Mãe e Filha
Duas damas vestidas com roupas esplêndidas caminham pelas ruas da cidade iluminadas pela pálida luz da lua. O caminho de pedra bem conservado foi decorado pela luz que escapa das casas de tijolos, enquanto os lampiões da rua brilham em tons alaranjados, trazendo vida à cidade mesmo na escuridão da noite.
No entanto, o que chama a atenção dessas duas damas são os visitantes vindos do exterior — viajantes de uma academia localizada na cidade capital do país vizinho Orcus, Abendrot. Até pouco tempo atrás, Orcus e Beatrix eram nações inimigas, mas agora que Beatrix decidiu repentinamente buscar a paz, os dois países construíram uma relação amistosa. Como prova disso, decidiu-se que algumas dezenas de estudantes da academia visitariam o Império Beatrix todos os anos, e esses viajantes são comemorados como os primeiros.
Entre eles estão Mercedes, Monika e Margaret.
| Monika | [Olha, Mercedes! As damas daqui são todas tão elegantes!]
| Mercedes | [Uh, eu acho], Mercedes responde de forma preguiçosa. A outra garota, Monika, se agarra ao seu braço.
Como foi que chegamos aqui? Por que o eu estou aqui? Mercedes se pergunta. Mas ela sabe o motivo. Beatrix foi quem sugeriu essas visitas, e a Mercedes foi quem entregou a mensagem à academia.
| Margaret | [Hm, o que é aquilo, irmã mais velha? Os pés delas não doem?]
| Mercedes | [Hm? Oh, aquilo são saltos altos. São sapatos feitos para manter os pés limpos — quero dizer, para fazer você parecer mais alta]
Margaret se agarra ao outro braço da Mercedes, demonstrando uma empolgação rara. Enquanto responde à pergunta da irmã, a mente da Mercedes está em outro lugar. Ela tem alguns objetivos para essa visita. Um deles é deixar claro que o Império Beatrix realmente mudou sua política para uma de reconciliação. Quando se espalhar que as duas nações estão em bons termos, não será mais estranho a Mercedes fazer visitas frequentes, e ela poderá entrar em Beatrix sem precisar se esconder.
Ao mesmo tempo, uma relação amistosa significa que a Mercedes pode tomar emprestado o poder militar do império caso algum dia precise. Embora atualmente ela seja a governante secreta de fato dessa nação, ela não tem intenção alguma de tornar isso público. No entanto, isso também significa que ela não pode mobilizar o exército de Beatrix se a situação exigir. Oficialmente, Mercedes é apenas amiga da imperatriz, nada mais.
Independentemente do motivo, uma nação estrangeira não pode agir por interesses pessoais de um indivíduo.
Porém, se estiverem em termos amistosos com Orcus, Mercedes poderá mobilizá-los sob o pretexto de que é pelos interesses de Orcus. Por isso, ela precisa preparar o terreno e enfatizar o fato de que o Império Beatrix e Orcus se reconciliaram, e foi por isso que a imperatriz Beatrix sugeriu essa viagem.
Os participantes foram escolhidos primeiro com base no interesse em participar e, depois, no prestígio familiar e nas notas. Como resultado, Mercedes e Monika foram escolhidas por suas excelentes notas e por serem filhas de um duque, enquanto a Margaret foi escolhida graças ao título de sua família, mesmo que suas notas não se comparem às das outras duas.
| Monika | [Que cidade elegante. Todo mundo parece tão sofisticado], comentou Monika com um suspiro encantado.
Mercedes, por outro lado, não está tão relaxada. Durante sua visita anterior, isso não havia chamado sua atenção, mas as damas que caminham pela cidade realmente se vestem muito bem. Talvez devido à natureza misândrica dessa sociedade, a moda feminina seja mais desenvolvida aqui do que em Orcus. As mulheres caminham pelas ruas usando saltos altos e saias armadas, todas carregando sombrinhas. Elas exalam elegância.
No entanto, durante a Idade Média na Terra, os saltos altos eram apenas sapatos funcionais usados para evitar pisar em sujeira, e as sombrinhas serviam para impedir que o lixo jogado das janelas caísse sobre sua cabeça. As saias armadas também eram usadas apenas para permitir que as mulheres fizessem suas necessidades em pé. Mesmo que cada um desses itens seja agora uma declaração de moda, é difícil evitar outros pensamentos ao vê-los todos reunidos em um só lugar.
