Capítulo 3




Shen, com toda a sua altura esguia, está segurando um velho incrivelmente peludo nos braços, como se estivesse carregando uma princesa. É uma visão surreal, para dizer o mínimo, e só o contraste já explodiu minha mente.

Não dá para a gente passar um tempinho sem mais problemas? Eu não devia ter um descanso depois daquela última luta contra o chefe?!

| Shen | [Mestre, devemos permanecer dentro do Subespaço por enquanto], ela diz.
Ao ouvir isso, aponto para o sujeito nos braços dela. [Isso tem a ver com ele?]

Ele parece bem irritado com a minha falta de delicadeza, mas eu não me importo. Um cara misterioso aparecendo na minha porta com ferimentos daquele jeito significa encrenca, ponto.

Shen assente com calma. [Exatamente. Que perspicácia, Mestre]
| Makoto | [Então, qual é o problema?], eu pergunto.
| Shen | [Estamos sob ataque]
| Makoto | [Ataque? Como? Não tem como alguém entrar neste mundo além de nós]

O Subespaço é um mundo completo por si só, e tão distinto do mundo exterior quanto a Terra é. Eu não consigo imaginar ninguém atravessando a barreira entre mundos sem a permissão da Shen.

Você consegue explicar isso de um jeito que realmente faça sentido, sua ex-cobra? Vai pedir desculpas pros seus pais cobra-cipó enquanto está nisso!

| Shen | [Nossa atacante é bem incomum], Shen explica. [E está faminta como sempre, devo acrescentar... Olhe, lá está ela agora]
| Makoto | [Você podia pelo menos tentar ficar preocupada?!]
| Shen | [Mestre]

Só me responda! Espera, Mestre? Eu...?

Ela aponta para trás de mim. [Ali]
| Makoto | [... Huh?]

Eu me viro e vejo algo horrível. Pernas longas e finas, negras, tão antinaturais que parece que alguém tentou sobrepor CGI em filmagem real, estão saindo rastejando de uma rachadura no céu. A fenda geme e se abre ainda mais conforme mais e mais pernas atravessam, seguidas por um par de presas reluzentes.

| Makoto | [Droga, todo mundo quer me comer?!], eu grito, com o coração se torcendo de desespero. [Ughhh... isso não pode estar acontecendo...]

A intrusa não é tão grande quanto a forma de dragão da Shen, mas ainda assim é enorme. Pelos grossos cobrem sua carapaça brilhante e quitinosa — definitivamente algo insetoide, mas nada parecido com qualquer bicho da Terra. Deve ter quase o comprimento de quatro tendas grandes, em todo o seu horror aranhento de obsidiana.

Shen gargalha, se divertindo com a aranha. [Nem um pingo de autocontrole, huh? Bastou pôr uma refeição diante desses seus olhos esbugalhados e você perde qualquer resquício de sanidade!]
| Makoto | [Pelo menos alguém está se divertindo!], retruco para minha familiar. [Então por que você não resolve isso?! Você conhece essa coisa, né?!]
| Shen | [Impossível], ela responde, seca. [Eu não consigo lidar com uma criatura tão glutona — sem mencionar que eu não posso lutar sem uma katana!]
| Makoto | [Para de enrolar!]

Chega de desculpa esfarrapada! E sua magia de água, ou sua neblina? Você simplesmente esqueceu todos os seus truques de ilusão?! Eu lembro muito bem de você dizer que também é ótima com magia de vento!

A aranha, aparentemente cansada do meu bate-boca com a Shen, avança com uma velocidade assustadora. O balançar frenético dos membros da frente, em especial, torna quase impossível ler seus movimentos, mas ela com certeza vem direto para mim.

Shen estufa o peito com orgulho. [Fique tranquilo, eu protegerei meus orcs e minha cidade! E, claro, este anão infeliz. Eu só preciso que você esmague esse inseto detestável]

Há uma leveza casual demais na voz dela.

Me dá um tempo... Olha só toda essa baba voando dessa coisa! Eu sou o almoço dela!

Ela cospe em mim um bolo de fios pegajosos conforme se aproxima.

| Makoto | [Teia?!]

Consigo evitar por pouco, e a teia espirra no chão. Parece incrivelmente grudenta, e eu não tenho dúvida de que um único toque me imobilizaria completamente.

| Makoto | [Uh, Shen? Uma ajudinha?!]
| Shen | [Que graça, Mestre! Eu sabia que você daria conta dela]
| Makoto | [Que diabos é essa coisa afinal?!]
| Shen | [Não sei o nome dela, mas ela vive nestas terras desde tempos antigos, sempre faminta. Ela é totalmente imparável quando o apetite a desperta e, quando o estômago fica cheio, ela dorme em uma nova terra até que a fome a faça se mexer de novo]

Eu sabia o nome da Shen desde o começo, mas as semelhanças com o folclore chinês me fazem assumir que ela é tipo uma amêijoa ou algo assim. Mesmo que o nome soe familiar, não há garantia de que os monstros deste mundo sigam os contos da Terra. Há várias aranhas gigantes mitológicas, mas eu não conheço nenhuma que saia por aí nesse tipo de fúria. Só pelo som, tanto a grega Aracne quanto o japonês Tsuchigumo parecem similares, mas nenhuma encaixa perfeitamente.

Se eu soubesse que aranha específica é essa, talvez eu soubesse como lidar com ela...

Então eu preciso avaliá-la do zero. Entre a negritude da carapaça e da teia, eu não acho que magia das trevas vá fazer qualquer coisa. A maioria dos insetos em jogos, pelo menos, é fraca contra fogo...
Enquanto eu penso, porém, a aranha fecha rapidamente a distância entre nós. Ela é tão rápida quanto eu esperaria — rápida o bastante para eu não conseguir sair do caminho de uma das pernas com garras a tempo. Sou forçado a puxar minha espada e cortar em vez disso.

| Aranha | [Kiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!]

Ela solta um guincho que entorpece a mente, e o impacto me joga com força no chão.

| Makoto | [Guh!]

A dor atravessa meu corpo, mas vem das costas, não do braço. Pelo menos eu consegui bloquear as garras dela com segurança... embora eu não vá chegar a lugar nenhum se ficar só na defensiva. Preciso de algum jeito de partir para o ataque.

Vamos ver se fogo afasta essa coisa...

Eu começo a conjurar Bridt, mas modifico no meio para envolver minha espada curta em chamas. Então conjuro outro Bridt, paro um instante antes de ele disparar e deixo flutuando no ar acima de mim. Assim, eu consigo continuar alimentando mana nele passivamente enquanto luto. Se eu fizer direito, deve funcionar como um ataque carregado, e isso vai me deixar pronto para disparar um golpe poderoso assim que eu enxergar uma abertura.
A aranha continua me golpeando num tipo de dança louca, intercalada por investidas com suas presas enormes. É difícil desviar de tudo, e mal sobra tempo para eu pensar adiante. Eu praticamente sinto o quão faminta ela está, e o quanto quer desesperadamente me comer — uma fome profunda e dolorida que provavelmente a atormenta desde que nasceu. Eu quase sinto pena dela, mas nem de longe o suficiente para deixar ela me comer. Tento falar com ela algumas vezes, mas ela só rosna de fome em resposta.

Ela perdeu a cabeça completamente... pobre aranha-monstro horrível.

Isso me dá uma possível saída. Eu me concentro com força no padrão de ataque dela.

Direita, direita, varrida, diagonal, estocada esquerda, presas, e então... sim, outra direita! Tem um padrão!

Eu desvio o segundo golpe da direita e entro bem perto de uma perna, mirando a parte de baixo do corpo dela. Aponto para a articulação entre a perna e o torso, ativando um Reino de fortalecimento focado em mim mesmo enquanto faço isso. Também coloco um pouco de mana por cima, para dar potência extra. Consigo sentir os dois efeitos entrando em ação.

| Makoto | [Hiyaaaaaaaaah!!!]

A lâmina acerta a articulação. Com um golpe desses, eu devo conseguir causar dano.

| Makoto | [... Huh?!]

Eu engasgo de surpresa com o que acontece em seguida. A perna simplesmente cai fora, minha espada curta cortando sem qualquer resistência.

Isso foi muito mais fácil do que eu imaginei... Ela é tão frágil assim?

| Aranha | [GYEEEEEEEEEEEEEEE!!!]

A aranha recua às pressas nas pernas restantes e, pela primeira vez, eu sinto nela algo parecido com medo. Eu também recuo, só por precaução.

Isso não está tão ruim... Acho que eu consigo vencer agora.

Mal o pensamento passa pela minha cabeça, a aranha salta na minha direção depois de se tensionar por um instante, fechando a distância num piscar de olhos.

| Makoto | [Merda! Ah, merda!]

Ainda mais aterrorizante do que o salto em si é a massa de teia que ela cospe em mim no meio do ar. Quando cai no chão, ela tenta me cortar com as pernas da frente — e uma delas, eu percebo, deveria ser justamente a que eu acabei de cortar.

Droga, essa coisa regenera rápido!

Mas, deixando a intimidação e a velocidade de lado, o ataque é simples e bem anunciado, e eu não tenho dificuldade em desviar tanto das garras quanto da teia.

| Makoto | [Que tal isso?!]

Eu consigo contra-atacar todos os golpes que vêm. Entre o fortalecimento mágico e o meu Reino, meu corpo se sente muito mais leve e responsivo do que antes. Finalmente, eu tenho espaço para respirar e pensar na situação. Eu faço mais quatro pernas voarem de uma vez, todas se desfazendo em cinza negra. Incapaz de fugir com metade das pernas arrancadas, ela tropeça desajeitada para trás e me encara. Eu não consigo imaginar o que passa na cabeça dela — a fome incontrolável a deixou completamente insana.

| Makoto | [Ah, por favor, me diga que isso é o fim disso!]

As chamas cobrindo minha espada estão enfraquecendo rápido, então eu opto por criar um novo Bridt na mão livre e transferir as chamas morrendo da lâmina para ele. Então, moldando o fogo em forma de flecha, eu lanço na aranha.
A ponta se enfia na boca escancarada dela, exatamente como eu esperava — um acerto frontal perfeito. Assim que confirmo o contato, eu libero o enorme Bridt que estou carregando, moldo em forma de lança e disparo direto no abdômen inchado dela. Com as duas flechas de fogo cravadas nela, eu recuo rápido para evitar a explosão que vem.

Okay, isso tem que causar algum dano.

