Capítulo 0 - Um Dia, Cerca de Quinhentos Anos na Minha Vida de Bruxa, a Continuação
Nesse dia, uma delegação do Império Mubad visitou a Floresta da Bruxa da Criação.
Um dos homens deu um passo à frente e nos saudou com uma reverência. [É um prazer vê-la novamente depois de tanto tempo, estimada Bruxa da Criação]
| Chise | [Oi, quanto tempo. Você não precisa ser tão formal, sabia?], eu digo.
| Tet | [Você pode falar com a gente como falava quando era pequeno!], Tet chilreia.
Um sorriso envergonhado se curva nos lábios do homem. [Por favor, não me lembre daqueles dias. Mesmo agora, minha família zomba de mim pelo jeito que eu falava com vocês naquela época, embora tenham salvo nossa casa]
Ele é o atual Marquês de Dalite do Império Mubad. Nossa conexão com a Casa Dalite começou há quatrocentos anos, quando um de seus membros — agora considerado o restaurador de sua dinastia — vagou para dentro da floresta. Depois de passar um tempo aqui conosco, ele eventualmente retornou a Mubad e se tornou nosso intermediário com o império. Com sua ajuda, começamos a comerciar com Mubad, com a família Dalite atuando como ponto de contato entre nossas duas nações. Nós também os ajudamos um bocado de vezes no passado quando eles se encontraram em apuros. Por essa razão, eles passam histórias sobre nossa magnanimidade através das gerações.
| Marquês Dalite | [De qualquer forma, estou meramente aqui como escolta hoje. Este é o representante da delegação], diz o Marquês Dalite, gesticulando para um homem no grupo.
| Crandol | [Meu nome é Crandol. É um prazer conhecê-la. Vim para informá-la de que meu pai, Darius, ascendeu ao trono sob o nome de Dankfried IV], diz o Príncipe Crandol, nos dando uma leve reverência, com a mão no peito.
Eu aceno com a cabeça. [Diga ao Imperador Dankfried que o parabenizamos por sua ascensão e que esperamos manter um bom relacionamento com o Império Mubad daqui em diante], eu digo, antes de incentivar o Príncipe Crandol a continuar com um olhar.
| Crandol | [Muito obrigado. Eu também vim para pegar os elixires, como um procurador de Sua Majestade Imperial], ele pega um token, do tipo que damos exclusivamente a membros das famílias reais com as quais temos um contrato, e o mostra para mim.
Qualquer um que possua um desses tokens é um parceiro comercial oficial nosso.
| Chise | [Hora de eu cumprir a minha parte do contrato]
Eu posso sentir o nervosismo irradiando do Príncipe Crandol e do resto da delegação. Ao longo dos últimos séculos, eu, a imortal Bruxa da Criação, transformei a floresta em sua própria nação independente e assinei um contrato com todos os nossos vizinhos. Os termos mudaram ligeiramente com base no relacionamento entre nós e os governantes daquelas nações desde que assinamos esse contrato pela primeira vez há quatrocentos anos, mas ele permanece válido até hoje.
| Chise | [Beretta, posso deixar isso com você?], eu pergunto à minha governanta que aguarda, que está de pé atrás de nós.
| Beretta | [Sim, Mestra], ela responde, abaixando a cabeça respeitosamente antes de ir buscar uma linda caixa com três poções dentro.
Ela então tira cuidadosamente uma das poções da caixa para mostrar ao Príncipe Crandol e à sua delegação. O frasco de vidro está preenchido com um líquido vermelho brilhante — um remédio para todos os fins, também conhecido como elixir.
| Crandol | [Então este... Este é um elixir!], o príncipe exclama, engolindo em seco, incapaz de arrancar seus olhos da poção vermelha.
| Chise | [Com certeza é. De acordo com o nosso contrato, e como fizemos com nossos outros dois vizinhos, nós venderemos estes elixires para vocês]
| Tet | [Estes podem curar qualquer ferimento ou doença!], Tet adiciona.