Assim, Mercedes foi tomada por um medo que supera o que sentiu tanto em suas lutas contra os Guardiões quanto em sua batalha contra Beatrix: o receio de que sujeira caia sobre sua cabeça a qualquer momento. Felizmente, não há mau cheiro, e ela não vê lixo acumulado à beira da estrada. Ainda assim, precisa permanecer vigilante.
| Margaret | [Oh, aquilo é um vendedor de rua? O que será que ele vende?], Margaret avista uma barraca à beira da estrada, atraindo também a atenção dos outros estudantes. Algumas dezenas estão presentes — exatamente como planejado — e eles seguem em direção à hospedagem. Quem lidera o grupo é a capitã soldado que a Mercedes conheceu antes, Rose. Ela parece bem menos ocupada do que o título de 『capitã』 sugere.
De qualquer forma, um aroma doce vem da barraca que a Margaret observa. Eles parecem vender algo parecido com um waffle.
| Mercedes | [Acho que vou comprar. Me dê três]
| Vendedor | [Saindo!]
Mercedes paga o dono da barraca e compra alguns para si, Monika e Margaret, fazendo com que outros estudantes façam o mesmo. Os waffles são caros, mas nada é caro demais para filhos de nobres. A diferença de riqueza nessa nação é grande, mas todas as mulheres que caminham pelas ruas parecem bem cuidadas e prósperas. Esses waffles provavelmente são um lanche destinado aos ricos, o que explica o preço.
Agora, chega o momento da verdade — o sabor.
| Margaret | [Eles são tão doces!], exclama Margaret com alegria. Mercedes também se surpreende. Orcus tem um doce semelhante, mas o deles não tem doçura alguma. O gosto é apenas de massa frita. Talvez a versão do Império Beatrix seja tão doce por ser feita para os ricos, ou talvez Orcus seja apenas mesquinho com açúcar. De qualquer forma, a diferença é gritante.
Mercedes considera levar alguns como lembrança para a Sieglinde e a Hannah, a primeira forçada a ficar para trás e a segunda que escolheu ficar para protegê-la.
Sieglinde realmente queria vir na viagem, mas naturalmente ninguém permitiria que ela visitasse uma nação estrangeira que tentou sequestrá-la recentemente.
De qualquer forma... cerca de dez parecem suficientes, segundo o julgamento da Mercedes. Mas assim que esse pensamento surgiu, ela sentiu olhares em suas costas e se virou.
Não há ninguém específico, apenas as damas observando curiosamente os visitantes estrangeiros.
| Margaret | [O que foi, irmã mais velha?]
| Mercedes | [... Nada]
Dado tudo o que aconteceu ultimamente, é natural que ela esteja em guarda. Depois disso, Mercedes tranquilizou a irmã e seguiu para a estalagem com o restante do grupo.
O que mais chocou a Mercedes ao chegar foi a presença de um banho grande e apropriado dentro da hospedagem. Orcus possui banhos públicos, mas eles são mistos, e as pessoas comem, bebem, dançam e até se prostituem neles. São lugares onde nada é proibido, o que fez com que a Mercedes não tivesse interesse algum em utilizá-los.
Claro, os banhos da mansão Grunewald são diferentes, mas ainda assim ela se surpreendeu ao ver instalações de banho normalmente acessíveis apenas à nobreza disponíveis ao público geral. Embora Orcus e Beatrix sejam ambos países vampíricos, existem claras diferenças culturais.
De qualquer forma, Mercedes decide aproveitar a oportunidade e limpar o corpo nos amplos banhos. A capital de Beatrix lembra Paris, então ela temia que sujeira cairia do céu a qualquer momento. Mas, aparentemente, essa nação é muito mais higiênica do que ela imaginava.
| Mercedes | [O que foi, Monika?]
| Monika | [N-Não é nada... *Shlurp*!]
O olhar da Monika é bastante... intenso... mas a Mercedes concluiu que é melhor não pensar muito nisso para preservar sua saúde mental.
Enquanto relaxava no banho, alguém se sentou ao seu lado. Ao virar o rosto, Mercedes vê um rosto desconhecido. Não é uma estudante de Edelrot.
Em termos de aparência, ela parece ter a mesma idade da Mercedes, ou talvez um pouco mais velha. Ainda assim, vampiros possuem idade eterna, então não seria estranho que ela fosse muito mais velha do que aparenta, assim como a Hannah. Seus cabelos ruivos ardentes chegam até os ombros, e embora tenha traços equilibrados, o que mais chama a atenção são seus olhos roxos e afiados. Seu corpo demonstra grande potencial, mesmo sem estar totalmente maduro, já apresentando curvas nos lugares certos. Ela é bonita, mas, ao contrário de seu cabelo, passa uma impressão fria.