As duas flechas explodem ao mesmo tempo, com uma força tal que não tem como ela sair viva disso. Quando a fumaça se dissipa, porém, ela ainda está praticamente inteira. As pernas restantes tremem e se contraem de um jeito perturbador, me dando um calafrio na espinha.

Caramba, o quão resistente é essa coisa?

Por sorte, o tremor logo diminui e, quando ela ficou imóvel, eu sei que venci. Eu passei por isso muito mais calmo do que com a Shen, sem dúvida por causa da experiência — ou talvez seja só porque ela é mais direta, então eu tive mais tempo para pensar e agir com confiança.

Dois chefes derrubados. Eu realmente espero ter ganhado um nível ou dois com isso...

| Aranha | [Ihyigh...]

Eu congelo. Isso não soa certo.

| Aranha | [Hyaghah~], ela choraminga.

Um medo inexplicável corre pelas minhas veias. Tem algo muito errado aqui.

| Shen | [Mestre?], Shen me chama, com desconforto claro na voz. [A menos que eu esteja enganada...]
| Makoto | [O quê? O que foi? Por que você está tão desconfortável?!]
| Shen | [Talvez... talvez você tenha batido nela com tanta força que ela gostou]
| Makoto | [Eu... Huh? O quê?!]

A aranha gigante é masoquista?! Você só pode estar brincando!

| Aranha | [Ihyahyahyahyahyahyaaaaaaaa!]

A aranha solta um som que parece um grito de êxtase enquanto se levanta nas pernas recém-regeneradas. Meu olhar vai nervoso da aracnídea tarada para a expressão preocupada da Shen.

| Makoto | [Isso não pode estar acontecendo... Nãããããão!]

Apesar do meu grito de desespero, minha luta interminável com a aranha começa de novo.

| Makoto | [Hah... Hah...]

Eu vejo a aranha colossal se contorcer, temendo o que eu sei que isso significa. As pernas não servem para ela, e enormes lanças de fogo de Bridt se projetam como estacas por todo o peito, abdômen e até a cabeça. Ela não está nem um pouco mais perto de morrer do que da primeira vez — não, esse tremor é de prazer, não de dor, medo, ou qualquer coisa que uma criatura sã sentiria. Eu só espero que, desta vez, exista algum dano persistente.

| Makoto | [Eu espero que seja aquele tipo platônico de êxtase... como ela é tão resistente, porém?]
Shen balança a cabeça, decepcionada. [E pensar que ela iria tão longe... que tola miserável]

Pelo visto, Shen já encontrou a aranha antes com resultados semelhantes, mas ela fugiu depois que a Shen a feriu o suficiente. Shen vê isso como nada além de um incômodo e decidiu me fazer lutar contra ela para ganhar experiência. Ela é tão draconiana nos métodos que eu quase quero chorar.

Que coisa é essa, afinal?

As estacas de fogo que a prendem acabam queimando e desaparecem, como se derretessem dentro do corpo dela. Só então percebo que ela estava focando em absorver minhas lanças agora. Como não há buracos restantes, ela tem que estar sugando o mana dos meus feitiços e usando isso para se curar. Nem esmagar a cabeça dela tem efeito duradouro, e eu não consigo encontrar nenhum ponto fraco — supondo que ela sequer tenha um.

Droga, que saco.

| Aranha | [Igh... Ihya, hahaaa!]

Eu começo a ficar tonto de exaustão, e não estou pronto para ela já estar totalmente curada. Assim que a última das lanças some, ela avança em mim mais uma vez.

De novo? Então eu vou ter que continuar batendo até ela morrer de verdade... okay.

Eu crio mais alguns Bridts para responder, sem me importar que estou ficando um pouco descuidado.

| Makoto | [Sério, todos os monstros deste mundo são tão—]

Eu não consegui terminar a frase, porém, porque ela de repente se ergueu num ataque que eu nunca vi antes.

| Aranha | [Ihyahyaaa~!]
| Makoto | [Ah, merda!]

Eu não consegui desviar!

As pernas com garras começam a estocar e perfurar em uma saraivada frenética. Uma das estocadas em forma de lança acertou meu braço e se enfiou profundamente.

Droga, ela me prendeu! Por que ela vai apelar pra jogo mental agora?!

Eu fico indefeso quando um segundo apêndice com garras perfura minha perna.

| Makoto | [Gh...!]

Eu ativo um Reino no último instante, centrado ao redor da parte inferior do meu torso. Isso só atrasa a dor, porém — de algum modo, ela rompe meu Reino. A força restante não é suficiente para me atravessar por completo, mas a segunda garra fica enterrada pelo menos tão fundo quanto a primeira. Ela empurra metodicamente ainda mais fundo, abrindo caminho por dentro de mim até que minha força finalmente cede e minhas costas se chocam com força contra uma árvore. Eu fico literalmente pregado.

| Makoto | [Gah!], eu engasgo quando o ar é arrancado dos meus pulmões.

A aracnídea de obsidiana se puxa, ansiosa, para mais perto de mim, aproximando as presas da minha carne exposta e indefesa. Eu desvio o olhar em pânico.

Acabou! Eu vou ser devorado!

Eu sinto o ar quente na pele quando o bafo dela me atinge. A última coisa que penso é que, pelo menos, ela não vai começar pelo meu rosto.

| Makoto | [Ungh... Argh...!]
| Aranha | [Hehh... Ahyahya~!]

... Que porra? Por que ela está rindo e bebendo meu sangue desse jeito?

Parece que ela me perfurou e me prendeu na árvore para beber meu sangue, não para me comer vivo. Enquanto eu ainda estou tentando processar a montanha-russa emocional mais turbulenta da minha vida, finalmente percebo que ela me solta das garras, e eu fico livre da árvore.


Shen

Nem uma vez eu imaginei que a aranha seria uma ameaça desse nível. Não importa quantos feitiços poderosos o Mestre dispare contra a besta, não importa quantas vezes as pernas sejam decepadas de seu corpo, isso não faz diferença. O horror se regenera numa velocidade nauseante e o ataca de novo. É um estilo de luta bruto e nada elegante por qualquer medida. Mesmo com mais de vinte lanças de chamas perfurando o corpo dela, ela continua a se contorcer e tremer de prazer. Ainda assim, o Mestre me derrotou em batalha, e eu fiquei convencida de que ele sairia vitorioso aqui também — e por essa razão apenas, eu fiquei impressionada com a determinação da besta.
Ela começa a se esticar de novo, as pernas alcançando a grama como sombras ao entardecer. O Mestre parece não menos surpreso do que eu e é forçado a lutar na defensiva mais uma vez. O ataque dela é direto e sem mente, porém, como eu esperaria de um animal burro. Apesar da experiência que ela deu ao Mestre, já passou da hora de esse demônio deixar nosso mundo para sempre.
Num piscar de olhos, porém, a criatura prendeu o Mestre numa árvore e cravou as presas no ombro dele.

Hm. Talvez eu tenha deixado ela vagar livre por tempo demais. Minhas desculpas, Mestre, vou cuidar dos seus ferimentos imediatamente.

| Shen | [Hm? Isso é...?]

Ele está se movendo, a intenção clara em seus olhos. É uma cena admirável, para dizer o mínimo — uma que me deu um arrepio na espinha. Então, algo entre os dois explode, um impacto violento o bastante para que até um horror quase imortal não consiga receber de frente. Ela se afasta correndo do estouro e, com os membros livres outra vez, o Mestre se põe de pé. Ao redor dele há quatro esferas carmesim. Elas se alongam em flechas finas uma a uma, rasgando o ar rumo ao alvo — e, assim que uma parte, outro Bridt já toma seu lugar.
As flechas vermelhas incessantes, cada uma quase do tamanho de uma lança, cravam-se no corpo da besta, uma após a outra. O feitiço anterior dele paira ao redor acumulando poder há algum tempo, mas este novo truque foi um feito completamente diferente. Não, pela taxa absurda com que as esferas se formam e se moldam, ele com certeza modificou o encantamento para que se formem, disparem e preparem a próxima automaticamente. Em outras palavras, o feitiço fornece velocidade e poder devastadores enquanto o conjurador mantiver mana suficiente.
Um Grande Dragão já conseguiu tais feitos no passado, mas, do que eu me recordo, a mera visão disso fez minha cabeça rachar. E pensar que ele faz isso sozinho a partir do feitiço mais fundamental é inconcebível.
Esse truque não funcionaria, porém. Ele consegue machucá-la, eu vejo, mas ela pode simplesmente absorver o mana dele para desfazer qualquer dano causado. Em vez de parar, ele começa a se mover outra vez. Há calma em seus olhos, mas existe uma pressão assassina nas profundezas deles. Minha respiração prende na garganta enquanto eu observo seu próximo movimento. Seu braço se estende, empunhando o athame em uma mão, e uma luz azul irrompe dele, com fios de geada se soltando no ar. É belo além de qualquer descrição.

| Shen | [Então, ele estava se contendo]

Eu assumi que ele estava lutando contra a aranha com tudo o que tinha, mas evidentemente não. Ambas essas novas técnicas estão um nível acima de seus feitiços anteriores, sem mencionar a mudança de elemento — água, ao que parece. Isso combina muito mais com ele do que fogo, mas isso provavelmente é um produto do nosso Contrato. Há uma grande chance de que ele seja naturalmente mais proficiente com outro elemento.

Ah... entendo agora.

Essas técnicas fazem uso pesado da mana atmosférica, enquanto as técnicas anteriores dele dependiam apenas das próprias reservas — e apenas em pequenas quantidades, ainda por cima. Ele devia estar se contendo por medo do efeito no Subespaço. Essa cautela agora foi jogada ao vento, e a determinação em seus olhos fala do desejo dele de matar a inimiga a qualquer custo. Esse próximo ataque, então, decidirá o destino da batalha, para o bem ou para o mal. É meu dever observar o golpe até o fim.
O Mestre solta a arma, e a lâmina dispara pelo ar até a aranha por vontade própria, com um rastro de luz azul brilhante atrás. Eu fico surpresa que o athame aguentou tanto mana, quanto mais que tenha catalizado o feitiço por si só. Evidentemente, não é uma adaga ritual qualquer.
O rastro azul atravessa a tempestade sádica de flechas vermelhas, atravessando a aracnídea. A luz se intensifica e se espalha rapidamente, engolindo a aranha e até o próprio Mestre. O Subespaço inteiro treme e estremece, como se o chão e o próprio ar que respiramos temessem o poder dele.
Por fim, a luz começa a desaparecer aos poucos. Eu percebo com horror que uma silhueta pálida, cinzenta, da aranha ficou queimada na parede de rocha atrás dela.

