Epílogo




PRIMAVERA — A ESTAÇÃO DOS COMEÇOS, DA vida, o começo dos começos. Toda debutante e acompanhante que se preze passa a maior parte da infância se preparando para este dia tão especial, 1º de abril. A música ecoava pelo Distrito Superior na noite do Baile de Primavera, uma melodia suave emanando da propriedade Luthorburg. Dentro da humilde cozinha iluminada pelo luar daquela propriedade, está a culpada, com um único filhote descansando tranquilamente em seu colo.
Bons sonhos — 『Fa in Bel Sogno』.
Um feitiço simples para o pequeno filhote que lutava contra o sono. Mal sabe a Melody a verdadeira força do antigo mal para quem canta, ou seu papel no jogo chamado 『A Santa Prateada e os Cinco Juramentos』.
A Santa subjugou o Senhor das Trevas e, ao fazê-lo, libertou sua essência prateada. Novamente, sem que a Melody percebesse, uma torrente de energia brilhante e poderosa irrompeu dela, estendendo-se para além da cozinha, fractais prateados como galhos de uma árvore sagrada envolvendo a capital real em seus ramos. Espalhou sono como folhas dispersas, não apenas para o Senhor das Trevas, mas para todos os residentes que chamam a cidade de lar.
Tal poder está destinado a ultrapassar os limites das muralhas de Paltescia, no entanto.
Quando a Melody terminou sua canção, os galhos encolheram e a árvore prateada derreteu, mas tanto mana não pode simplesmente desaparecer. Vestígios persistiram, vestígios que nem deveriam existir, mas que, mesmo assim, foram levados pelo vento para o norte e oeste. O mana viajou lenta, porém rapidamente, sem rumo, porém com certeza, como se guiada por algum poder invisível.



Três titãs se erguiam como pedras preciosas incrustadas no seio de uma vasta cordilheira em forma de Y: o Reino Theolas, o Reino Hemnates e o Império Rordpier. Os picos delimitam cada nação, protegendo suas fronteiras; mas a oeste, no lado de Hemnates, jazem riquezas adormecidas, verdadeiras pedras preciosas.
Por ordem da coroa de Hemnates, essas pedras preciosas foram extraídas, e dessas riquezas surgiu uma cidade. Nessa cidade vive uma órfã, se é que uma menina de quatorze anos, a um ano da idade adulta, ainda pode ser considerada órfã.
Ela corria entre as barracas, com o pão agarrado ao peito.

| Homem | [Pare! Ladra! Ladra!]
| Garota | [Talvez se você disser por favor!]
A menina, ágil como é, saltou por uma parede, subindo no telhado do prédio. O padeiro bateu os pés. [Volte aqui, sua pirralha!]
A menina gargalhou. [Obrigada pelo pão. Não se preocupe. Vou usá-lo bem!]
| Homem | [Maldita pirralha!] É melhor eu não te ver de novo!

Ela zombou, respirou fundo e gritou. [Socorro! Alguém! O Gowin está tentando se forçar sobre mim!]
| Gowin | [Meu Deus, mulher! Que diabos você está fazendo—], Gowin parou um instante para apreciar a quantidade de jovens mulheres que o encaravam. [Garota demoníaca! Sua inútil!]

Mas a sagacidade afiada do padeiro só atingiu o ar. A garota havia sumido.