Enquanto o resto da delegação permanece congelado no lugar, com seus rostos e corpos se tensionando diante da visão de um remédio tão valioso, o Príncipe Crandol volta à realidade e, após alguma hesitação, aceita a poção que a Beretta lhe entrega.
| Crandol | [Senhorita Bruxa, posso confirmar se estes são elixires reais?]
| Chise | [Claro. Vá em frente]
Eu observo enquanto ele conjura um feitiço para checar o conteúdo de cada frasco. O Império Mubad dá muita importância à magia e ao mana, e, como esperado, o uso de feitiços de avaliação e a 【Manipulação de Mana】 do príncipe são ambos impecáveis. Eu não consigo deixar de soltar um zumbido impressionado diante do esplêndido espetáculo.
Após inspecionar cuidadosamente cada frasco, o Príncipe Crandol solta um longo suspiro de alívio. [Confirmei que estes são todos elixires reais. Aqui está o seu pagamento, conforme estipulado no contrato]
Com isso, ele tira um saquitel de couro cheio de moedas de sua bolsa mágica e o coloca sobre a mesa.
| Chise | [Obrigada. Nós vamos contar o dinheiro para garantir que tudo esteja em ordem, se você não se importar. Você pode fazer isso, Beretta?]
| Beretta | [Sim, Mestra]
| Tet | [Tet ajuda também!]
As duas começam a contar as moedas no saquitel. O preço que peço por um único elixir é de duzentas moedas de ouro grandes (com uma ouro grande valendo dez ouros pequenas), o que equivale a cerca de duzentos milhões de ienes em minha vida passada. Em outras palavras, o preço total para três elixires é seiscentas moedas de ouro grandes.
Quando elas terminam de contar, Beretta anuncia: [Não há excesso ou falta no pagamento]
| Chise | [Então a transação está concluída], eu digo.
| Crandol | [Perfeito. Vou guardar os elixires, se terminamos por aqui—], o Príncipe Crandol está prestes a guardar os elixires em sua bolsa mágica, quando um velho da delegação dá um passo à frente.
| Idoso | [Vossa Alteza!]
O Marquês Dalite e os outros imediatamente se preparam, prontos para proteger o príncipe caso o homem tente atacá-lo, mas ele não faz nada do tipo. Ele praticamente desliza pelo chão até ficar prostrado aos nossos pés. Em minha vida anterior, nós chamávamos isso de uma dogesa deslizante.
| Idoso | [Vossa Alteza! Eu lhe imploro, por favor dê um desses elixires para mim!], ele suplica com todas as suas forças.
| Crandol | [O quê—?! Conde Olsen! O que você está dizendo?!], o Príncipe Crandol exclama enquanto seus guardas tentam puxar o homem mais velho para longe.
Mas o Conde Olsen não se mexe nem um centímetro.
Uma expressão severa aparece no rosto do Marquês Dalite, substituindo o olhar afável que ele carrega desde que chega.
| Conde Olsen | [Por favor, me deixe usar um deles para curar a enfermidade da minha filha!]
O Príncipe Crandol e o Marquês Dalite olham para mim com apreensão, preocupados que o comportamento desavergonhado do conde durante uma reunião oficial possa ter me irritado, mas eu silenciosamente os incentivo a não se importarem comigo.
| Crandol | [Conde Olsen, você está ciente de que a família real já decidiu o que fazer com os elixires. Eu ouvi sobre a condição da sua filha. É lamentável, mas não podemos mudar nosso plano inicial], o príncipe diz, tentando raciocinar com o conde.
Enquanto isso, Dalite parte para uma abordagem mais severa. [Você está sendo rude na frente da Senhorita Bruxa. Como você vai tomar responsabilidade se o seu comportamento afetar nosso acordo comercial com a floresta?]
Tendo sido repreendido pelos outros dois, o Conde Olsen se vira para mim. [Honrada Bruxa da Criação! Por favor, eu lhe imploro por outro elixir! Pela minha filha!]
| Crandol | [Conde Olsen! Você pretende implorar desavergonhadamente à Senhorita Bruxa por mais?!], Crandol esbraveja, desagradado pelo comportamento do conde na minha frente, a parceira comercial deles.
| Beretta | [Devo escoltá-lo para fora, Mestra?], Beretta pergunta.
Eu balanço a cabeça. [Não, está tudo bem], eu digo, antes de me virar para o homem rastejante. [Você— posso chamá-lo de Conde Olsen? O que você pretende nos dar como pagamento pelo elixir?]