Ha... hahahaha... não tenho palavras para isso.

Esse golpe mataria um dragão. Tirando eu mesma, existem vários Grandes Dragões especializados em defesa bruta — o mais notável sendo a chamada Onda de Areia —, mas nem mesmo ela escaparia ilesa de um golpe desses. Na verdade, a ferida poderia até ser letal.
Eu só consigo encarar o Mestre, em branco, enquanto ele se aproxima do monte de rochas, provavelmente com a intenção de recuperar a lâmina.

| Makoto | [Ainda com fome, pervertida?]

As palavras mal saem da boca dele quando as pernas cedem e ele cai para trás, exausto. Ele deve ter se levado até o limite — nada surpreendente, dada a quantidade absurda de mana usada. Aquele golpe final deve ter empurrado ele para além da borda, tanto física quanto mentalmente.

Certo. Suponho que eu possa carregá-lo para um lugar seguro.

Eu mal dou um passo na direção dele quando um movimento no canto do meu olho me faz parar.

| Shen | [O quê?!]

A aranha sai de dentro dos escombros. Ela de algum modo sobrevive a um golpe que mataria qualquer Grande Dragão. Mesmo que aquela besta fosse a própria manifestação das trevas, ela não poderia suportar tal ataque. Eu corro até o Mestre, mas estou longe demais e lenta demais. A aranha salta com vontade sobre o corpo caído dele.

Droga! Nunca senti tanto arrependimento! Droga, droga, dro—o quê?!

O demônio não faz menção de comer o Mestre. Em vez disso, ela está esfregando nele de modo carinhoso.

| Aranha | [Ahyahyaaa!]

De novo com esses sons estranhos de prazer!

| Aranha | [Aquilo foi tããão booooom~!]
| Shen | [... O quê?]

Soou como se ela tivesse acabado de falar.

| Aranha | [Aquilo foi o melhor... Você é o melhor! Eu estou tão cheia! Nunca fiquei tão satisfeita~!]

Nada faz sentido. A aranha está falando, um feito que eu assumi ser impossível.

| Aranha | [Wow, wow, wow~! Aquilo foi tão doloroso, tão delicioso, e foi tãããão incrível! Eu nunca senti nada igual!]

Inteligente ou não, ela é pervertida até o núcleo. Eu fico tentada a ir embora e nunca mais pôr os olhos nela, mas o Mestre ainda está em perigo... embora a virgindade dele pareça estar em um risco maior agora do que a vida.

| Shen | [Perdão por interromper, mas você tem um minuto?]
| Aranha | [Eu nunca vou te deixar! Eu vou ficar com você pra sempre e sempre e sempre!]
| Shen | [Escuta aqui, vadia!]

Oferecendo um pedido de desculpas silencioso ao Mestre, eu dou um chute rápido em uma das pernas da aracnídea.

| Aranha | [Ow! Ei, o que você pensa que está fazendo?!]
| Shen | [O Mestre mais do que merece o descanso dele. Já faz um tempo, não é, aranha?]
| Aranha | [Huh. Quem é você?]
| Shen | [Suponho que eu não possa exigir muito, dada minha forma atual... Eu sou Shen, o Grande Dragão]
| Aranha | [Não me diz nada. Eu estava tããão faminta até agora que nem conseguia pensar direito... Espera, você chamou ele de Mestre? Como você conhece esse cavalheirozinho tão adorável?!]

Eu não esperava essa mudança de assunto, para dizer o mínimo.

| Shen | [Eu fiz um Contrato com ele há meros poucos dias. Sendo assim, nosso vínculo é completamente uni—]

Eu me interrompo. A aranha está me encarando com intenção assassina. Ela não pode estar com ciúme... pode?

| Aranha | [Huh... Parceiras iguais numa Comunhão, é? Entendi. Eu sei um pouco sobre Contratos, afinal. Então eu só tenho que te matar e refazer o Contrato com ele, certo?]

Tudo o que ela diz está fundamentalmente errado, sem mencionar que ela está colocando a carroça na frente dos bois.

| Shen | [Não, espera. Em que mundo eu chamaria um parceiro de Comunhão de Mestre?]

Que criatura idiota... o cérebro dela deve ser miseravelmente pequeno, como convém a um verme comum. Ela não precisa de inteligência para caçar, afinal.

Ela recua um pouco, confusa. [Então o quê, é Patronagem? Não me diga que você é a parte menor?]

A surpresa dela é compreensível. Hyumans normais não conseguiriam fazer Contrato com um Grande Dragão em primeiro lugar.

Eu balanço a cabeça. [Não, uma Dominação. Uma Dominação 80-20. Eu sou, em essência, a serva dele — daí desta forma]

Eu giro apenas uma vez para mostrar a ela meu novo disfarce hyuman. Ela está com ciúme, sem dúvida — eu posso usar quimonos e uma katana, afinal, e sou mais forte do que jamais fui em forma de dragão. Eu não tenho arrependimento nenhum quanto à minha transformação.

| Aranha | [Uma Dominação?! Mas você não é um Grande Dragão?]
| Shen | [Nem diga isso — meu orgulho ainda dói. Mais importante, você precisa entender o que isso significa]
| Aranha | [Você está em forma hyuman agora, então... Sério?!]

Aparentemente, ela é mais esperta do que eu dei crédito.

| Shen | [Exatamente. Tente ficar por perto do Mestre, e o estresse certamente vai quebrá-lo. Se você deseja acompanhá-lo, prostituta inútil que é, é melhor que pareça mais hyuman]
| Aranha | [Mas ele não precisa concordar com isso?]
| Shen | [Muitas vezes é melhor pedir perdão do que permissão... embora eu, de fato, tenha recebido consentimento para meu Contrato]
| Aranha | [... E você tem certeza de que é a serva dele?]
| Shen | [Naturalmente. Você prefere uma prova do nosso vínculo físico também?]
| Aranha | [Uh, não, eu vou fazer isso antes de você]
| Shen | [Muito bem. Eu, porém, vou receber meu nome primeiro]

Eu me recuso a ceder apenas nesse ponto. Eu tenho meu orgulho, afinal — sem mencionar a senioridade sobre ela.

| Aranha | [Então eu posso fazer, né? Eu só tenho que fazer um Contrato com ele assim?]
| Shen | [Sim, sim. Ande logo]
| Aranha | [Hehe! Valeu, senpai~!]

A aranha deve ter deduzido que meu Contrato com o Mestre beneficia ele mais do que a mim. Em outras palavras, ele provavelmente aceitaria uma oferta similar da parte dela.
Com isso, começamos o ritual do Contrato, comigo como representante do Mestre. Eu coloco a aranha e o Mestre de frente um para o outro... mais ou menos. Ele ainda está desmaiado. Então, uma luz branca fina conecta os dois, que floresce em um pilar entre eles.
A luz muda rapidamente para carmesim — a cor de uma Dominação. Em outras palavras, ela será minha igual sob ele. Isso não me agrada, embora eu note um leve crescimento do lado do mana do Mestre. Já que é virtualmente impossível que o mana dele tenha aumentado desde o nosso Contrato, a aranha tem que ser inferior a mim em força — ainda que só um pouco. Essa é a única conclusão natural.
Eventualmente, apenas as silhuetas do Mestre e da aranha ficam visíveis dentro da luz, sinalizando que a transformação está prestes a começar. A besta — uma devoradora sem mente desde tempos imemoriais — começa a encolher em si mesma e se tornar rapidamente mais humanoide.

| Aranha | [Eu vou servi-lo até o dia em que eu morrer, Mestre]
| Shen | [Mas o que...?!]

A primeira coisa que eu vejo sair da luz são os fios de cabelo preto e sedoso dela — exatamente o tipo que eu desejo ter, a ponto de doer. Ela tem membros esguios e sensuais, e está vestida com um quimono de seda elegante. O Contrato foi firmado, e ela parece tão hyuman quanto eu.



O Mestre terá uma vida bem agitada, se nada mais... Ah, se ao menos eu tivesse cabelo preto...


※※※


O Subespaço está claramente crescendo, e eu fico cada vez mais confuso.
No horizonte, o que deveria ser uma planície aberta agora é uma floresta profunda e escura. Ela apareceu no meio dos caniços, como se sempre tivesse estado ali, atravessando bem o centro do assentamento orc. Provavelmente há um lago ou até um oceano rio abaixo. Não é ilusão nem nada do tipo — o chão está literalmente se expandindo e tomando forma sob meus pés. A parede de neblina que marcava a borda do mundo parece estar recuando lentamente também e, embora a água atualmente esteja sumindo na névoa, isso provavelmente vai mudar em breve. Há mais plantas e mais fontes de água no geral, e algo na paisagem parece estranhamente semelhante a minha casa. Não há arrozais nem casas no estilo japonês, mas existe aquela sensação no ar.

Cara, este lugar é instável... a gente realmente quer pessoas morando aqui?

Eu levo uma mão à testa e suspiro — não pelo estado do Subespaço, mas por algo importante que eu, felizmente, tinha esquecido.
Depois da minha partida mortal com a aranha assassina, meu corpo inconsciente foi carregado para uma tenda que os orcs preparam para mim. A primeira coisa que vi quando acordei foi uma linda mulher de cabelos escuros ao lado da minha cama, a cabeça apoiada na mão enquanto descansa.
Um minuto longo e constrangedor se passou antes que a estranha percebesse que eu estava acordado e levantasse o olhar.

| Aranha | [Obrigada pela refeição, Mestre. Pela primeira vez na minha vida, eu me sinto genuinamente cheia]

Lágrimas literais estão se acumulando nos olhos dela. Nada disso faz sentido.

| Makoto | [Uh... espera aqui]

Eu a ignoro enquanto ela tenta falar comigo e saio da tenda. Eu espero que o ar fresco me ajude a clarear um pouco a cabeça, mas só piorou as coisas.

Subespaço idiota... me atormentar é mesmo tão divertido assim? Podia ter pelo menos mandado um memorando ou algo assim...