Minutos depois, Leah emergiu das sombras em um beco escuro nos arredores da cidade. Ela não sabe por que seu nome é Leah. Ela nunca tinha tido um nome antes, e esse foi o primeiro que lhe veio à mente. Então ela é Leah. Ela acha que combina com ela. Não significa nada, e ela não sabe por que gosta, mas, estranhamente, gosta. De qualquer forma, não importa qual seja seu nome. Ninguém saberia, exceto ela. Ela sempre esteve sozinha, sem ninguém para cuidar dela, ninguém para zelar por ela. A maioria das crianças encontra destinos sombrios nessas circunstâncias, então certamente ela teve alguém em algum momento, e certamente essa pessoa a chamou pelo nome.
Leah mordeu o pão furtado. A emoção da perseguição se dissipou, deixando o pão, antes fascinante, como mera e insípida refeição. No fim, tudo é negócio. Ela não sente prazer com seus despojos porque, de alguma forma, lá no fundo, sabe que roubar é errado. Ela só faz isso porque precisa, porque, caso contrário, morrerá de fome. Ninguém empregaria uma criança de rua, e não há infraestrutura para apoiar pessoas como ela, nem mesmo orfanatos.
É uma cidade nascida da riqueza, pelos ricos, para os ricos, um poço de desigualdade e privilégio.
Leah nem sequer pode ir embora, presa ao sistema como está. Ela não pode simplesmente chegar a uma cidade nova, suja e maltrapilha, e descobrir um futuro melhor. Não, ela tem que roubar. Tem que roubar. E ainda assim, ela tem princípios. Moral. Ela não deixará a máquina devorá-la. Leah fez seu pequeno show como seu único e insignificante ato de desafio contra a sociedade que a havia abandonado, uma máscara rancorosa de alegria diante do desespero. Ela tem que pelo menos fingir. Tem sim.
A disparidade de classes na cidade é algo horrível. A classe trabalhadora — principalmente os mineiros — sofre com condições precárias e mortes frequentes no trabalho. As ruas transbordam de crianças cujos pais haviam partido para os túneis um dia e nunca mais voltaram. Leah imagina que é uma delas, não que ela jamais vá ter certeza.

| Leah | [Quem me dera aquele cara fosse tão espirituoso quanto é na cozinha. Precisa de uma esposa]

Leah se permitiu saborear o pão, mesmo que apenas por despeito. Pensou em um futuro onde não estivesse tão miserável. Talvez pudesse ter lhe feito um favor. Mas logo descartou a ideia. O padeiro é velho demais e gordo demais para ela. Ela pode até ser uma criança de rua, mas ainda tem seus padrões.
Prefiro um tom mais bronzeado, ela pensou. E um sorriso bonito. Seja lá o que isso signifique.
Ela não tem ideia de onde vêm essas preferências. Simplesmente as têm. Talvez um dia encontre alguém que as compartilhe.

Quem será que estou esperando? Talvez ele apareça nos meus sonhos.

Leah se acomodou contra a parede escura e suja atrás dela e aos poucos foi adormecendo. Precisa descansar quando e onde puder. Não há como prever quando alguém aparecerá para pegar o que não lhe pertence.



| Leah | [Uh-oh], ela ofegou. [Esses caras estão sérios]
| Homem | [Volta aqui, pirralha!]
| Homem | [Você não pode fugir para sempre!]
| Homem | [E com certeza não pode se esconder! Venha aqui!]

O pequeno roubo da Leah não saiu como planejado desta vez. Ela pensou que o trio de viajantes seria presa fácil, mas eles a pegaram tentando furtar seus pertences. Se ao menos seu azar tivesse acabado por aí.

| Homem | [Essas perninhas não vão te carregar para sempre!], rosnou um homem.

O trio a perseguiu, mantendo um ritmo muito mais rápido do que a Leah gostaria, enquanto ela saltava de telhado em telhado. Eles batiam os pés no chão e se impulsionavam no ar, fechando facilmente qualquer distância que ela conseguisse criar entre eles. Eles não são conjuradores, mas são habilidosos em manipulação de mana — vagabundos que ganham a vida perambulando por terras devastadas, caçando e vendendo seus espólios. Como tal, eles se especializaram em usar magia para aprimorar seus atributos físicos.
Leah é ágil, mas não consegue alcançar um super-humano.

| Homem | [Não se preocupe, não vamos te tratar muito mal!], gargalhou um dos perseguidores.
| Homem | [Gosta delas desgrenhadas, é?]
| Homem | [Ei, nenhum fedor é impossível de tirar! Jogue um pouco de água na pirralha e pronto!]

Escolhi as pessoas erradas para me meter! Leah rangeu os dentes. Não tenho escolha.
Com uma virada rápida, ela mudou de direção, correndo em direção à mina.

| Homem | [Vamos lá, não seja assim!]