Mercedes conclui que ela deve ser outra hóspede da estalagem e desvia o olhar.
| Garota | [Você é Mercedes Grunewald, correto?]
Mercedes olha de volta. [E quem é você?]
| Garota | [A filha da mulher de quem você roubou um labirinto. Isso já deve dizer tudo, não?]
Só existe uma mulher de quem a Mercedes roubou um labirinto, e ela menciona ter uma filha adotiva. Se a Mercedes se lembra corretamente, Beatrix a cria para consolidar os labirintos. Como a Beatrix não pode mudar o fato de ser uma herdeira de labirinto, e não uma conquistadora, ela criou alguém que poderia conquistar um labirinto e planejava lhe deixar o próprio labirinto — assim como o da Sieglinde, caso tudo ocorresse conforme o plano — unificando três labirintos sob uma única coroa e criando uma nova geração de monarcas. A trama que se estendia por mais de um ano — na verdade, até antes disso — é o alicerce desse grande objetivo.
No entanto, agora existe uma nova luz brilhante nesse plano. Mercedes surgiu repentinamente no roteiro da Beatrix, salvou a Sieglinde, apaziguou o caos e ainda tomou o labirinto de Beatrix para si.
Isso não foi um resultado ruim para a imperatriz. Os labirintos ainda foram consolidados sob um novo monarca vampiro. Desde que não sejam esmagados por outra espécie de Falsch, Beatrix ainda sairá vencedora, e seu plano se concretizou. O novo monarca simplesmente mudou da filha da Beatrix para a Mercedes — o que foi ainda melhor para ela. Ela encontrou um diamante onde menos esperava.
No entanto, isso foi insuportável para a garota privada do protagonismo. Ela foi criada pela Beatrix para ser a monarca de uma nova geração e, de repente, seu caminho foi arrancado. De certa forma, ela está no centro dos acontecimentos, mas, em outra, é uma vítima. Mercedes duvida que o coração dela esteja em paz, mas é impossível dizer devido à sua falta de expressão.
| Mercedes | [Por que você está aqui?]
| Garota | [Para expressar minhas queixas], ela responde sem rodeios. Mercedes esperava que ela estivesse insatisfeita, e acredita que ela tenha o direito de pelo menos desabafar. Do ponto de vista dessa garota, Mercedes arrancou abruptamente o propósito de toda a sua vida.
| Mercedes | [Temos companhia aqui. Estarei esperando por você na praça atrás da estalagem], disse ela antes de sair.
Mercedes considerou ignorar o pedido, mas não quer que a verdade venha a público. Ainda assim, o que a cópia da Beatrix está pensando? O fato de essa garota saber que a Mercedes possui o labirinto de Beatrix só pode significar que a cópia revelou isso a ela. Como uma cópia criada no labirinto da Mercedes, essa Beatrix é absolutamente leal a ela e não pode fazer nada que a prejudique. Se ela revelou isso à garota, só pode ser porque determinou que ela não representa ameaça alguma.
Com a decisão tomada, Mercedes sai do banho, se veste e sai discretamente quando a Monika não está olhando. O sol já está alto no céu, banhando o mundo de luz. Para vampiros, já é hora de dormir.
Mercedes coloca seus óculos bloqueadores de luz solar e segue para a praça atrás da estalagem, um espaço aberto e circular. No centro, há uma estátua de uma mulher segurando uma garrafa, que despeja água em uma fonte ao redor.
| Garota | [Estive esperando por você], diz a garota, parada perto da fonte, curvando-se educadamente. Ela é surpreendentemente respeitosa para alguém criada pela Beatrix. Seu vestido preto é aberto no busto, o que provavelmente foi ideia da própria Beatrix.
| Diana | [Permita que eu me apresente. Eu sou Diana. Um dia, abandonarei esse nome e me tornarei Beatrix XVIII. Então, conquistarei múltiplos labirintos e me tornarei a rainha de uma nova geração de vampiros unificados sob uma única governante. Pelo menos... era assim que deveria ter sido]
| Mercedes | [Imagino que você já saiba, mas eu sou Mercedes Grunewald], respondeu Mercedes. É apenas educado se apresentar após a outra pessoa fazê-lo, mesmo que seja desnecessário.