Um [Ahn?] sem vida derrama dos lábios do homem.
| Chise | [A cada ano, apenas um punhado de elixires é vendido em leilão, e eles alcançam um mínimo de trezentas moedas de ouro grandes]
Como eles podem curar todas as enfermidades, incluindo doenças fatais, os elixires são extremamente valiosos, às vezes sendo vendidos por duas ou três vezes esse valor. Além de serem quase onipotentes, eles são incrivelmente difíceis de se conseguir. Embora eles ocasionalmente apareçam em baús de tesouro dentro de masmorras, as chances de encontrar um são escassas, e aqueles que sabem como fazê-los só conseguem preparar alguns por vez devido a quão difíceis os ingredientes são de se encontrar. Em outras palavras, a demanda é significativamente maior do que a oferta.
Vendo que ele não seria capaz de conseguir um do jovem príncipe, o Conde Olsen se virou para mim para suplicar por um elixir, já que eu sou a fornecedora do império. É por isso que eu perguntei a ele se ele pode pagar o preço por um.
| Chise | [Eu estou fornecendo elixires às nações vizinhas porque faz parte do nosso acordo: elas nos permitem permanecer independentes e se abstêm de nos atacar, e em troca, nós vendemos elixires a elas abaixo do valor de mercado. Se começarmos a entregá-los a qualquer um que pedir, isso só vai criar um caos desnecessário], eu explico.
Se fôssemos dar um elixir para o Conde Olsen de graça e a notícia se espalhasse, o que os outros pensariam?
| Chise | [Por que ele conseguiu um elixir?]
| Chise | [Por que o meu ente querido não recebeu uma?]
| Chise | [Por que a bruxa não deu uma para nós quando precisamos?]
| Chise | [Se ela pode simplesmente entregá-los tão facilmente assim, por que ela não começa a doá-los para mais pessoas?]
| Chise | [Se ela tem tantos que pode dar aos outros, então ela deve ter um estoque escondido em algum lugar]
Eu quero muito evitar essa situação, então eu só vendo um número limitado de elixires para nossos vizinhos por vez. E embora eu peça menos do que o valor de mercado, ainda é uma quantia significativa — algo que a maioria das pessoas não pode arcar.
| Chise | [As pessoas começariam a lutar pelos elixires, tanto aqueles que precisam quanto aqueles que só querem fazer um dinheiro rápido, e mais pessoas perderiam suas vidas do que seríamos capazes de salvar com os elixires], eu continuo. [Então, se você realmente quer um, precisa nos oferecer algo de valor equivalente em troca; algo que justificaria a troca para qualquer um que ouvir falar dela]
Olsen ranger os dentes e fecha as mãos, que descansam no chão, em punhos firmes. [Eu vou arrumar o dinheiro. Então, por favor...]
Ele é um conde, então não tenho dúvidas de que ele daria um jeito de um modo ou de outro. No entanto...
| Chise | [Eu não preciso de dinheiro], eu respondo, apontando para a montanha de ouros grandes sobre a mesa com desinteresse.
Tendo sido dispensado pela segunda vez seguida, Olsen me encara, assim como ao príncipe e o Dalite, com seus olhos transbordando de ressentimento.
| Tet | [Senhorita Bruxa], Tet diz, com um olhar preocupado cruzando suas feições.
| Chise | [Está tudo bem], eu respondo, dizendo silenciosamente para ela me deixar cuidar da situação. Respirando fundo, eu decido fazer uma proposta ao Olsen — uma proposta bem própria de uma bruxa, aliás. [Se eu lhe der um elixir e sua filha se recuperar de sua doença, isso vai dar uma história muito emocionante]
O rosto do homem se ilumina com as minhas palavras, seus olhos cheios de esperança. [E-Então, a senhora vai—]
No entanto, eu rapidamente joguei um balde de água fria em seu entusiasmo. [Mas então, ninguém seria capaz de realizar nenhum ensaio clínico para essa doença]
Olsen me lança um olhar perplexo, e eu continuo.