Essas montanhas são repletas de joias preciosas, mas há um poço em particular que havia sido selado. Suas veias secaram e o risco de desabamentos é especialmente alto ali. As tábuas de madeira que bloqueavam a entrada impedem a entrada da maioria dos exploradores curiosos, mas a Leah é pequena o suficiente para passar. É sua única esperança.

| Homem | [Pare, sua batedora de carteiras!]
| Homem | [Não vai ser mais seguro lá dentro do que aqui fora! Atrás dela!]
| Homem | [Você não vai escapar!]

Os viajantes viram o destino dela e correram para interceptá-la. Eles poderiam eventualmente forçar a entrada no poço, mas três homens adultos invadindo o local poderiam causar um desabamento. Se quiserem pegá-la, terão uma chance melhor do lado de fora da mina.
Mas a sorte lembrou-se da Leah bem a tempo.

| Leah | [Eu vou conseguir—]

Bons sonhos.
No momento em que a Leah saltou para a entrada do poço da mina, uma luz brilhou tão intensamente que penetrou sua mente. O sol pareceu nascer dentro da caverna escura por um instante, e quando o momento passou, Leah desmaiou.
A garota se atirou no túnel com mais força do que provavelmente seria prudente. Mesmo do lado de fora, os homens ouviram o estrondo. Então a terra tremeu.

| Homem | [Pare!]

Eles pararam. Arrastando-se e deslizando pela terra, eles pararam bruscamente pouco antes da entrada selada da montanha, bem a tempo de as rochas começarem a cair — com a garota ainda lá dentro.
Os homens engoliram em seco.

| Homem | [O que... O que vocês acham que aconteceu com ela?]
| Homem | [A garota está morta. Ou estará em breve]
| Homem | [O que... o que fazemos?]
| Homem | [Nada, eu acho. Só uma órfã, né? Elas somem o tempo todo. Além disso, ela mereceu. Tentou roubar da gente, né!]
| Homem | [É. É verdade]

Satisfeitamente justificados em sua apatia, os homens foram embora. Longe dos olhos, longe do coração. Exceto um homem que resolveu falar.

| Homem | [Ei, algum de vocês viu aquele floco de neve brilhar antes dela aparecer?]
| Homem | [[Não é problema nosso]], responderam os dois restantes, cuspindo as palavras.

E assim a cidade viveu feliz para sempre, em perfeito e pacífico silêncio, sem ser interrompida pelas risadas desafiadoras de uma menina de rua ladra.



Shirase Reia, uma universitária de vinte anos, estava sentada a bordo de um voo rumo à Inglaterra. Não por nenhum motivo grandioso. Ela era uma garota comum com gostos comuns em jogos otome, e por acaso ganhou um sorteio patrocinado por um deles. É por isso que ela estava naquele avião. Nenhum outro motivo. A ideia de viajar para o exterior era estranha para ela. Se não fosse pelo sorteio, ela nem sequer consideraria a possibilidade. Ela não tinha talentos ou paixões dignas de nota. Era uma garota comum. Mas talvez, só talvez, com essa aventura, ela pudesse ser uma garota comum corajosa.

Então talvez ela tivesse sim um motivo para estar naquele avião.
Um rapaz particularmente falador sentou-se ao lado dela. Um certo Hirosaki Shuuichi, de vinte e três anos. O jardineiro sonhava em expandir seus negócios para o design de paisagens. Quando a Reia perguntou como ele planejava alcançar esse objetivo, ele não tinha muito a dizer além de: [Já vamos descobrir]
Ele era um rapaz engraçado. Conseguiu fazer a Reia falar sobre si mesma, o que não é pouca coisa.

| Shuuichi | [E são dez pessoas, você disse? O jogo deve ter sido um sucesso se os desenvolvedores estão gastando tanto assim]
| Reia | [É uma loucura, né? Na verdade, são ingressos para pares, então poderiam ser até vinte, mas, bem, eu estou indo sozinha. Não sei exatamente quantas pessoas apareceram]
| Shuuichi | [Ei, que sorte a minha. Se você tivesse usado aquele ingresso extra, talvez nós dois não tivéssemos conseguido conversar], Shuuichi deu um sorriso engraçado e meio desajeitado.
Reia corou. [Ah, é verdade]