| Mercedes | [Então? Quais são suas queixas?]
| Diana | [Eu fui adotada por minha mãe e criada para ser a monarca de uma nova geração. Esse era o único propósito da minha existência, mas recentemente isso me foi tirado], Diana fala friamente, sem emoção. Ainda assim, estranhamente, aos olhos da Mercedes, ela parece uma garota perdida à beira das lágrimas. [Eu deveria conquistar um labirinto e herdar o da minha mãe após vencer na Cerimônia de Transferência. Era isso que eu desejava... e era isso que eu deveria fazer. E também... foi isso que você fez]
Enquanto escuta, Mercedes entende por que atendeu ao pedido da Diana. A garota diante dela se assemelha à mulher de sua vida passada. Ela é a protagonista de uma história sem direção — ou melhor, de uma história que perdeu sua direção. Ela caminha por um caminho sem saída, sem saber qual é o próximo passo.
Ela é uma lua minguante que perdeu a chance de se tornar cheia.
| Diana | [Eu não posso aceitar isso. Então...]
| Mercedes | [Já chega], Mercedes interrompe, segurando o broche em Modo Ocioso e o transformando em sua alabarda. É de manhã, e não há ninguém por perto. Um pequeno confronto não será um problema.
| Mercedes | [Se você não aceita, então cale a boca e me mostre do que é capaz]
Diana não consegue seguir adiante em seu estado atual. Enquanto se agarra aos objetivos perdidos, ela permanece estagnada. Por isso, Mercedes considera seu dever cortar essa estagnação. Ela destruirá impiedosamente a esperança remanescente da Diana de que poderia ter alcançado o mesmo que ela, forçando-a a perceber que seus objetivos nunca foram alcançáveis.
Essa é a única forma de salvá-la do arrependimento eterno.
| Diana | [Obrigada], Diana junta as mãos diante do peito. Ela não tem nenhuma arma — como pretende lutar?
De repente, Mercedes testemunha algo incomum. O chão ao redor da Diana racha e flutua no ar, formando bonecos de pedra. Ela possui afinidade com terra e a usa para criar um exército.
Em seguida, ela utiliza magia de metal, produzindo espadas e lanças de aço para equipar seus soldados. Mas isso não é tudo. Logo depois, ela comanda a água da fonte a se erguer e formar serpentes dançantes. Parte dessa água congela, transformando-se em gelo que flutua ao seu redor.
Ela usa todas as quatro afinidades, incluindo as subafinidades...!
Mercedes se choca. Neste mundo, indivíduos só podem ter duas afinidades mágicas e dominar até quatro no total, incluindo subafinidades derivadas das quatro básicas. Mercedes já viu muitas pessoas usarem magia derivada de subafinidades, e ela mesma começou a dominar sua subafinidade de metal durante a batalha contra a Paradies. Mas essa é a primeira vez que ela vê alguém com controle total sobre as quatro.
Os soldados de pedra avançam, com projéteis de gelo voando atrás deles. Mercedes massacra todos os soldados e corta cada projétil com um único golpe de sua Blut Eisen. Em seguida, ela se lança em direção a Diana e ataca com a lâmina. No entanto, as serpentes de água interceptam facilmente o golpe.
Mercedes pragueja em voz baixa. Ela é arremessada para trás pelas serpentes, mas dá um giro no ar e pousa de pé. Uma nova leva de soldados avança, mas um único golpe de sua Blut Eisen foi suficiente para afastá-los.
Francamente, Mercedes considera a Diana uma oponente formidável, e não tem dúvidas de que ela é um prodígio. Ela poderia enfrentar um pelotão — talvez até uma companhia inteira — sozinha. Ela domina perfeitamente combate corpo a corpo, fogo de cobertura, habilidades de comando e técnicas para proteger o comandante. Ela é um gênio nato, a ponto de até o Bernhard reconhecer seu talento. Nem a Sieglinde nem o Felix teriam qualquer chance contra ela.
| Mercedes | [Entendo. Você realmente tem o potencial de alguém que a Beatrix tentaria fazer sua sucessora. Mas isso só torna sua situação ainda mais lamentável]
Diana é um gênio, uma generalista de perfeição absoluta. Ela pode lutar contra qualquer um, em qualquer lugar. Sua habilidade mágica supera a da Mercedes, e ela não possui fraquezas evidentes.