Agora não há muito o que eu possa fazer a respeito, então, depois de confirmar que não há ninguém à vista, eu decido voltar para dentro.

| Aranha | [Bem-vindo de volta]

A tenda está vazia, exceto pela mulher misteriosa. Sem outras opções ao meu alcance, eu decido perguntar a ela o que aconteceu enquanto eu estava inconsciente.
Ao que parece, a mulher é a aranha — o mesmo inseto pervertido contra o qual eu lutei até o momento em que desmaiei. Ela comeu meu mana para se regenerar e, quanto mais eu a machucava, mais excitada ela ficava. Uma verdadeira masoquista. Assim que estabelecemos isso, porém, ela se curvou e tentou me dizer que fez um Contrato comigo enquanto eu dormia.
Eu assumi que Contratos precisassem ser consensuais, mas pelo visto isso não importa. No geral, é um grande mistério para mim, honestamente. Não parece justo que outras pessoas possam assinar meu nome em algo tão grande, e eu começo a duvidar da sanidade das regras deste mundo... mas, por outro lado, com aquela Deusa no comando, eu já sei que este lugar é uma merda.
Eu inspiro fundo. Antes era impossível acreditar, mas agora que tenho um minuto para respirar, eu sinto que de alguma forma estou conectado a ela... infelizmente. Também não tem volta, nem período de processamento do qual eu possa me aproveitar. Francamente, parece injusto. O processo inteiro de Contrato precisa de melhorias.

| Aranha | [Eu só consigo falar com você com tanta fluência e ficar ao seu lado por virtude do nosso Contrato e, com isso, minha forma humanoide. Eu vou servi-lo de corpo e alma]

Eu não duvido que isso seja verdade. Ela era impulsiva e caótica na fase aranha, u tenho que admitir, mas parece genuína agora. Pior, se eu a rejeitar agora, existe uma grande chance de eu encontrá-la de novo no futuro na próxima vez que ela ficar com fome. Só de pensar nisso, eu estremeço outra vez. Pela primeira vez, eu fiquei com tanto medo que talvez eu me mije. Tudo o que posso fazer, então, é assentir e concordar.

Este mundo tem eventos obrigatórios demais, e por que eu já estou ganhando um novo membro de time?! Esse ritmo é uma merda!

| Makoto | [Então, onde a Shen está?]

É a minha tenda, e estamos no meio da noite, pelo meu melhor palpite — o céu do Subespaço supostamente deveria combinar com o mundo exterior, pelo menos.

| Aranha | [Shen está em prontidão lá fora], ela me informa, educadamente.

Eu estendo um Reino de detecção e encontro a Shen a uma curta distância do lado de fora da entrada. Ela deve ter passado por aqui depois que eu peguei um pouco de ar. Ela provavelmente tem coisas para resolver, mas algo na situação parece errado. Não tem como eu deixá-la esperando do lado de fora, porém, especialmente porque ela estava esperando eu acordar.

| Makoto | [Você poderia chamá-la?], peço à ex-aranha.
| Aranha | [Claro, querido]
| Makoto | [Q-Que-o-qu?!]

Querido?! O que aconteceu com 『Mestre』?! Desde quando a gente chegou nesse ponto? Não que eu goste de ser chamado de Mestre também...

As roupas dela não fazem som algum quando ela se levanta, e eu percebo que o material do quimono é fino o bastante para eu ver as curvas dela através do tecido. Não tem como eu levar nenhuma das duas para uma cidade, a não ser que eu esteja tentando chamar atenção como se tivesse uma placa de neon na testa.
Enquanto ela troca algumas palavras com a Shen, eu observo o cabelo preto sedoso dela e os olhos profundos, de obsidiana combinando. Os olhos são levemente puxados, criando um contraste interessante com a pele de porcelana e os lábios atraentes. Apesar da aparência refinada quase japonesa, ela é mais alta do que eu — mas ainda mais baixa que a Shen, é claro.

Eu sei que eu estava pensando nisso antes, mas por que eu só sou popular com garotas não humanas? Primeiro a Shen, agora... espera, eu nem sei o nome dela. Ela sequer tem um? Eu poderia chamar ela de Sem-Nome, ou Número Dois, mas isso parece meio rude para uma garota tão bonita.

Ela precisa de um nome novo. Eu nem consigo continuar chamando ela de 『a aranha』 também, já que existe a chance dos orcs descobrirem que ela é quem atacou o Subespaço e isso poderia colocar a posição dela aqui em risco. Mais importante ainda, eu preciso saber se a Shen arrastou ela para o Subespaço de propósito para lutar, já que ela tentou algo parecido na luta contra mim. Com as mudanças recentes, este mundo seria um campo de batalha horrível, especialmente considerando o risco para os orcs.
Eu preciso saber quais são os planos dela para o Subespaço. Se ela realmente pretende construir uma cidade, tem um monte de trabalho de base que precisa ser feito — incluindo definir instalações essenciais e mapear a terra onde ela será construída. Eu até ajudaria, se ela quisesse. A vila orc, sem mencionar quaisquer futuros assentamentos que a gente decida acolher, poderia permanecer intacta na periferia... embora, de novo, não adiante pensar nisso até que um local seja escolhido para a cidade.

Se a gente vai construir uma cidade, eu queria ver como são outras cidades por aqui como referência.

Os orcs mal conseguiam sobreviver e não tinham recursos para trabalhar em infraestrutura. Isso vai mudar agora. Dito isso, eu tenho certeza absoluta de que deixar a Shen fazer tudo sozinha vai levar ela a replicar o antigo Edo ou Kyoto, e isso parece simplesmente errado. Eu consigo imaginar os residentes do Subespaço virando escravos, como acontecia nos velhos tempos na Terra, e eu estremeço só de pensar numa revolta camponesa aqui.

| Shen | [Oh? Mestre, você acordou!], Shen chama da entrada.
Eu aceno. [Sim. Então, como foi que você conseguiu me fazer formar um Contrato com alguém enquanto eu estava literalmente inconsciente e indefeso?]
| Shen | [Eu ajudei você, naturalmente. Eu imaginei que você preferiria isso a ser devorado vivo. Além disso, se a gente deixasse essa coisa entregue aos próprios impulsos—], ela enfia o polegar com grosseria na direção da mulher-aranha. [—não tem como saber quando ela decidiria nos incomodar]

Sim... isso realmente seria uma merda... Esse foi o principal motivo de eu acabar concordando com a decisão dela.

Eu solto um suspiro. Eu darei um jeito, de algum modo.

| Makoto | [Eu fico feliz por ter servas tão boas, pelo menos...]

Shen sorri para mim, orgulhosa, como se concordasse plenamente com a avaliação, e a mulher-aranha cora, feliz.

Então sarcasmo passa direto por cima da cabeça delas... anotado.

Eu balancei um pouco a cabeça. [Então, Shen? Se você estava acordada me esperando a essa hora, tem que ter algum motivo, né?]
| Shen | [Ah, sim!], ela se vira para a entrada da tenda. [Entre!]

Um instante depois, o sujeito peludo de antes entrou. Eu lembro vagamente da Shen carregando ele quando a mulher-aranha entrou no Subespaço pela primeira vez.

Espera... ele é mais baixo do que eu?! Essa é a primeira vez neste mundo!

| Makoto | [Então, você é um anão ou coisa assim?]

Os três se sobressaltam de surpresa.

| Shen | [Exatamente], Shen confirma. [Que perspicaz, Mestre]

O anão pareceu o mais surpreso de todos, e a aranha apenas assente, pensativa.

Anões são raros neste mundo ou algo assim?

| Shen | [Mas este não é um anão comum!], Shen continua, dramática. [Não, este é um mestre de sua arte, de uma linhagem de ferreiros creditada com inúmeras relíquias divinas! Este é um anão ancião!]

Então ancião aqui significa poderoso, não velho... vou tentar lembrar.

O anão deu um passo à frente e se curvou, educado. [É um prazer conhecê-lo, senhor. Como o senhor deduziu, eu sou um anão. Muito obrigado por salvar minha vida]
| Makoto | [Uh... não foi nada? Eu sou Makoto Misumi, mas pode me chamar de Makoto. E você é?]
| Beren | [M-Minhas desculpas! Meu povo me chama de Beren]
| Makoto | [Wow, você é educado... Então, Beren-san, você disse que eu salvei você? Eu tenho quase certeza de que foi a Shen, não eu...]
Shen balança a cabeça em negação, franzindo a testa. [O quê? Claro que não. Eu apenas peguei ele quando ele estava prestes a ser devorado e trouxe para o Subespaço]

Eu tenho quase certeza de que isso conta como salvar.

Beren assente. [Minha casa foi atacada por uma aranha horrível, entende. Se a Shen-sama não tivesse afastado a criatura imunda, a vila inteira poderia ter sido perdida. Além disso, ela me abrigou quando eu estava ferido demais para me mover. Eu...]

Ele pausa por um momento para olhar para a tal ex-aranha com um franzir preocupado. Nada surpreendente, já que ela literalmente quase comeu ele. A 『criatura imunda』 parece um pouco culpada — mas só um pouco. Eu não sei se fico impressionado ou irritado com isso.

| Beren | [... Eu devo agradecer por você tê-la contido], ele finalmente continua. [Felizmente, a maldição dela foi quebrada, e ela parece ser uma jovem agradável mais uma vez]

Espera, o quê? Ela era só uma aranha que virou quase humana depois de formar um contrato comigo, certo? Isso não é um conto de fadas.

Eu lanço um olhar questionador para a Shen, e ela assente levemente.

Pense assim, Mestre, ela parece estar dizendo. Não há necessidade de explicar mais agora e, nesse ritmo, a gente pode muito bem recrutar ele para a nossa causa.
Eu bufei. 『Causa?』 Você só quer que ele faça uma katana.
Ela revira os olhos. Salvo da morte certa ou não, a verdade só confundiria ele. Assim é melhor.

A gente quebra o contato visual.

Droga, ela é cruel... eu quase sinto pena do nosso novo amigo peludo.

Eu me viro para encará-lo e percebo que ele está esperando pacientemente. Evidentemente, ele notou que a Shen e eu estávamos no meio de alguma coisa.

| Beren | [A Aranha Negra da Calamidade aterroriza o mundo desde tempos imemoriais], Beren começa. [Ela se sacia e vai embora tão rápido quanto vem. Em todas as medidas, era mais um desastre natural do que um ser vivo, e ela devorou incontáveis artefatos direto dos nossos depósitos]

Merda, ela come metal?! Quão forte é o estômago dela?!

Eu olho para ela e vejo que ela está corando um pouco. Então ela fez isso mesmo.

Talvez seja melhor seguir pela rota do conto de fadas, então... Se a gente quer fazer ele ficar com a gente, é melhor garantir que ele não fique com rancor de ninguém primeiro.