Uma reviravolta do destino os colocou juntos. Shuuichi era o seu oposto. Se não fosse por ele, Reia teria passado a viagem inteira sem dizer uma palavra.
Reia se viu invejando a extroversão do Shuuichi, embora também não pudesse deixar de ser grata por isso. Ela facilmente teria entrado em pânico sentada em total silêncio ao lado de um garoto como ele. Ele tinha pele bronzeada, como aqueles paqueradores que ela sempre ouvia que deveria evitar, mas na verdade era muito doce. De jeito nenhum era do tipo que desrespeitava mulheres.

Conforme o voo prosseguia, Reia foi gostando cada vez mais do garoto. Shuuichi sempre tinha uma nova pergunta e parecia genuinamente curioso sobre os interesses dela. Foi assim que ela começou a falar sobre o jogo que patrocinava a viagem.
Então veio a enxurrada de informações sobre o universo do jogo.

Até o Shuuichi pareceu um pouco surpreso, mas a Reia estava tão absorta em seu discurso que nem percebeu. Por fim, ela mostrou o jogo e apontou para um garoto na capa: Schroden van Rordpier, o quinto interesse amoroso de 『A Santa Prateada e os Cinco Juramentos』. [Este é o meu favorito]
| Shuuichi | [Pálido, loiro e bonito. Que pena que eu sou tão bronzeado]
| Reia | [Talvez], Reia riu baixinho, [mas acho que fica bem em você]
Uma risadinha boba escapou dos lábios do Shuuichi. [Você só está dizendo isso por dizer. Então, como é esse cara?]
| Reia | [Nada a ver com você, Hirosaki-san. Com ele, você vê o que você tem. Ele é frio, calculista, desonesto e egoísta para completar. Ele é perfeito]
| Shuuichi | [Reia-chan, espero que isso não revele nada sobre seu histórico amoroso. Ele me parece abusivo]
| Reia | [Oh, é só um jogo]
| Shuuichi | [Seu rosto, seu destino, eu acho]

Reia achou a reação dele divertida. Se ela encontrasse alguém como o Schroden na vida real, com certeza seria uma experiência terrível, mas ele não é real, e essa é a parte importante. Enquanto a Reia não estivesse em perigo real, ela pode olhar através do vidro, suspirar e adorar todos os homens terrivelmente tóxicos que quiser. A protagonista, Cecilia, é realmente muito forte por aguentar tudo aquilo.

Obviamente, eu quero alguém legal na vida real, pensou Reia. Alguém como o Shuuichi-san.

| Shuuichi | [Reia-chan? Por que você ficou quieta?]
| Reia | [Ah, hum, desculpe. Então, o Schroden é tipo, hum...], ela mudou de assunto rapidamente, envergonhada por seus devaneios.

Shuuichi ouviu atentamente e com devoção enquanto a Reia resumia a rota do Schroden, tão atentamente e com tanta devoção que o resumo acabou se transformando em uma longa e detalhada palestra. As pessoas nunca a ouviam com tanta atenção quando ela começava a falar sem parar.

Reia só voltou a si no final do seu discurso. [Ai, meu Deus! Me desculpe!]
| Shuuichi | [Se desculpar? Por quê?]
| Reia | [Por falar tanto], suas bochechas coraram.
Shuuichi exibiu aquele sorriso bobo de novo. [Enquanto eu estiver conversando com uma garota bonita, estou no meu paraíso. Eu é que deveria te agradecer]

Algumas pessoas bajulam com palavras vazias. Reia, porém, não sente nenhuma superficialidade nelas. Suas bochechas queimaram ainda mais. [Eu... bem, não tenho muitos amigos, então não costumo falar muito sobre isso]
| Shuuichi | [Não?]
| Reia | [Eu não sabia o que pensar quando você simplesmente começou a falar comigo do nada, mas... bem, estou feliz que você tenha feito isso]

Ela fala sério. Não está acostumada a expressar seus pensamentos, mas o Shuuichi e seu coração sincero a encorajaram a se soltar. O garoto retribuiu a gratidão dela com um olhar enigmático. Enigmático até ele falar, pelo menos. [Namore comigo, Reia-chan!]
| Reia | [Huh?!], a mente da Reia disparou. Seu coração acelerou. Atordoada, ela gaguejou a verdade. [Você... eu... eu não sei o que dizer. Isso fo um pouco repentino]
| Shuuichi | [Isso é um não?]

