Interlúdio — Povo Fera e a Princesa
A escuridão havia caído na Floresta Negra. O grupo da forja está se aproximando da borda — falta apenas mais um pouco de caminhada — e eles montaram acampamento para passar a noite. Quase todos estão em um sono profundo, mas um sentido estranho faz a Samya acordar sobressaltada.
Ela não tem certeza se isso se deve aos seus sentidos de povo fera ou se é algo totalmente diferente, mas ela não consegue voltar a dormir. Ela se senta em seu saco de dormir e contempla o céu estrelado que brilha acima dela. Antes de conhecer o Eizo, ela não pensava muito nessa visão, mas recentemente ela começou a achar as estrelas cintilantes tão deslumbrantemente belas.
Quando ela olha ao redor, percebe que a Helen está perto do fogo, vigiando. Samya se levanta e se aproxima dela.
| Helen | [O que foi? Não consegue dormir?], Helen pergunta.
| Samya | [Não, nada disso], Samya balança a cabeça. [Apenas tive vontade de me levantar. Vou rondar por aí um pouco]
| Helen | [Tudo bem]
Samya se sente inexplicavelmente envergonhada ao deixar o fogo. Ela solta um [Hmm] silencioso enquanto caminha pela borda do acampamento, cuidadosa para não acordar seus companheiros adormecidos.
Samya caminha entre as árvores por um tempo. A floresta à noite está em um silêncio mortal. Até mesmo uma folha de grama farfalhando ao vento é ensurdecedora.
De repente, dentro do silêncio, uma voz abafada chama. [Samya?]
A mulher fera se vira e vê a Anne parada ali. A princesa alta se destaca, mesmo no meio da noite.
| Samya | [Ei, Anne], Samya sussurra. [Não consegue dormir?]
| Anne | [Pode-se dizer que sim], a princesa responde. [Apenas algumas coisas na minha mente. A Helen disse que você estaria patrulhando], ela olha para o céu. [As estrelas nesta floresta são mais bonitas do que as que eu já vi no império]
Samya faz o mesmo e olha para cima. [Sim. Eu nunca realmente pensei sobre isso até começar a morar com o Eizo]
As duas contemplam as estrelas em silêncio — a luz do fogo não chega até elas, mas o povo fera consegue enxergar bem à noite e, quando os olhos da Anne se ajustam à escuridão, ela consegue ver bem longe também.
| Samya | [Como está a vida aqui na floresta?], Samya pergunta. [Parecia difícil para você quando veio do império pela primeira vez]
Anne pensa por alguns instantes. [Honestamente, morar na forja me surpreendeu. Como uma pessoa que nasceu e cresceu como realeza, as caçadas diárias e a ferraria pareciam tão novas e revigorantes], ela sorri. [Mas, francamente, a vida aqui é mais divertida do que eu jamais imaginei. É cheia de todos os tipos de experiências novas que eu nunca conseguiria no império, como ajudar o Eizo na forja, sair para caçar e brincar com a Krul e com a Lucy]
Samya acena positivamente com a cabeça. [Eu ainda me lembro de todo o alvoroço quando aquelas facas falsificadas começaram a circular]
| Anne | [Sim. Aquilo foi...], Anne escolhe suas próximas palavras com cuidado. [É que eu estou acostumada com coisas assim, sabe? Dissimulação. Já fazia um tempo desde que eu tinha me envolvido em qualquer intriga política. Fiquei um pouco surpresa, mas só isso]
| Samya | [Ser uma princesa deve ser difícil]
| Anne | [Bem, nós somos ensinadas que alguém está sempre nos observando, a cada segundo de cada dia], Anne abaixa a voz. [E nós nunca conseguimos mostrar quem realmente somos]
Uma rajada de vento sopra através das árvores, e o cabelo da Samya farfalha ao vento. Ela balança a cabeça por alguns instantes, depois se volta para a Anne.
| Samya | [E quanto a agora?], Samya pergunta.
| Anne | [Agora, eu posso ser eu mesma], Anne dá um sorriso tímido. [Eu posso falar o que penso e agir como quero], ela olha ao redor da floresta. [Sim, pareceu um pouco estranho no começo, mas agora que estou acostumada, acho que este estilo de vida me aproxima da minha verdadeira forma — de como eu realmente sou]
| Samya | [O mesmo aqui], Samya diz. [Se eu não tivesse conhecido o Eizo, não acho que estaria vivendo assim]
Sua gratidão por ele (e algo ainda maior) brota em seu coração. Seria impressão sua? Ela sente como se a Anne tivesse uma expressão semelhante no rosto — uma cheia de gratidão. A princesa abre a boca para falar, mas a fecha abruptamente, e a Samya permanece em silêncio também. As duas trocam um olhar e um pequeno aceno de cabeça.
| Anne | [Vamos voltar?], Anne sugere. [A manhã estará aqui antes que percebamos]
| Samya | [Sim, você está certa. E muito em breve, estaremos fora da floresta]
| Anne | [O que nós encontraremos na borda da floresta? Mal posso esperar para descobrir]
Anne sorri abertamente, e as duas voltam para o fogo. Suas sombras se estendem pelo chão da floresta, projetadas pelas chamas tremeluzentes e pelas estrelas cintilantes acima. Helen ainda está acordada no acampamento e dá um pequeno aceno quando as vê.
| Helen | [Viram alguma coisa?], ela pergunta.
| Samya | [Não], Samya responde.
Enquanto a Samya se esgueira de volta para a sua cama, ela se pergunta se seus sentidos de povo fera a acordaram para que ela pudesse conversar com a Anne. Este foi um presente inesperado, mas precioso. Extasiada por ter se aproximado de um membro de sua amada família, Samya fecha os olhos e adormece.



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