A cabeça do anão baixou um pouco enquanto ele continuava. [Agora, como mestre desta terra tão verdejante, eu tenho um pedido importante a lhe fazer]

Uh oh. Hora de mais uma missão secundária... eu só quero chegar na cidade a essa altura.

| Makoto | [O que é?], pergunto. Ouvir não custa nada.
| Beren | [Meu povo vive nesta terra e exerce nosso ofício há muitos anos. Nós escolhemos este lugar, apesar do perigo e do incômodo, para proteger nossas mercadorias de salteadores. No entanto, a terra é dura e estéril]

A maioria dos monstros não sai para o Fim do Mundo, então provavelmente seria bem seguro desse lado. Eles poderiam permanecer escondidos aqui também — nem mesmo a Shen sabia onde eles viviam, e ela é literalmente vizinha deles. Isso com certeza reduz o número de ladrões com quem eles precisam lidar.

Eu aceno, compreendendo. [Então seus tesouros ficam seguros, mas vocês vivem passando fome]
| Beren | [Exatamente. E isso me leva ao meu pedido...], ele pausa por um instante, tentando encontrar as palavras, mas eu já sei para onde isso vai. [Você talvez poderia nos permitir viver aqui, nesta terra?]

Sim, eu sabia.

Há tudo o que uma vila precisa aqui, e a gente só vai ficar melhor quanto mais pessoas acolhermos. Também é bem defendido — entre a Shen, a aranha e, eu acho, eu mesmo. É exatamente o que eles procuram. Shen já parece eufórica com a possibilidade. A aranha tenta se manter composta, mas eu pego ela lambendo os lábios, faminta. Isso me deixa um pouco preocupado, pra falar a verdade, então eu vou ter que lembrar ela para não comer os novos residentes...

| Makoto | [Claro], eu respondo prontamente.
O maxilar do Beren cai. [V-Você permitiria tão facilmente?!]
| Makoto | [A gente tem espaço, afinal. Só prometa que vai se dar bem com os orcs]
| Beren | [C-Claro!]

Eu sinto que ele está um pouco confuso, mas, sinceramente, eu não me importo. Eles não devem causar problema nenhum para a gente, e a Shen já estava planejando convidar ele.

Shen começa a listar condições, animada. [Você deve nos ajudar a criar nossa cidade e forjar armas e armaduras para nós quando necessário. Ah, e eu pretendo cobrar impostos no futuro também. Por fim, você deve aceitar o Mestre como o único senhor desta terra]

Ela já tinha pensado nisso, né?

| Beren | [Uma cidade?!], os olhos do Beren se arregalam, mas ele assente prontamente. [Nós aceitaremos esses termos com prazer]

Viver no Subespaço deve significar muito para ele, então. Eu sempre imaginei anões como teimosos e grosseiros, mas o Beren é amigável e compreensivo.

A dragão assente. [Eu construirei uma cidade aqui no devido tempo. Você é livre, claro, para permanecer como uma vila independente, se assim desejar]
| Beren | [Interessante], ele pondera, alisando a barba. [Uma terra exuberante por trás de uma cortina de neblina, abrigando uma metrópole escondida... eu gosto disso!]

Ele está quase tão animado quanto ela... Shen realmente deu sorte com ele.

| Beren | [Eu tenho toda a intenção de lhes fornecer nossas mercadorias], ele acrescenta.
| Shen | [Muito bem! Você pode trazer seus companheiros para cá. Eu abrirei o caminho para eles]
| Beren | [Maravilha. Nesse caso, eu partirei agora mesmo. Você aceitaria esperar dois dias, até eu chegar lá?]
| Shen | [Suponho que sim. Diga ao seu povo para juntar tudo de que precisarem e, quando você mandar a palavra, eu transferirei a vila inteira para dentro do Subespaço. Você vai trilhar o caminho que eu abri!]

Esse truque de novo? É útil, admito... Eles nem precisam empacotar muita coisa, e podem até levar os móveis que quiserem.

O processo de transferência me lembra teletransporte. Nas circunstâncias certas, ela poderia mover alguém para dentro do Subespaço e depois cuspir essa pessoa em algum outro lugar.

Talvez eu peça para ela fazer um ou dois portais permanentes para lugares que a gente vai precisar visitar com frequência.

| Beren | [Adeus, então!]

Com esse último grito, Beren-san sai como uma bala. Meus pensamentos, porém, já estão em outro lugar.

| Makoto | [Então eu consegui falar com ele de boa, huh...]

Ao contrário das minhas primeiras conversas com a Ema quando a gente se conheceu, eu não tive dificuldade nenhuma para entender o Beren. Talvez eu só precisei ajustar da primeira vez.

Ou espera, anões são humanoides também... então eles falam hyuman?

Shen assente, aprovando. [Excelente trabalho, Mestre]
| Aranha | [Muito impressionante], a aranha concorda.

Não, não pode ser só isso. Eu falei com a aranha antes mesmo da transformação... supondo que aquilo pudesse ser chamado de conversa.

| Shen | [Você é bem impressionante mesmo por conseguir ter uma conversa decente com aquela aranha], diz Shen.
| Aranha | [Seu mana é bem delicioso], acrescenta a aranha. [O marido ideal, de fato]

Francamente, eu não me sinto nem um pouco lisonjeado!

Eu não consigo imaginar namorados comestíveis virando moda, e eu realmente não quero ser presa para aquela predadora.

Shen se vira para mim, séria. [Agora, Mestre, há apenas mais uma questão em que eu preciso da sua ajuda]
| Makoto | [Você quer um nome, né?], eu pergunto.
| Shen | [Exatamente. Eu não vou mais tolerar ser chamada apenas de Shen. Você deve me dar um nome apropriado, como é seu dever como meu Mestre]
A aranha assente em concordância. [Eu também gostaria de um nome apropriado em breve, se não se importar]

Eu imaginei.

Eu não quero continuar chamando elas pelos antigos 『nomes』 também, e estou ansioso para achar outra forma de me referir a elas. Provavelmente é como ser chamado de 『Hyuman』 o tempo todo, e isso seria um saco absurdo. Para ser sincero, eu fico um pouco surpreso que as duas sintam o mesmo — se for para alguém querer um nome, eu imaginaria que só a aranha teria esse desejo, já que ela é, disparada, a pior das duas.

| Makoto | [Você não quer um agora?], pergunto à aranha.
Ela sorri. [Eu prefiro muito mais esperar até que a Shen-san tenha a vez dela. Ela estava aqui primeiro, afinal]

A aranha é incrivelmente elegante em cada movimento. Se a Shen é uma guerreira, então ela é como uma princesa.

| Makoto | [Certo... então eu posso te chamar de Sem-Nome ou Aranha-san ou Número Dois ou algo assim. Eu vou lembrar qu—]

Eu praticamente ouvi algo estalando quando a expressão da aranha azedou.

| Aranha | [Absolutamente não!]
Eu pisco. [Huh?]
| Aranha | [Isso não é um nome apropriado para uma dama, querido! Como você se atreve?!]
| Makoto | [Você pode parar com esses apelidos?! Além disso, eu não sei como te chamar. O que você é, afinal? A sua espécie, eu digo]
Ela pisca. [Minha espécie?]
| Makoto | [Sim. Posso perguntar?]
| Aranha | [Hm... o que eu sou, eu me pergunto? Eu não consigo lembrar de um tempo antes de ser controlada pelo meu apetite, então eu temo não saber muito sobre mim mesma]

Então ela tem amnésia? Ou espera, isso implicaria que ela tinha memórias anteriores, e a gente não viu nenhum sinal claro disso ainda.

Eu aceno para ela. [Okay, então. Acho que vou te chamar de Kuro-chan por enquanto]
| Aranha | [Eu sou um bichinho de estimação pra você?!], ela dispara. [Esqueça o que eu disse, eu quero um nome apropriado agora!]
Shen mostra as presas. [Ei! Você não disse que eu seria nomeada primeiro?!]

Evidentemente, as duas fizeram algum tipo de acordo sobre isso, embora eu não faça ideia de por que é tão importante.

A aranha empina o nariz. [Oh, mas Shen-san, você não pode estar sugerindo que eu aceite qualquer uma dessas desculpas miseráveis de nomes que ele sugeriu até agora. Você não consegue se virar com esse nome neutro seu por enquanto?]
Shen sorri de lado. [Então você jogaria fora a sua chance de ser íntima com ele primeiro?]
| Aranha | [Gh... suponho que, se eu tiver que...]

Espera, o que elas decidiram?! Eu não vou transar com nenhuma delas! Provavelmente. Quero dizer, uma aranha e uma dragão? Um pouco demais pra mim.

| Makoto | [Eu já tentei te dar um nome], eu cortei, franzindo a testa para a Shen. [Você rejeitou cada ideia que eu tive. Eu te dei uma lista inteira de opções lá atrás, quando você me disse pela primeira vez que queria um nome novo]
Ela resmunga, indignada. [Eu prefiro cair sobre minha lâmina a aceitar tamanha frivolidade!]
| Makoto | [Além disso, Shen nem é um nome ruim comparado a Sem-Nome ou algo assim... Espera, aranha, acho que eu tenho o perfeito para você]
| Aranha | [Oh, é mesmo?!]
| Shen | [O QUÊ?!], Shen se ofende.
Eu solto um suspiro pesado. [O que foi agora?!]
| Shen | [Não, não! Eu não vou tolerar isso! Cortesia exige que você me nomeie primeiro!]

O que ela é, uma criança de quatro anos?

Eu me viro de volta para a aranha e vejo ela rindo sozinha, sonhadora, embriagada só com o mínimo de favoritismo que eu demonstrei para ela.

Aff... de todas as pessoas que podiam ser minhas companheiras...

Eu balancei a cabeça, irritado. [Tá bom! Eu vou nomear as duas, aqui e agora, começando pela Shen!]

Eu lanço um olhar desafiador para as duas e recebo, em troca, uma leve decepção e uma satisfação esmagadora. Imagino que esse seja o mais perto que a gente chegará de concordar um com o outro.

Eu me viro para a dragonesa. [Certo, Shen...]
| Shen | [Faça um nome forte e poderoso, Mestre!]
| Makoto | [Uhhh...]

Ela me encara com uma mistura de empolgação pura e esperança.

Merda, e agora? Eu tenho um nome decente para a aranha, mas eu estou com um branco total com ela...

| Makoto | [Uh... Hum...]
Ela fica tensa, antecipando. [Sim?]
| Makoto | [Eu... Hm...]
| Shen | [... Você ainda não pensou num nome para mim?]
| Makoto | [Claro que eu pensei! Eu só, uh...]
Os ombros dela caem e lágrimas se acumulam nos olhos. [Por que você concebeu um nome para o inseto — dentre todas as coisas — antes de mim...?]