Ah. Ele chegou a essa conclusão rápido demais.

Na verdade, ela não tinha dito não, apenas que foi repentino.

Seu coração disparou. Só para que ele não ouvisse, ela disse: [Você é... solteiro, eu acho]
| Shuuichi | [Com certeza. Simplesmente nunca dá certo, por algum motivo. Todas as pessoas que eu convidei me rejeitaram na hora]
| Reia | [Seu timing precisa melhorar], Reia murmurou timidamente, com a voz baixa demais para ele ouvir.

Se ele tivesse perguntado um pouco mais tarde, eu... T-talvez eu pudesse ter lhe dado uma resposta adequada.

| Shuuichi | [Ei, olhe ali]
| Reia | [Ali onde?], levantando a cabeça, ela seguiu o olhar do Shuuichi em direção a uma mulher que voltava do banheiro, uma mulher muito notável. [Nossa. Ela é tão—]
| Shuuichi | [Linda], suspirou Shuuichi, admirando as ondas de seus cabelos negros e sedosos.

Ela se portou com graça e elegância até um assento atrás deles, mas não antes do Shuuichi se certificar de que a admirou o suficiente para durar o resto da viagem. A visão fez seu rosto derreter.
A mulher tem mais ou menos a mesma idade que eles, não que eles possam saber. Nem seu nome — Mizunami Ritsuko.

Ela é tão linda, maravilhou-se Reia. Ela não pode ser mais velha que nós, mas parece uma mulher de verdade. Tão madura e elegante. Espera, não, isso não vem ao caso!

| Shuuichi | [Nossa, ela é mesmo linda], disse a pilha de pudim sorridente. [Qualquer cara com quem ela decida namorar será o homem mais sortudo do mundo]

Esse cara literalmente acabou de me chamar para sair?! Sim, ela é bonita, mas, qual é!? Como posso confiar que você não faz isso com todas as mulheres que passam?

A diversão da Reia havia se esgotado. [Acho que sei por que você nunca tem sorte com as mulheres]
| Shuuichi | [Sabe?! O que é? Me diga!]
| Reia | [O fato de você precisar que eu te diga significa que você já está além da redenção. Acostume-se a ser solteiro]
| Shuuichi | [Não! Eu me recuso! Por favor, Reia-chan! O que me falta? Me diga e eu prometo que vou mudar!]
| Reia | [Pergunte a alguém que se importe]

Ou descubra você mesmo!

| Shuuichi | [Não faça isso comigo!]

Reia, de fato, fez isso com ele, e com um ombro mais gélido que o Ártico. Durante todo o tempo, ela permaneceu felizmente alheia a quão precioso seria o tempo que lhes restava juntos.



Leah acordou de um torpor inquieto. Seu corpo doía. Ela havia entrado no poço da mina tão mole quanto uma boneca de pano e levado uma surra ao cair, como atestam seus hematomas recentes. Hematomas que ela não pode ver, embora os sinta intensamente. Sua entrada desapareceu atrás dela, selada por pedras caídas. Nenhum raio de luz consegue penetrar a barreira.

Leah cambaleou e examinou a escuridão. [O que aconteceu? Por que estou aqui?], pensamentos desconhecidos inundaram sua mente, pensamentos que se misturavam aos seus, transformando-a de maneiras que ela ainda não conseguia perceber. [Não consigo ver nada. Onde está a saída?]

