História Lateral - Esparda em Casa




A LUZ DO SOL COMEÇOU A BRILHAR PELA JANELA do quarto, e os pássaros lá fora gorjeavam proativamente uns com os outros. É hora de levantar e se preparar.
Dobrei minha roupa de cama de pele de alta qualidade, que não estaria fora de lugar no palácio real, arrumei tudo e então abri o armário e peguei minhas roupas. Minha roupa de dormir é um traje solto e confortável que o Lorde Van havia idealizado, mas minha vestimenta padrão de trabalho não tem um único vinco quando eu a visto. Ajusta-se precisamente ao meu corpo.
Desde que vim para a Vila Seatoh, minha situação de vida melhorou consideravelmente. O constante senso de urgência desapareceu, substituído por coisas novas acontecendo diariamente. Estamos constantemente no processo de mudar e desenvolver tanto a vila quanto a cidade, o que certamente faz parte disso, mas o maior elemento é a rapidez com que ambos os lugares estão se desenvolvendo.
Quando novos residentes chegam, necessitam de alojamento e itens de necessidade básica, e se não tivermos trabalho suficiente para eles, temos que fazer ajustes. O povo da Vila Seatoh previu isso e fez as preparações necessárias conforme a vila era expandida, então houve o mínimo de caos. Mas, mesmo assim, a população está aumentando em uma velocidade imprevista.

Achei que ainda tivéssemos tempo para lidar com isso, mas parece que terei que acelerar o plano.

Lancei meu olhar para fora da janela. Refletido nela está um velho mordomo. De alguma forma, sem perceber, eu chegue à beira de completar sessenta anos. Não sei quantos anos me restam neste mundo, mas sei que tenho que ajudar o Lorde Van de qualquer forma que puder enquanto ainda for capaz.
Lorde Van absorve conhecimento em uma taxa chocante e até sabe de coisas das quais eu não tinha consciência. Ele também é capaz de colocar esse conhecimento em uso prático. Criança prodígio. Essas palavras eram sussurradas na casa do marquês, mas eu acredito que são verdadeiras. É certamente verdade que ninguém como o Lorde Van existia entre as pessoas que eu conhecia. Mas bebês que aprendem a andar rápido tropeçam com a mesma frequência.
Lorde Van absorve rapidamente todo tipo de informação e a colocava em uso prático em seu território. Como lorde, sua habilidade de tomar iniciativa e recomendável, assim como a gentileza e o calor que demonstra aos seus cidadãos. No entanto, ele ignora o modo como o reino funciona, sua cultura e suas regras de como a nobreza deveria agir. Para uma pessoa normal, seria razoável pensar que tudo o que importa é se um modo de fazer as coisas produz resultados positivos, mas essa abordagem ignora a fricção desnecessária que pode criar.
Lorde Van é jovem, então faz sentido que ele não dedique muito pensamento a tais aborrecimentos. Claro, se eu mencionar isso a ele, ele sem dúvida entenderá e será atencioso com minhas opiniões sobre o assunto. No entanto, caso algo aconteça comigo, ele pode carecer de tal consideração para com mercadores e nobres que se apegam rigidamente às convenções e à história da terra.
Como um homem mais velho, é minha responsabilidade passar minha experiência para a geração mais jovem. Eu ainda tenho muito a ensiná-lo. Primeiro, devo manter um olhar cuidadoso sobre a cidade e a vila enquanto ele estiver fora.

Meus pensamentos foram interrompidos por uma batida na porta e a voz de uma mulher falando além dela. [Bom dia, Lorde Esparda. Temos visitantes...]
| Esparda | [Bom dia. Por favor, aguarde um momento]

Verifiquei duas vezes se meu traje está em ordem. Não há problemas, então abri a porta e saí para o corredor. Uma das empregadas que trabalha aqui na mansão estava me esperando. Ela é uma ex-nobre que havia sido vendida como escrava. Apesar de sua terrível infelicidade, ela havia se tornado muito mais feliz desde que veio para a Vila Seatoh.
A atual governanta, Till, é uma garota alegre, mas carece de discrição às vezes, e frequentemente quebra mobílias e itens de uso diário. Till também comete erros na gestão da comida, às vezes até esquecendo de fazer os pedidos. No entanto, as empregadas a respeitam muito. Avisei-a muitas vezes para não causar problemas para o Lorde Van, mas ela não mostra sinais de melhora.
Till dá trabalho. Ainda assim, é graças a ela que as outras empregadas se mantêm na linha.

| Esparda | [Quem são esses visitantes?], eu perguntei.
| Empregada | [São representantes de um grupo de pessoas que desejam se mudar do território do Marquês Fertio para a Vila Seatoh. Parecia urgente, pois foram vítimas de bandidos. No momento, estão esperando na praça da vila sob a supervisão da Ordem de Cavalaria da Vila Seatoh]
| Esparda | [Entendido. Devem ter viajado um longo caminho, então, por favor, prepare comida e bebida para eles. No entanto, ainda não sabemos se têm segundas intenções, então, por favor, não lhes ofereça sustento até confirmarmos que não são perigosos]
| Empregada | [Eu entendo], o rosto dela endureceu. Ela nasceu na nobreza; provavelmente captou minha implicação.

É comum que espiões de todos os tipos de lugares se apresentem diante de nobres que estão em ascensão. Eles podem vir de territórios vizinhos, da família real ou às vezes até de outros países, e também podem se infiltrar como mercadores, aventureiros ou mercenários. Para evitar que tal coisa ocorra, temos que perguntar a todos os recém-chegados de onde vêm e por quê. No momento, como o Lorde Van é um novo barão, tanto ele quanto a Vila Seatoh estão recebendo muita atenção.

