a gente tome chá com você e as outras aqui um dia!]
Ouvindo seu entusiasmo inocente, eu me pego pensando que seria bom se o desejo dela se tornasse realidade. Mas por agora...
| Chise | [Bem, pelo menos nós teremos um tempo mais fácil para nos comunicarmos com você agora, Liriel], eu digo.
Parece um pouco como conversar no telefone com um amigo que mora longe, e o pensamento me faz dar uma risadinha. Um sorriso se espalha pelo rosto da Tet quando ela me vê rir, e a Liriel murmura um quieto 『É verdade』, eu consigo perceber pelo tom dela que ela também está feliz.
Mas quando ela fala de novo, um tom de tristeza se esgueirou para suas palavras. 『Eu gostaria de poder continuar protegendo você, no entanto...』
Tet e eu imediatamente tentamos animá-la.
| Chise | [Nós sabíamos que isso estava vindo, então você não precisa se preocupar conosco], eu digo.
| Tet | [A Senhorita Bruxa está certa! Tet e a Senhorita Bruxa sabiam que a barreira quebraria um dia, então nós estivemos nos preparando para isso!]
Foi, como eu tinha mencionado antes, um pouco mais cedo do que eu tinha pensado, mas nós fomos capazes de criar nossos próprios meios para proteger a floresta. Não apenas temos os golems ursos da Tet patrulhando constantemente o perímetro, mas nós também implementamos as medidas anti-invasores que nossa nova amiga Elnea, a rainha dos altos-elfos, nos ensinou. Nós não temos um sistema de defesa perfeito ainda, mas o que temos funciona decentemente o suficiente.
| Chise | [Sério, nós estamos bem, Liriel. Você pode pegar o poder que usava para manter a barreira de pé e alocá-lo para outra coisa], eu digo.
| Liriel | 『Obrigada, Chise. Estou feliz por ter invocado você para este mundo』
A barreira continua se desintegrando enquanto falamos, até que nenhum traço dela foi deixado.
| Chise | [Eu realmente espero que as coisas continuem pacíficas...], eu murmuro.
Nós já tínhamos tido que lidar com sequestradores e caçadores ilegais quando a barreira ainda estava intacta, então as coisas só poderiam piorar agora que ela se foi. Esse pensamento me faz sentir um pouco desanimada, mas a Tet me reassegura com um sorriso. [Mesmo se algo ruim acontecer, contanto que estejamos todos juntos, vai ficar tudo bem!]
| Chise | [Você tem razão. Obrigada, Tet]
Por um tempo, nós duas apenas ficamos ali, contemplando o céu onde a barreira uma vez esteve.
O Império Mubad fica ao norte da Floresta da Bruxa da Criação. Sua capital imperial é preenchida com fileiras de casas de pedra e tijolos para blindar os habitantes do frio e da penumbra do clima do norte.
Algum tempo depois que a barreira da deusa caiu, uma série de incidentes começou a plagiar a cidade.
| ??? | [Os ataques aleatórios, né?]
Recentemente, houve um surto de agressões nas ruas da capital, todos à noite. Nenhuma das vítimas mostrava qualquer ferimento visível, e todas tinham sido descobertas por guardas em patrulha. Mas quando médicos e curandeiros as examinaram, descobriram que cada uma das vítimas estava mostrando sintomas de anemia. Com base nessa observação, especulou-se que o perpetrador tinha extraído um pouco do sangue delas antes de usar uma poção ou alguma outra técnica para fechar as feridas.
Desde tempos imemoriais, sangue tem sido usado como um catalisador para magia. Se alguém está saindo de seu caminho para coletar tanto dele, é possível que esse seja seu objetivo. Talvez queiram libertar um feitiço devastador sobre a nação, criar uma maldição ou veneno para infligir mal a outros, ou até mesmo usá-lo para invocar algo.
Para proteger o império, um certo homem de uma organização de agentes secretos tinha sido encarregado de investigar o assunto, o que o levou a um edifício específico.
| Homem | [O perpetrador dos ataques pode estar aqui dentro...], ele murmura, olhando para cima para a mansão se agigantando sobre ele.