Mesmo assim, não é suficiente.
| Mercedes | [Falta-lhe determinação], diz Mercedes, cortando uma fileira inteira de soldados. É impressionante que a Diana consiga criar tantos, mas individualmente eles não são tão fortes. Eles são tão perfeitos quanto necessário e têm força para enfrentar um Buscador comum. No entanto, alguém do nível do Benkei poderia dizimar todos facilmente.
Mercedes avança desviando dos projéteis de gelo, saltando de um lado para o outro enquanto reduz a distância. Eles não são rápidos o bastante para atingir um monstro tão ágil quanto o Kuro.
Agora bem perto da Diana, as serpentes de água atacam novamente. Mercedes levanta a palma da mão e as repele com magia de gravidade. Esse volume de água pode ser facilmente disperso, e um monstro capaz de manipular chamas como o Shufu poderia evaporá-lo sem dificuldade.
Nada disso é suficiente. Mesmo que ela alcançasse um Guardião, falharia em derrotá-lo. Ela não possui nenhum trunfo especial para tal feito.
Por fim, Mercedes apontou a lâmina para a garganta da Diana, como se fosse cortar seus arrependimentos. [Você ainda quer continuar essa luta?]
| Diana | [Não... Isso foi o suficiente. Eu perdi]
Após admitir a derrota, Mercedes transforma sua Blut Eisen de volta em um broche.
Diana nasceu na família Hertling, uma casa de viscondes do Império Beatrix. No entanto, sua mãe, a Viscondessa Hertling (sendo Beatrix uma sociedade matriarcal, é comum que a mulher detenha o título), era uma esbanjadora que consumiu a fortuna herdada, acumulou dívidas e arruinou a casa Hertling em apenas uma geração.
No fim, ela vendeu a própria filha para conseguir dinheiro e fugir, escapando com sucesso do império... mas alguns anos depois, seu cadáver foi encontrado próximo à entrada do Labirinto Practis, perto da grande cidade de Blut, em Orcus. Diana presumiu que sua mãe desafiou o labirinto na tentativa de recuperar a fortuna, mas falhou. Ela conseguiu escapar enquanto morria, apenas para sucumbir logo após alcançar a saída.
Enquanto isso, o pai da Diana sempre desprezou os costumes do Império Beatrix e também a abandonou para fugir. Ela desconhece seu paradeiro, mas assume que ele também morreu em algum lugar, devorado por monstros ou feras selvagens.
No fim, Diana foi resgatada da escravidão por um pelotão liderado pela Rose e passou a ficar sob os cuidados da imperatriz Beatrix. Ela foi submetida a vários testes, e quando a imperatriz se certificou de seu talento para o combate, a adotou oficialmente, levando à situação atual.
Diana não confia nos laços que unem as pessoas. Sua infância lhe ensinou que até pais ligados por sangue são capazes de abandonar seus filhos por benefício próprio. Ela sabe que nem todos são assim, e teoricamente entende que existem pais que amam seus filhos. Ainda assim, ela própria foi abandonada. Ela não conhece laços familiares; nunca os vivenciou.
O mesmo vale para sua mãe adotiva, Beatrix. Diana nunca sentiu amor por ela, apenas respeito e gratidão. A imperatriz a criou para ser a monarca da próxima geração, não por amor ou piedade. E a Diana prefere assim. Isso significa que não foi criada por motivos abstratos e instáveis, mas por um objetivo concreto.
O amor incondicional só desperta ansiedade e medo. Por isso, ela prefere que seja condicional. Ter um papel claro lhe traz conforto. Cumprir esse papel é o que permite que ela exista — ou pelo menos, era isso que ela sempre acreditava.
Mas agora, esse papel se perdeu.
| Diana | [Obrigada, Mercedes. Agora eu finalmente posso desistir], diz Diana derrotada, virando-se para ir embora.
| Mercedes | [Para onde você vai? O castelo fica na direção oposta]
| Diana | [Não há mais um lugar para mim lá], Diana foi adotada e criada para ser a primeira de uma nova linhagem de monarcas. Esse era seu propósito, mas não mais. Ela reconhece a diferença gritante entre suas habilidades e as da Mercedes. Qualquer arrependimento desapareceu. E assim... ela desistiu de tudo.
| Mercedes | [Alguém disse isso a você?]
| Diana | [Tenho certeza de que minha mãe diria. Agora que perdi meu propósito, perdi meu valor]
| Mercedes | [Entendo... Você ouviu isso, Beatrix?]