Usando a parede como guia, ela se aventurou mais fundo. Cada passo era uma aposta, um salto de fé na escuridão. Apesar de seus atos de coragem, sua recompensa permanece fora de alcance. Ela não está mais perto de uma saída. De tempos em tempos, mais entulho caía, lembrando-a de que aquele lugar pode enterrá-la viva a qualquer momento.
Onde está sua bravata agora? Sua máscara de impenitente? Perdida em algum lugar no vazio negro. Uma garota com lágrimas nos olhos substituiu a malandra com uma atitude despreocupada. Mesmo assim, Leah continuou caminhando, recusando-se a desistir da luz que certamente está no fim do túnel.
Ela caminhou o que pareceu quilômetros, fez inúmeras curvas em inúmeras bifurcações. O caminho sinuoso e cavernoso pareceu se estender para sempre, guiando-a cada vez mais fundo em entranhas desconhecidas onde apenas a decepção a aguardava. Exausta, derrotada e sem fôlego, Leah afundou no chão duro. Ela não pode continuar fazendo isso — física ou mentalmente.

O que vai acontecer comigo?

Sua garganta secou, tornando sua voz rouca, sem valor algum. Ela deixou suas pálpebras caírem enquanto o cansaço a dominava.
De repente, tudo tremeu — o chão, as paredes, todo o poço da mina.

| Leah | [T-terremoto?!]

Leah pressionou as costas contra a parede de terra solta e esperou que parasse, mas só se intensificou. O chão sob seus pés começou a se mover e, em seguida, desmoronou completamente. Leah gritou quando pedras rolaram. No momento em que atingiram o lugar onde sua cabeça estava, porém, a terra a engoliu.
Na segunda vez que acordou, cascalho e pedras esmagaram a parte inferior de seu corpo. De alguma forma, conseguindo rastejar para fora, ela examinou seus novos arredores. Está em algum tipo de caverna — do tipo natural, escavada pelas forças da natureza. Paredes de pedra dura irradiam uma luz misteriosa e pálida, a única luz que permite a Leah distinguir a câmara. De ponta a ponta, o espaço tem aproximadamente o tamanho de um pequeno apartamento. Ela deve ter caído em alguma fenda.
O que é... um apartamento? Leah fez a comparação, mas ainda não sabe. Curioso. De qualquer forma, sem uma saída, sua situação não havia melhorado. Vou morrer aqui? Espera. O que é aquilo?

Examinando a caverna uma última vez em desespero, ela avistou um objeto estranho e esférico no centro. Ao inspecionar mais de perto, ela encontrou um orbe incrustado no chão.
Tem mais ou menos o tamanho de uma bola de basquete, pensou ela. Espera, o que é uma bola de basquete? E por que ela continua tão confusa?

Algum tipo de dispositivo, agora deteriorado a ponto de não ter conserto, fixa o orbe no lugar. Leah tentou pegar o orbe. [Ah. Saiu fácil], para o seu peso, a esfera metálica se soltou surpreendentemente fácil. Ela a virou nas mãos, examinando-a. [Será um recipiente? Talvez tenha uma fechadura ou algo assim em algum lugar. Um botão de liga/desliga?], outra palavra desconhecida. [Botão liga/desliga?]

De repente, o chão tremeu novamente. Leah se agachou e ergueu os braços sobre a cabeça, rezando para que não caísse novamente.
Enquanto isso, o orbe se chocou contra o chão rochoso com um estrondo desagradável e rolou para longe da vista. Fraturas se espalharam pelas paredes da caverna. Rochas trovejaram quando uma avalanche esmagou o orbe sob uma inundação de terra e pedra. Leah encarou os destroços que cobriam o lugar onde o orbe deveria estar.
Logo, uma névoa escura começou a escorrer das fendas e rachaduras dos escombros rochosos. A lama engrossou, tornando-se um fluxo, e depois uma torrente de gás, coalescendo em uma forma física.
Uma forma que a Leah reconheceu.

| Leah | [Um lobo negro?]