| Chise | [Se a sua filha concordar em nos deixar estudar a doença dela, então eu lhe darei um elixir. Mas antes disso, nós a faremos passar por extensos experimentos clínicos para pesquisar a doença dela e tentar encontrar uma cura para isso. Nós só usaremos o elixir no último minuto, assim que a vida dela realmente estiver em perigo]
O homem fica pasmo — tanto pela minha sugestão de usar sua filha como uma cobaia de laboratório quanto pela minha recusa em lhe dar o elixir imediatamente.
| Chise | [Ela será hospitalizada em uma clínica na floresta e terá que lutar contra a doença por cinco ou dez anos, talvez até mais]
| Conde Olsen | [Mas... isso marcaria o fim da vida dela como uma nobre, não marcaria?]
| Chise | [Marcaria], eu aceno com a cabeça. [Usar um elixir em alguém que precisa vai salvar uma pessoa. Mas estudar a doença de que estão sofrendo e desenvolver um tratamento para ela permitiria que todos aqueles nascidos com essa doença daqui em diante sobrevivam sem depender de uma cura milagrosa]
Eu não quero dinheiro ou bens materiais, mas sim conhecimento médico. Com tempo e dedicação, minha esperança é que possamos reduzir a demanda por remédios preciosos com um sistema de saúde mais robusto.
| Chise | [A escolha é sua], eu digo, imbuindo um pouco de mana em meu tom para adicionar mais autoridade à minha voz. [Sua filha vai aproveitar o resto de sua curta vida como uma nobre, ou ela vai viver mais tempo, mesmo que isso signifique suportar anos de agonia?]
Ao ouvir a pressão no meu tom e a minha proposta — que seria minha concessão final —, Olsen fecha os olhos com força, imaginando sua filha e a vida que ela poderia ter. Quando ele os abre novamente, o ressentimento desaparece.
| Conde Olsen | [Por favor, me permita discutir a situação com minha esposa, filho e filha], ele diz, apesar de provavelmente já ter tomado sua decisão.
Com isso, os guardas do Crandol o escoltam para fora da sala, e o príncipe se vira de volta para mim. [Sinto muito pela atitude dele. Foi completamente fora da linha. Nós o puniremos de acordo]
| Chise | [Entregar a filha dele para nós para estudos é pouco melhor do que oferecê-la como refém. Não seja muito duro com ele], eu digo, fingindo não me importar. [Ele provavelmente não é uma pessoa ruim], eu adiciono baixinho.
| Crandol | [Ficamos muito gratos à senhora, Senhorita Bruxa. Nós vamos nos retirar agora]
Crandol e o novo imperador ainda vão punir o Olsen por puro proforma, mas tenho quase certeza de que eles não vão longe demais por consideração a mim, já que eu disse a eles para não fazerem isso. Dalite nos deu uma última reverência antes de partir com o resto da delegação.
Com nossa reunião com a delegação oficial de Mubad tendo chegado ao fim, eu me encosto na Tet.
| Tet | [Bom trabalho, Senhorita Bruxa. Você é sempre tão gentil!]
| Chise | [Eu sou, mesmo? Estou planejando usar uma jovem garota como cobaia de testes a serviço dos meus próprios fins]
Além disso, eu nem mesmo vou fazer a maior parte do trabalho duro; vou deixar tudo para os médicos da floresta.
Eles provavelmente vão me odiar, eu penso com uma careta.
| Tet | [Mas você ainda vai curá-la com um elixir se precisar. Isso é realmente legal!], Tet diz.
Ouvir ela dizer isso me conforta um pouco em minha decisão.
Ao longo de nossa remodelação do antigo Deserto do Nada, eu me tornei responsável por muitas coisas: uma terra fértil abençoada pela deusa Liriel, os demônios e bestas míticas que acolhi, uma masmorra totalmente funcional, Árvores do Mundo e todas as ervas raras que crescem na floresta, e assim por diante. Eu não consigo nem contar as responsabilidades que acumulei. E é para protegê-las que forjei os contratos com nossos vizinhos — o Reino Ischea no sudoeste, a Nação dos Homens-Fera de Gald no sudeste, e o Império Mubad no norte.
Esta é a história de como salvei um jovem homem que se perdeu na floresta, o que me levou a criar meu primeiro elixir. É também o conto de como esse jovem homem me ajudou a forjar o pacto com meus vizinhos para proteger a floresta e meu povo.




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