Isso é tão importante assim? Talvez essa parte de nomear do Contrato seja mais importante do que eu pensei.

Eu limpei a garganta. [Tá, Shen, eu sei como te chamar. De agora em diante, você vai ser conhecida como Tomoe]
| Shen | [Tomoe?]
| Makoto | [Isso. É o nome da mulher guerreira mais forte e mais corajosa que eu conheço]
Os olhos dela se arregalam. [Vocês têm samurais mulheres no seu mundo?!]
| Makoto | [Temos. Ela é famosa por seguir o marido até o campo de batalha]

Se eu me lembro direito, Tomoe Gozen era a irmã adotiva do marido e parceira dele nas batalhas. Ele era um cara de sorte, e os dois claramente confiavam um no outro — a ponto de, literalmente, matarem um pelo outro, se fosse preciso. Claro, tudo o que eu sei dela vem de jogos, então não tenho certeza do quão historicamente preciso isso é.

Shen — não, Tomoe — assente, orgulhosa. [Oh! Nesse caso, eu aceito com prazer o nome Tomoe!]

Eu sinto que ela está exagerando um pouco, mas, como foi literalmente o único nome de guerreira que me veio à mente, eu só fiquei aliviado por ter funcionado. Eu não quero quebrar a cabeça para achar outra opção. O nome Yodo também me veio à mente, significando água estagnada, mas para mim isso soa mais como nome de uma mente-mestra ardilosa.
Enquanto a Tomoe repetia o novo nome várias e várias vezes, cantarolando alegre, ela começou a brilhar bem de leve.

| Makoto | [Uh, você está emitindo luz agora?]
| Tomoe | [Hm? Ah, sim. Ao receber um nome, meu poder aumenta. Considere isso a concretização do fortalecimento do nosso vínculo]

Caramba, então é um grande negócio... eu me sinto um pouco culpado por ter inventado isso no calor do momento.

| Tomoe | [Mesmo assim], ela continua, [o nome é bem agradável ao ouvido... Sim, um nome excelente! A partir desta hora, neste dia, eu serei conhecida como Tomoe! Entenderam?]

Ela olha orgulhosa para mim e para a aranha, mas por algum motivo as bochechas dela logo ficam coradas. A maioria dos adultos acharia esse tipo de alegria infantil constrangedora, principalmente considerando a idade dela.

| Makoto | [Se o nome te deixou mais forte, então isso quer dizer que existe um nome por aí que te daria o maior bônus possível?], eu penso em voz alta.
| Tomoe | [Claro]
| Makoto | [Aff, por que você não me disse isso antes?!]
| Tomoe | [Não se preocupe, Mestre! Eu apenas ficaria feliz por receber um nome tão atencioso vindo de você, que se dane a eficácia e a potência!]
| Makoto | [Sim, mas ainda assim...]

Isso vai influenciar nossa vida daqui para frente de um jeito ou de outro, e não parece certo eu tomar uma decisão tão importante só no vai que vai. Eu fiquei com um pouco de culpa.

| Tomoe | [À vontade!], ela insiste. [Eu não desejo um nome dado com esses critérios, de qualquer forma. Agora, se me permite, eu preciso informar as massas da minha nova identidade!]

Com isso, ela sai correndo da tenda, como uma criança ansiosa para mostrar os presentes de aniversário.

A aranha suspira. [Ah, eu estou com um pouco de inveja agora... Então, querido, eu posso pedir para você me nomear agora?]
| Makoto | [Uh, sim. Era esse o plano. Mas antes, você pode por favor parar com esses apelidos melosos?]
| Aranha | [Oh, meu bem, eu não fazia ideia...! Então você prefere ser chamado de Milorde?]

Um passo pra frente, dois pra trás.

| Makoto | [Não. Só Misumi ou Makoto, por favor]
Ela sorri para mim. [Não]
| Makoto | [Por quê?!]
| Aranha | [Você é meu dono, afinal. Eu não poderia ser tão ousada com você. Até a Shen... não, a Tomoe-san te trata assim, e nós duas sabemos o quanto ela pode ser orgulhosa]

Sim, mas esse negócio de 『querido』 e 『meu bem』 me dá arrepios... Talvez eu devesse fazer ela ficar com Mestre, como a Tomoe? Não. Eu não gosto da ideia de ela, dentre todas as pessoas, me chamando assim...

| Makoto | [Que tal Misumi-san?], eu sugiro.
| Aranha | [Impossível]
| Makoto | [Então invente outra coisa igual a Tomoe! Eu estou oficialmente proibindo Milorde e qualquer apelido meloso, e isso é uma ordem!]
Ela treme, o rosto ficando vermelho-vivo. [U-Uma ordem?! S-Se você está me obrigando, então eu suponho que eu não tenho escolha... Eu vou consultar a Tomoe depois]
| Makoto | [Agora], eu continuo, [sobre o seu nome...]
| Aranha | [Sim?]
| Makoto | [Que tal você me dizer qual nome puxa todo o seu poder, ou algo assim?]
Ela sorri, feliz. [Absolutamente não]

Por quê?! Eu não entendo elas de jeito nenhum!

| Makoto | [Okay, mas se isso afetar sua força, isso literalmente me afetará também...]
Ela pragueja baixinho. [Maldita Shen... ela não podia ter ficado calada só mais alguns minutos?]

Huh? Eu devo ter ouvido errado... Ela acabou de xingar a Tomoe?!

| Makoto | [E-E se eu quiser pensar nisso um pouco mais?]
| Aranha | [Você acabou de me dizer que já tinha um nome]
| Makoto | [Eu tinha, mas essa informação nova mudou—]
| Aranha | [Não mudou nada! Me diga o nome que você pensou, agora!]

Caramba, ela está mandona... Do jeito que ela se inclinou tão intensamente, eu fiquei até surpreso por ela não corar e recuar.

| Aranha | [Além disso], ela continua, bufando, [como eu poderia ficar feliz com um nome nascido de regras tão banais? Eu prefiro muito mais um nome que você pensou que combina comigo do fundo do seu coração do que um que seja só por pura força]
| Makoto | [Mesmo que isso te deixe mais fraca?]
| Aranha | [Você assumiu que seu nome me deixaria de alguma forma mais fraca. Além disso, eu nunca liguei muito para força. Por favor, me diga o nome que você pensou]

A essa altura, fica claro que ela não vai aceitar um não como resposta.

| Makoto | [Okay...], eu engulo em seco. [Então aqui está o seu nome novo. De agora em diante, você vai ser Mio]
| Aranha | [Mio...]
| Makoto | [Na escrita da minha terra natal, isso combina o caractere de zero com o de água, que representa minha principal proficiência mágica]

Ela começou só com a fome, então, num certo sentido, ela não tinha nada — zero. E como o meu mana é o que encheu o estômago dela e deu a ela um começo no nosso Contrato, parece um nome bom e com significado, mesmo que seja um pouco forçado.

| Mio | [Eu aceito com prazer], ela responde com uma reverência. [Eu sou Mio a partir de hoje. Obrigada por sua generosidade, meu bem]
| Makoto | [O que eu disse sobre me chamar assim?!]
| Mio | [Oh. Eu vou tentar parar com isso. Mio... Hehe, um nome com o seu elemento... Hehehe...]
| Makoto | [Uh, Mio? Alô, Mio?]
| Mio | [Espera... zero e água, seu elemento? Isso quer dizer que você deseja inundar os meus espaços vazios com a sua própria essência?! Oh, eu mal posso esperar!]

Pronto, ela não tem salvação. Ela nem me ouve mais. Por que todo mundo que eu conheço é tão esquisito?

Eu empurro ela para fora da tenda enquanto ela continua tendo alucinações. Eu estou exausto, apesar de ter acabado de acordar depois de sabe-se lá quanto tempo, e tudo o que eu mais quero é dormir.

Que droga... a gente está finalmente tão perto da cidade hyuman também...



Na manhã seguinte ao dia em que eu nomeei minhas companheiras, eu saio da minha tenda e me deparo com uma visão surpreendente. Os orcs estão reunidos em peso, com a Mio e a Tomoe paradas como se fossem discursar para eles. Seja o que for que elas estejam fazendo, é cedo demais.

| Tomoe | [Ouçam bem!], Tomoe late. [Ontem à noite, o Mestre me concedeu um nome. De agora em diante, eu devo ser chamada de Tomoe!]
| Mio | [Da mesma forma, eu também tenho um nome novo. Por favor, me chamem de Mio]
| Todos | [[[[YEEEEEEEEEAH!!!]]]]

Eu não esperava uma reação tão intensa da multidão. Evidentemente, isso significa mais do que eu imaginei.

| Tomoe | [Agora, como vocês sabem, o Mestre é o senhor e soberano desta terra], Tomoe continua. [Porém, vocês não podem simplesmente me imitar e chamá-lo assim!]
Mio assente. [Por favor, notem que ele já vetou meu bem e querido, e chamá-lo pelo nome não é nada menos do que um insulto]

Não é, não. Eu preferia isso! Dá pra todo mundo só me tratar normal?!

Os orcs, porém, assentem em concordância.

| Tomoe || Mio | [[Portanto!]], as duas gritam em uníssono. É um jeito eficaz de puxar a atenção da multidão de volta para elas. [[Povo do Subespaço!]]

Sim, sim, ande logo.

| Tomoe | [Vossa Senhoria, Milorde, Chefia — três opções restam! Nós decidiremos por voto a forma apropriada de se dirigir a ele!]

Okay, então... O QUÊ?! Que porra é essa?! Por quê?!

| Makoto | [E- Eu... Uh... Huh...?]

Droga, eu nem consigo falar direito! Esses três títulos soam como merda!

| Tomoe | [Primeiro, todos por Vossa Senhoria!]
| Todos | [[[[Yeaaahh!]]]]

Uh-oh. Esse teve bastante.

| Tomoe | [Agora por Milorde!]
| Todos | [[[[[YYYYYYYYYEEEEEEEEEAAAH!]]]]]

Merda, esse é popular!

| Tomoe | [Agora por Chefia!]
| Todos | [[[Yeah!]]]

Graças a Deus! Eu sou jovem demais pra ser Chefia!

Com isso, Tomoe e Mio se viram para me encarar.

| Tomoe | [E assim...]
| Mio | [E então...]