Ao ouvir esse nome, Diana se vira — e encontra sua mãe, Beatrix. [Mãe... Por que você está aqui?]
| Mercedes | [A Beatrix no castelo é um corpo duplo criado pelo meu labirinto. Foi ela quem teve essa ideia... Sério, ela é maluca], disse Mercedes suspirando, lançando um olhar para que a Beatrix assuma a conversa.
| Beatrix | [Hm... Oh, como posso dizer isso? Peço desculpas, Diana. Por favor, perdoe sua mãe], diz Beatrix, curvando-se. É raro vê-la agir de forma tão exemplar. [Eu não sabia que a atormentei tanto. Como você sempre pareceu tão desinteressada, presumi que me via como um incômodo]
Oh, pensou Mercedes, entendendo completamente. Diana é difícil de ler emocionalmente. Dado seu comportamento frio, é natural que seus sentimentos sejam mal interpretados. Claro, Mercedes ignora sua própria falta de emoção ao refletir sobre isso.
| Beatrix | [Não se preocupe com seu papel. Você é minha querida filha, e pode permanecer no castelo pelo tempo e com a importância que desejar]
| Diana | [Isso é mesmo... permitido? Eu não posso mais herdar seu labirinto, mãe]
| Beatrix | [Isso não me incomoda nem um pouco. Na verdade, considere uma sorte. Agora você tem alguém que pode enfrentar os perigos em seu lugar]
Então é isso que ela acha que eu faço aqui, pensou Mercedes, um pouco irritada. Ainda assim, ela decide intervir. [Eu também estive procurando]
| Diana | [Você acha... que eu vou encontrar?]
| Mercedes | [Isso cabe a você decidir]
| Diana | [Entendo]
Diana responde às palavras curtas da Mercedes com a mesma brevidade. Ambas parecem se entender, mas a Beatrix interrompe. [Espere um pouco. Vocês foram curtas demais! Eu não entendi nada do que discutiram]
| Mercedes | [Eu também estou procurando meu próprio papel... meu propósito. Então a Diana pode fazer o mesmo. E isso não é algo que outra pessoa possa decidir por ela]
| Beatrix | [Estou surpresa por ambas terem se entendido]
Talvez a Mercedes sinta uma empatia estranha por sua companheira emocionalmente contida. Beatrix ficou perplexa, mas a Diana finalmente sorri. [Entendo. Nesse caso... procurarei meu próprio propósito, assim como você]
Ela aparentemente superou seus problemas. Caso encerrado... exceto por uma questão persistente.
| Mercedes | [Mas por que você contou tudo a ela, Beatrix? Nada disso teria acontecido se tivesse ficado calada]
| Beatrix | [Bem, foi meu corpo duplo quem contou tudo. Mas somos uma só, então entendo seus motivos]
| Mercedes | [Quais?]
| Beatrix | [Se ela escondesse a verdade, Diana continuaria lutando inutilmente, o que seria lamentável]
| Mercedes | [Você tem razão], concorda Mercedes. Como mãe, Beatrix não quer ver a filha perseguir um objetivo impossível. Tudo faz sentido se a cópia da Beatrix revela a verdade por saber que a Diana não poderia rivalizar com a Mercedes.
| Beatrix | [Além disso, provavelmente estaria tudo bem deixar o assunto em suas mãos. E veja só — estava mesmo]
| Mercedes | [Então você só jogou o problema em mim]
| Beatrix | [Eu jamais faria isso! Essa experiência certamente criará amor e confiança entre—], Beatrix começou a divagar, então a Mercedes a devolveu silenciosamente ao labirinto.
Diana soltou um suspiro cansado e se curvou. [Peço desculpas por minha mãe. Ela é... bem, você vê como ela é. Mas peço que cuide bem dela]
| Mercedes | [Não se preocupe. Ela é muito melhor do que meu pai]
| Diana | [Ele é... ainda pior do que ela?]
| Mercedes | [Muito pior]
Beatrix, ao menos em algum nível, se importa com a filha. Só isso já a coloca muito acima do Bernhard.
Mercedes se despede da Diana, retorna à estalagem e vai dormir. Enquanto adormece, reflete sobre as inúmeras formas que uma relação entre pai e filha pode assumir.
| Bernhard | [*Achoo*!], Bernhard não tem como perceber as difamações da Mercedes, e o único sinal foi o espirro solitário enquanto ele se sentava sozinho.


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