Estreitei os olhos e olhei para a empregada. [Vamos? Esta é uma excelente oportunidade para você observar como processar e questionar candidatos à imigração]
A garota assentiu estudiosamente. [S-sim, senhor!]

O canto dos meus lábios elevou-se em um sorriso diante de sua resposta fervorosa. Começamos a nos mover, marchando em direção à praça da vila. Em meu trabalho como mordomo, eu não posso me dar ao luxo de deixar surgir qualquer problema aqui na vila. Em meu orgulho, eu não deixarei forasteiros de outra nação, realeza ou família nobre se infiltrarem nesta vila.



Na praça da vila, encontrei algumas dezenas de homens e mulheres, todos vestidos com roupas esfarrapadas e parecendo terrivelmente magros. Seus pés estão cobertos de sujeira, seus olhos encovados. O mais velho parece estar na casa dos cinquenta e o mais jovem na casa dos trinta. Parecem miseráveis, e eu posso ver que até os cavaleiros que os vigiam com suas espadas desembainhadas não têm certeza de como lidar com a situação. Muitos na ordem já haviam vivido em condições semelhantes; eu tenho certeza de que querem alimentá-los o mais rápido possível.
Temos que fazer isso do jeito certo, no entanto. Qualquer um que estiver à beira da morte receberá tratamento primeiro, mas, por enquanto, todos estão olhando para mim e esperando em silêncio. Nesse caso, devo prosseguir com o interrogatório.

| Esparda | [Estão todos aqui?]
Um dos membros da ordem virou-se para mim. [Senhor! Temos o restante deles esperando do lado de fora da muralha. Aproximadamente duzentos indivíduos!]

Olhei de volta para os homens e mulheres à minha frente. É possível que, entre o grupo maior, haja indivíduos pagos para adquirir informações sobre a Vila Seatoh, mas as dezenas diante de mim neste momento não parecem ser espiões.

| Esparda | [Então farei a todos algumas perguntas simples. Por favor, respondam com a verdade], eu disse. Então questionei cada um deles individualmente.



| Esparda | [Eu entendo]

O processo levou tempo porque eu os estava triando um por um. Espiões frequentemente entram em pânico nesses cenários porque não há como saberem como os outros responderam às suas perguntas. Ninguém que questionei mostrou tal pânico; agiram naturalmente.
Alguém que tivesse passado por um treinamento significativo poderia ter sido capaz de atuar durante a entrevista, mas não senti tais segundas intenções entre as pessoas que entrevistei. Verifiquei com cada um deles, e confirmaram que todos que buscavam entrada na Vila Seatoh são rostos conhecidos, inclusive aqueles do lado de fora. Em outras palavras, todos são da mesma vila. Se for esse o caso, qualquer espião se destacaria imediatamente.
Tudo o que temos que fazer agora é impedi-los de deixar a vila pelos primeiros meses. Se algum desses aldeões for contratado para nos espionar, começará a entrar em pânico se não puder se mover livremente. Seremos capazes de atrair quaisquer espiões sem realmente investigar cada pessoa.

| Esparda | [Agora, então, gostaria de emitir formalmente licenças para que todos se mudem para cá. Temos papelada a fazer, então, por favor, tragam as pessoas que esperam lá fora. Assim que confirmarmos que todos estão presentes, ofereceremos comida e bebida. Está entendido?]

As dezenas de aldeões diante de mim assentiram seriamente, levantaram-se e correram para fora dos portões frontais. Não muito tempo depois, mais de duzentos indivíduos se reuniram na praça da vila, cercados pela Ordem de Cavalaria. Todos parecem exaustos, sem condições de estar tramando nada.

Primeiro, precisamos alimentá-los. [Tenho certeza de que alguns deles não comem há algum tempo], eu disse a alguns residentes da Vila Seatoh. [Por favor, ofereçam-lhes sopa e pão macio, comida que não machuque seus estômagos. Também certifiquem-se de dizer para beberem a água lentamente]

Os aldeões que me auxiliavam assentiram e começaram a se mover. Quase todos que vivem aqui vieram de algum outro lugar inicialmente, então entendem bem tanto a tristeza que vem de deixar o lugar onde se nasceu quanto o desgaste físico de se mudar de um lugar para outro. Essa simpatia e consideração fizeram com que os viajantes cansados parecessem menos preocupados e mais aliviados enquanto comiam.
Entre eles estavam muitos homens de meia-idade que, talvez finalmente permitindo que o alívio os lavasse, começaram a chorar. Alguns dos residentes da Vila Seatoh e até membros da ordem choraram em simpatia também.

| Morador | [Podem levar o tempo que precisarem, okay? Vocês estão seguros agora]
| Morador | [Ora, parem de chorar. Vamos, tomem um pouco de água e sintam-se melhores]
| Morador | [Vocês estão todos bem? Se alguém precisar de tratamento médico, por favor, me avisem. Vamos dar um jeito nisso]

Os aldeões cobriram os viajantes com sua bondade, e pessoas de todas as idades continuaram a chorar. Até eu me vi pronto para baixar a guarda, mas sei que tenho que endurecer meu coração. É precisamente por causa do quanto haviam sofrido que os residentes da Vila Seatoh são tão gentis e dóceis. No entanto, por outro ângulo, poder-se dizer também que isso os torna fáceis de enganar. Se alguém com más intenções se infiltrar em nossa vila, pode facilmente colocá-la de joelhos. Isso permitirá que roubem não apenas minério valioso, peles de monstros, garras e outros recursos, mas também nossas armas importantes, como as balistas e bestas mecânicas.
Se um residente da Vila Seatoh algum dia perder a vida devido a uma das armas que ele fez, Lorde Van ficará devastado. Eu preciso ficar atento para que isso nunca aconteça.

Eu sou o mordomo-chefe do Barão Van Nei Fertio, afinal.




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