Meu Deus, não digam!

| Tomoe || Mio | [Permita-nos chamá-lo de Milorde!], elas imploram em uníssono.
| Makoto | [Vocês são todos doidos!], eu grito. [Não, doidos não... Vocês são todos uns idiotas do caralho!]
Tomoe balança a cabeça, desaprovando. [Nós decidimos democraticamente, não foi? Eu achei que você gostasse de democracia]
| Mio | [Eu também estava votando em Milorde], Mio completa. [Eu teria garantido que eu te chamasse assim de qualquer jeito!]

Eu não concordei com nada disso! E a Mio está falando como se ela tivesse arquitetado isso tudo!

Eu massageio as têmporas, irritado. [Olha, eu mando aqui ou não mando? Por que vocês estão fazendo isso?]
Mio sorri. [Você não me disse ontem à noite para conversar e resolver isso com a Tomoe? Eu estou fazendo exatamente isso, não estou?]
| Makoto | [Mas por que nenhuma das opções é normal?!]
Tomoe franze a testa, irritada. [Não normal?! Nós arrancamos do sono toda e qualquer pessoa com poder ontem à noite e colocamos para trabalhar criando os melhores títulos para você! Eles se mataram a noite inteira! Eles são normais além de qualquer comparação!]

Espera, a noite inteira?! Então alguns dos pobres orcs aqui foram forçados a participar dessa palhaçada enquanto eu dormia? Cara... eu me sinto muito mal por eles...

Todos os olhos estão em mim, esperando minha resposta ao voto. Eles parecem tão esperançosos, mesmo eu não querendo nada disso para começo de conversa. Só que eu não consigo dizer isso agora — não com essa pressão toda.

Ter que lidar com isso logo cedo devia contar como assédio...

| Makoto | [V-Vocês... uh... podem me chamar de Milorde], eu murmuro.

Um rugido ensurdecedor de aprovação sobe da multidão. Eu não tenho dúvida nenhuma de que, de agora em diante, todo mundo vai me chamar assim.

Por que parece que eu perdi...?



Várias horas se passaram desde a votação torturante da manhã, e nós começamos a atravessar as terras áridas mais uma vez. Meu ânimo começou lá embaixo, mas foi subindo aos poucos conforme a gente se aproximava da cidade. Então, bem quando o contorno do assentamento começou a ficar distinto no horizonte, nós tivemos que parar.

E bem quando estava ficando bom também!

Acontece que era para a gente esperar o resto dos anões chegarem antes de entrar na cidade. Isso faz sentido o bastante, e adiar a visita por um dia não vai nos machucar. Nós desistimos de viajar pelo resto do dia e voltamos para o Subespaço para relaxar. Eles não vão precisar da minha ajuda para mover os novos residentes e, mesmo se precisem de ajuda para orientar os recém-chegados, um dos clones da Tomoe vai liderar melhor do que eu. Por algum motivo, porém, eles decidem esperar para me apresentar formalmente aos anões só no dia seguinte, ao meio-dia, então, sem muito mais o que fazer, eu vou dormir cedo.
É estranho, mas eu tento não pensar demais nisso.

Eu só espero que isso não leve a nada ruim...



Quando eu saio da tenda na manhã seguinte, eu não consigo acreditar no que vejo.

Merda. Eu sabia que devia ter dito alguma coisa! Minha cabeça está explodindo!

Diferente da assembleia dos orcs de ontem, a multidão desta vez está muito mais espalhada. À minha direita há um grupo de cerca de cinquenta anões, liderados pelo próprio Beren. No meio, Tomoe está à frente de um grupo de homens-lagarto de escamas azuis. Devem ser mais de cem no total. Por fim, à minha esquerda, Mio lidera quatro pessoas que têm a parte superior do corpo humano, mas são aranhas da cintura para baixo.

O que diabos? Como tem tanta gente assim?!

| Beren | [Nada mal], Beren fala para a Tomoe. [E eu que achei que você tinha dito meio-dia]
Tomoe ri. [Ah, mas se vocês dois vão competir para ver quem impressiona mais, eu seria negligente se segurasse meu próprio povo! Impressionantes, não são?]

Os aracnes trocam olhares constrangidos.

| Mio | [Oh, como vocês são quietinhos!], Mio os repreende. [Vocês podem fazer o que quiserem, mas lembrem-se — se sequer olharem torto para o Milorde, eu vou comer vocês]

Seus seguidores assentem apressados.

É... isso aqui virou um caos completo. Eu não faço a menor ideia do que está acontecendo.

Os anões são o único grupo que eu esperava, mas, com apenas cinquenta pessoas, a vila deles é muito menor do que eu imaginei no começo. Supondo que cada família seja um casal com talvez três crianças, isso dá só umas dezesseis casas. Eu fiquei surpreso que isso sequer conte como uma vila — mas, por outro lado, eu não sei nada sobre a demografia deste mundo, então não posso afirmar nada com certeza.
O povo da Tomoe, os homens-lagarto, estão todos em posição de sentido, com espadas e lanças tocando respeitosamente o chão, cabeças baixas enquanto se ajoelham sobre um joelho. Eles quase parecem cavaleiros. Eu noto que nenhuma das armas deles tem bainha, apesar de como isso seria útil numa cidade. Vindo de um lugar onde katanas são a espada mais comum, andar por aí sem bainha parece pedir por problema.

Tomoe realmente tem seguidores educados... Ela é sortuda por tê-los.

Por último, as quatro criaturas meio humanas, meio aranha atrás da Mio. Pelo número reduzido, não parece que eles tenham uma vila de verdade ou algo assim. Eu fiquei um pouco surpreso que eles não tenham aparecido para ajudar a Mio na nossa luta, se são seguidores dela — mas, por outro lado, eu duvido que ela seja exatamente sociável. Ela tem uma presença de chefe que torna difícil imaginar isso. Os subordinados dela, porém, são educados o bastante, inclinando a cabeça com a mão no peito. Eu duvido que consigam falar direito, de tanto que assentem e de tão pouco que falam.

| Makoto | [Escutem bem, meus filhos], Mio diz em tom suave. [O Milorde nos salvou daquela fome enlouquecedora, então devemos servi-lo de corpo e alma em retribuição]

Filhos? Eles também apareceram e começaram a comer tudo o que viam pela frente? Eu não fazia ideia de que a Mio tinha mana suficiente para alimentar todos os quatro e ainda ficar consciente... N-Não, quanto menos eu pensar em dar mana para a Mio, melhor.

| Tomoe | [Hm?], Tomoe finalmente me nota e lança olhares de advertência para o Beren e a Mio. [Ei]

Eles também me perceberam, e os três endireitam a postura imediatamente.

| Makoto | [Uh... bom dia?], eu digo com cautela, de algum modo transformando uma saudação simples numa pergunta.
| Todos | [[[[[Bom dia, Milorde!]]]]], todos respondem em uníssono, se curvando respeitosamente.

Soa como se cada voz na praça estivesse se dirigindo a mim, deixando claro que meu murmúrio de algum jeito chegou e foi entendido por todos.

Isso também é foi graças ao presente da Deusa? Prático.

Beren-san, depois de buscar brevemente aprovação das minhas duas auxiliares, deu um passo à frente. A multidão de anões atrás dele se levantou e avançou em uníssono. É uma visão indescritivelmente intimidadora.

| Beren | [Por favor, perdoe-me por ser tão direto, Makoto-sama. Nós, os cinquenta anões anciãos aqui reunidos diante do senhor, teremos o prazer de residir em seu domínio a partir de agora. Mais uma vez, muito obrigado por sua generosa hospitalidade!]
| Makoto | [Uh, de nada? Eu sou Makoto. Por favor, só me chamem assim]
| Beren | [Permita-me apresentar o líder do nosso assentamento!], Beren-san anuncia em voz alta.

Ele nem respondeu ao meu pedido... Por que ele está tão tenso? Ele devia respirar fundo e relaxar um pouco.

Beren-san recua para se juntar aos seus pares, enquanto um anão mais velho, de barba enorme, surge da multidão. Ele tem uma clara aura de liderança. O ancião se curva, e eu o imito de forma desajeitada.

Então se curvar também é coisa deste mundo...

| Eld | [Eu sou o líder deste grupo de anões anciãos, Eld. Preciso agradecer por conceder abrigo ao meu povo longe do mundo exterior — e numa terra tão verdejante, ainda por cima]
| Makoto | [Uh... oi, eu sou Makoto. Se tiverem qualquer problema para se estabelecer ou alguma dúvida, é só falar comigo]
| Eld | [Muito obrigado. Você se importa se eu lhe fizer uma pergunta, então?]
| Makoto | [Claro]
| Eld | [Você aparenta ser um hyuman, mas tem uma Grande Dragão a seu serviço — a mestra das ilusões Shen-sama, nada menos. Além disso, você tem consigo a grande aranha que ameaçou devorar o mundo inúmeras vezes. Nenhuma das duas se submeteria a um hyuman]
| Makoto | [Uh... imagino que sim?]

Isso deve ser sobre meus poderes bizarros... Mas eu aparento ser hyuman? Isso dói um pouco.

| Eld | [Deixe-me ser direto. Você veio dos céus, pela graça da Deusa, para abençoar este ermo infernal?]

Há um brilho ansioso nos olhos dele, mas ele não poderia estar mais errado.

| Makoto | [Como se eu fosse fazer qualquer coisa por aquela vadia!], eu cuspo. [Eu só tive problema desde que ela me chutou para dentro desse inferno! Minha vida só desandou desde então!]
| Eld | [O-O quê...?]
| Makoto | [Isso mesmo! Ela despejou um monte de besteira sobre eu passar meus dias no meio do nada! Aquela desgraçada me abandonou!]

Só de pensar nela meu sangue ferve!

| Eld | [E-Então você não está aqui por uma missão divina?], Eld-san pergunta, nervoso.
| Makoto | [Não! Nem um pouco! Eu só sou uma vítima — embora eu admita que seja até legal poder falar com monstros e demônios e coisas do tipo...], minha voz some, constrangido.
Ele se anima um pouco. [Você foi abençoado para falar conosco, você disse?]
Eu assinto. [Ela chamou isso de Compreensão ou algo assim. Mas me insultou o tempo todo enquanto fazia isso!]

Eu honestamente queria esquecer tudo isso.