Conforme ele refez os passos das vítimas, percebeu que todas tinham desaparecido temporariamente nesta área, e a única coisa nas proximidades é aquela mansão.
O homem usa 【Magia Negra】 e sua habilidade 【Furtividade】 para esconder sua presença e se esgueira para dentro da mansão.
Eu ouvi que este lugar estava abandonado, mas está inesperadamente limpo por dentro.
Aparentemente, o edifício tinha sido passado para outra pessoa após a morte de seu dono original, e seu proprietário atual o tinha deixado intocado desde então. O nobre que costumava morar aqui tinha sido um mago da corte, e parecia que ele tinha conjurado um feitiço de preservação na mansão para mantê-la de se deteriorar com o tempo. Sendo assim, mesmo que cem anos tivessem se passado desde que foi ocupada pela última vez, o edifício não mostra sinais de decadência.
No entanto...
Cheira a sangue aqui dentro. Como eu pensei, o perpetrador deve estar por perto.
O fedor é fraco, mas tinge o ar da mansão inteira. Ainda assim, parece longe de ser conspícuo demais para todo o sangue que deve ter sido estocado nas instalações, dado o quanto as vítimas tinham perdido.
O homem coloca uma mão em uma porta próxima para explorar outro cômodo quando, de repente, sente uma presença atrás dele.
| ??? | [Ninguém te ensinou a não entrar na casa de alguém sem permissão? Quão mal-educado de sua parte]
O homem tenta se virar, mas antes que possa reagir, uma mão agarra sua cabeça e a esmaga contra a parede.
| Homem | [Gah!], ele clama enquanto o sangue começa a se esvair da ferida fresca em sua testa, pintando seu campo de visão de vermelho.
| ??? | [Oops. Tola eu, eu fui e quebrei a porta. Eu não devo conhecer minha própria força! Minha casa está toda arruinada por sua causa], a voz diz atrás dele, as alegações ultrajantes chocando-se com seu tom brincalhão, enquanto esmaga a cabeça dele ainda mais contra a parede.
O homem se debate para tentar lutar de volta, mas não apenas a pessoa ainda está segurando sua cabeça, como também conjurou algum tipo de feitiço de paralisia nele.
| ??? | [Hora de saborear]
Algo afiado perfura seu pescoço, afundando em sua carne. No instante seguinte, o homem sente seu sangue sendo drenado de seu corpo. Ele ainda consegue mal e mal mover o pescoço, então olha para trás, apenas para seus olhos se arregalarem em horror.
| Homem | [Você é... uma vampira?!], ele exclama quando capta a visão de seus longos cabelos prateados e olhos carmesins.
A vampira deleita-se com seu banquete em silêncio. Sua presa sente a força dele deixar seu corpo batida por batida.
Eu vou morrer aqui, ele percebe.
A vampira quase o sugou até secar quando puxa sua boca para longe.
| Vampira | [Ah, querido, essa foi por pouco. Seu sangue é tão delicioso que eu quase usei você por inteiro bem aqui e agora], ela diz, seus lábios se curvando em um sorriso enquanto lambe a trilha carmesim derramando do canto de sua boca. [Quando um agente secreto do império morre, a posição dele é transmitida para todos os seus colegas, não é?]
| Homem | [Como você...?], o homem balbucia, sua mente nebulosa tateando por respostas.
| Vampira | [Já que você me viu, vai ter que ficar desaparecido por um tempinho]
Com isso, a vampira implanta algo no corpo do homem. Uma dor dilacerante surge através dele, forçando o grito de um animal torturado a passar por seus lábios. Com sua determinação esgotada, o homem perde a consciência, desabando como um fantoche cujas cordas foram cortadas.
A vampira luta para refrear sua sede de sangue enquanto encara a armação inerte dele. [A maldição de metamorfose funcionou. Vou ter que largar ele em algum lugar fora da cidade antes que ele acorde. Suponho que vou me esconder por um tempo agora que as pessoas estão começando a suspeitar de algo], ela murmura com irritação, agarrando o agente secreto e desaparecendo na noite.
Enquanto ele está sendo arrastado para longe, pelos começam a brotar do corpo do homem, cobrindo sua pele em uma camada espessa.



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