Memórias passaram diante de seus olhos, narrando a história de uma garota de cabelos prateados e olhos como lápis-lazúli que lutou contra o destino, resistiu à tragédia e saiu vitoriosa. É uma bela história de triunfo. É a história da Santa e seus companheiros, as pessoas que ela ama e as maneiras como se apoiam mutuamente. Uma história sobre uma garota que não carece de pessoas que a amem. Uma garota que a Shirase Reia admirava muito.

| Leah | [Cecilia], ela murmurou, [Leginbarth]

Leah caiu de joelhos. O lobo negro despertou suas memórias, inundando-a com informações em uma torrente violenta. Para cada fragmento que ela captava da enxurrada, outros dez ricocheteavam em sua mente sobrecarregada. Entre isso e a realidade debilitante de sua situação, ela não tinha a menor chance de decifrar o dilúvio.
No fim, tudo a que a Leah podia se agarrar era a Cecilia e sua história. Embora seus trejeitos tivessem se aproximado dos da garota chamada Shirase Reia, essa garota ainda é uma estranha para a Leah.

| Lobo |Oh? Você possui um belo receptáculo, mortal

Leah ergueu a cabeça bruscamente quando uma voz estranha ecoou pela caverna. O lobo está falando com ela, mas ela só conhece um lobo capaz disso.

| Leah | [O Senhor das Trevas... Vanargand?]
| Lobo |Senhor das Trevas? Vanargand? O Senhor das Trevas?!』, a grande besta gargalhou. 『Oh, você me diverte, mortal! Que banal! Que teatralidade para chamar este Sangreal!』, a risada do lobo ecoou, aparentemente sem fim. 『A mortal sabe brincar!

Leah só pôde observar em silêncio, chocada, até que a besta se acalmasse.

Quando se acalmou, fixou-a com um olhar sombrio. 『Gosto de você, mortal. Gostaria de fazer um acordo?
| Leah | [Um acordo?]
| Lobo |Um acordo. Torne-se meu receptáculo. O seu está vazio e é notavelmente grande para um humano. Você se adaptaria muito bem à minha eminência, eu acho. Dobre-se, mas não quebre
| Leah | [Tornar-se... seu receptáculo]
| Lobo |De fato. Em troca, concederei a você qualquer coisa que seu coração desejar. Uma questão simples para alguém como eu
| Leah | [Qualquer coisa que meu coração desejar. O que ele deseja?]
| Lobo |Isso, mortal, pode ser respondido. Não se preocupe com sua mente frágil

Leah estremeceu quando o lobo se desmaterializou em uma névoa que a envolveu. Ele deslizou para dentro de seu corpo por cada orifício, e ela começou a gritar.

| Tindalos |Não tema. Renda-se. Exponha sua própria alma. Confesse tudo o que seu coração anseia a mim, o oitavo receptáculo do Projeto Sangreal — não, a Tindalos, o Sombrio!

Enquanto seu corpo absorvia o último resquício da névoa, Leah gritou. Tindalos se contorceu em suas profundezas, seguindo o rio de suas memórias, até encontrar seu único e sincero desejo.
Ser a Cecilia Leginbarth.
Esse desejo ultrapassava em muito os limites da vida da Leah. Na verdade, é o desejo da Shirase Reia. Mas agora, com a vida dela e a da Leah se fundindo, ele brilha com mais intensidade do que nunca.

O autoproclamado Senhor das Trevas soltou outra gargalhada estrondosa. 『Sim, entendo. Posso conceder este desejo. Pode considerá-lo realizado enquanto dorme

A mente da Leah se perdeu, afundando em um pântano de escuridão. Pouco antes do Tindalos assumir o controle completamente, um único pensamento passou por sua mente. Eu queria poder ver o Shuuichi-san novamente.
Tindalos ficou surdo a esse desejo em particular, pois a corrupção do Senhor das Trevas o silenciou.

Mana negro revestiu o corpo da Leah, curando seus ferimentos, transformando seus cabelos castanhos em prateados e seus olhos castanhos em um azul mais profundo que o oceano.

| Tindalos | [Agora, vamos ver se consigo realizar esse seu pedido. Cecilia Leginbarth pretende agradar]



Algum tempo depois de ressurgir, Leah — agora Tindalos, o Sombrio — encontrou um cavaleiro errante chamado Sevre Pufontis.




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