Eld-san acaricia a barba, pensativo. [Então isso faria de você alguém não afiliado a nenhum dos poderes hyuman?]
| Makoto | [Claro. E só para deixar claro, eu não sou hyuman. Eu prefiro muito mais que me chamem de humano, obrigado]
| Eld | [Humano, você diz? Não ouço esse nome há eras... Dizem que eles eram os ancestrais dos hyumans de hoje]
| Makoto | [Imagino que sim? De qualquer forma, pode me chamar assim, obrigado]
| Eld | [Entendido. Preciso confessar que fiquei aliviado em ouvir que você não é servo da Deusa. Meu povo há muito se opõe aos objetivos dela, embora não a ponto de animosidade aberta. Também não somos amigos de hyumans nem de demônios, o que nos deixa com pouquíssimos aliados]
| Makoto | [Oh, entendi... então vocês estão por conta própria]
| Eld | [Mas devo dizer que você é bastante interessante. Primeiro, esse negócio da Imobiliária Shen, depois revelar que pode falar conosco e possuir tamanho mana... Você será um homem interessante de servir]
| Makoto | [Ahaha... eu não sou grande coisa, na verdade...]
Ele ri. [Minhas desculpas por prolongar isso tanto, então. Eu lhe trarei mais tarde um símbolo da nossa aliança]

Com isso, Eld-san recua.
Tomoe estala os dedos, sorrindo alegremente como sempre.

|t [Agora é a minha vez]

Os homens-lagarto atrás dela se levantam num movimento coordenado. Eles parecem quase militares na sincronia, como soldados em posição de sentido.

| Tomoe | [Agora, meu senhor, eu lhe apresento meus servos, os Homens-Lagarto da Névoa! Eles herdaram grande mana de ar e água e são uma visão rara e poderosa. Contemplem suas gloriosas escamas azul-azuladas!]
| Makoto | [Huh. Eu nem sabia que você tinha servos]
| Tomoe | [Muitos escolheram me venerar ao longo das eras], ela declara com uma ponta de orgulho. [Especialmente quando consideramos aqueles que me veem como uma deusa. Estes, porém, ocupam um papel especial entre meus seguidores. Cada um deles tem força suficiente para abater um Dragão Menor!]
| Makoto | [Wow... mas espera, eles parecem mais acostumados a lutar em grupo. Eu nem consigo imaginar o quão fortes seriam juntos]
| Tomoe | [Excelente observação, meu senhor. Você tem um ótimo olho para subordinados. A partir de hoje, todos os oitocentos viverão aqui também. Confio que nos dará um uso inteligente]

Ela inclina a cabeça, e os homens-lagarto atrás dela se curvam profundamente.
Eu não consigo deixar de sentir que um exército desses está sendo desperdiçado com a Tomoe. Eles podem ser incrivelmente poderosos se o que ela diz for verdade, e mesmo eu não sabendo exatamente o que é um Dragão Menor, soa forte. Os seguidores dela agem e parecem mais cavaleiros de elite do que soldados comuns.
Por fim, chegou a vez da Mio falar.

| Mio | [Aqui estão meus servos, os arach], ela diz com uma reverência educada. [Eles enlouqueceram de fome, assim como eu, mas depois de receberem sua essência, se recuperaram por completo. Por isso, eu os trouxe para cá]

Arach? Não me soa familiar. Acho que o que quer que a Mio seja não tem nada a ver com a mitologia do meu mundo, afinal.

Isso não é o que mais me atinge, porém.

Minha essência...?! Eu sei que ela quer dizer meu sangue ou mana ou algo assim, mas ela falou de um jeito tão errado! Como ela sequer fez isso?

| Makoto | [Uh... como você deu a eles minha... seja lá o que for que você deu?]

Isso saiu muito mais constrangedor do que eu pretendia. Minha cabeça ainda gira enquanto tento entender o que aconteceu.

| Mio | [Ah, isso? É bem simples]

Ela chama um dos arach para mais perto. Quando ela chega ao alcance, enfia a mão direto no ombro da Mio, perto da clavícula.

| Makoto | [O quê?!], eu engasgo.

A arach se remexe de prazer. Ela parece estar gostando.

Não! Não dá! Todas as aranhas deste mundo são sadomasoquistas taradas?! É quase como ter um monte de Mios pequenas por aí... Meu Deus, minha cabeça vai explodir!

Eu noto, sobressaltado, que algum tipo de fluido escorre da ferida da Mio e é absorvido pela arach. É um pouco nauseante.

| Makoto | [E-Eu... eu entendi, tá bom? Você pode parar agora]
| Mio | [Muito bem], Mio puxa o braço do ombro, mas não sai sangue. O buraco se fecha num piscar de olhos. [Espero que tenha se saciado]

Isso ainda é trapaça... embora eu não seja a melhor pessoa para falar.

| Arach | [N-Nós... arach], diz aquela que perfurou a Mio. [Nós não... temos nomes. P-Prazer... em conhecê-lo]

As palavras saem truncadas e hesitantes, mas eles parecem gentis e diretos o suficiente. Eles provavelmente viviam sozinhos e não tinham necessidade de falar com outros, o que explica não terem nomes nem domínio verbal completo da língua. Isso, e estavam famintos tanto quanto a Mio.

Mio lança um olhar fulminante para eles. [O quê, nenhuma palavra de agradecimento sincero ao Milorde? Vocês querem que eu coma vocês? Querem?]

Caramba, Mio, você é uma mafiosa ou o quê?!

| Makoto | [Está tudo bem!], eu a tranquilizo às pressas antes de me virar para os arach. [Fiquem à vontade para levar o tempo que precisarem para se acostumar com este lugar. Tenho certeza de que é uma grande mudança para vocês]
Mio recua respeitosamente. [Meu povo e eu podemos produzir um reagente valioso a partir de nossos corpos, e também temos algum conhecimento de práticas alquímicas antigas, então espero que sejamos úteis a você. Devo agradecer mais uma vez, Milorde, por aceitar acolher meu povo]

Então os anões são ferreiros, os arach são alquimistas, e os homens-lagarto da névoa são guerreiros... Além disso, tanto os orcs das montanhas quanto os homens-lagarto devem ser bons para trabalho pesado. Temos tudo para uma cidade em nascimento... menos humanos, eu acho.

Com isso, todos foram apresentados, e agora estamos livres para visitar a vila hyuman. Em breve, meu primeiro grande objetivo neste mundo estará concluído.

Mal posso esperar para conhecer humanos!

Eu aceno e me dirijo à multidão reunida. [É um prazer conhecer todos vocês. Se tiverem mais perguntas, cada um tem seu representante. Tomoe, Mio, Eld-san, garantam que todos se estabeleçam bem. Escolham onde quiserem para morar, mas nada de brigas por terra. Agora, eu vou sair sozinho por um curto período]
As sobrancelhas da Tomoe se franziram. [Sozinho? E o perigo?]
Mio assente em concordância. [Você deve permitir que eu o acompanhe, Milorde]
| Makoto | [Não, eu ficarei bem. Vai ser mais seguro do que os ermos, pelo menos, e além disso, preciso que vocês duas fiquem aqui para garantir que todos se instalem direito. Eu só vou passar a noite na vila e voltarei amanhã. Até mais]

Com isso, eu me virei e segui para a saída. Felizmente, nem a Mio nem a Tomoe pareceram me seguir, o que significa que consegui convencê-las. Se algo der errado no Subespaço, elas com certeza vão dar conta. Eu preciso chegar à cidade o quanto antes. Já faz uma semana inteira que estou neste mundo sem encontrar outra alma humana, e minhas duas lutas até a morte não substituíram isso.

Finalmente, vou ver pessoas! Humanos de verdade, de carne e osso... mal posso esperar.

Não demora muito andando até que os prédios da cidade entrem em vista. O portão é simples, e o lugar é pequeno demais para ser uma vila — mais parece uma pequena comunidade.
Quando chego perto o bastante para distinguir os detalhes, eu encontro uma mulher cuja idade não consigo determinar direito. Tudo o que sei é que ela é linda. Ela tem cabelos loiros suaves que ondulam levemente ao vento, e a pele dela parece pérola contra a sujeira e a poeira do Fim do Mundo.

Wow... nenhuma das garotas do clube de arco e flecha da escola é metade tão bonita quanto ela, e a gente era famoso por ter as alunas mais bonitas da escola.

Ela para e me observa com desconfiança. Eu sinto meu pulso acelerar um pouco.

Isso é algum tipo de evento? É... o destino?!

Eu caminho em direção a ela, a cabeça cheia de delírios felizes, e chamo com um amistoso [Com licença!], exibindo meu melhor sorriso.

A reação dela, porém, foi um tanto decepcionante. Ela solta um grito horrível ao ver meus dentes brancos e sai correndo na direção oposta, rumo ao portão, como se a vida dependesse disso.

Wow. Então é assim que um fora definitivo se sente... Isso doeu de verdade.

Como ela correu para dentro da cidade, eu decidi segui-la. Tenho cuidado para apenas andar, caso ela ache que estou tentando persegui-la.
Finalmente, chego aos portões, e me surpreendo ao ver que uma multidão já se reuniu ali. Alguns têm orelhas élficas, outros são homens-fera peludos. Todos vestem armaduras completas, com armas em punho, e me encaram com pura hostilidade.

Estranho... eu não achei que já tivesse feito algo para irritar todo mundo.

Eles são pessoas inteligentes e racionais. Tenho certeza de que podemos resolver isso com palavras, em vez de sair quebrando cabeças como bárbaros.

| Makoto | [Olá, meu nome é Makoto Misumi. Vocês poderiam me deixar entrar?]
| Todos | [[[[[...]]]]]

Ninguém responde — na verdade, eles parecem ficar ainda mais irritados.

Eu só disse meu nome! Que diabos?!

Eles começam a cochichar entre si. Eu decido esperar um pouco para que organizem os pensamentos. Então, quando desfazem o círculo, as fileiras da frente apontam as armas para mim. Eles parecem prontos para atacar a qualquer momento.

Espera, o quê?!

Atrás deles, uma segunda fileira arma os arcos e prepara as lanças, e eu ouço murmúrios de magia atrás de alguns com cajados.

Merda! Isso é ruim!

| Makoto | [E-Ei, espera! Eu só queria—]
| Hyuman | [%(&@^(@&^!!!]

Eu congelo. Felizmente, eles não disparam.

Porra. Só pode ser brincadeira.

| Hyuman | [@)#(%*&!]

Eu tento levantar as mãos em sinal de rendição, mas aparentemente isso pareceu antagonista para eles. Uma chuva de flechas e feitiços voou na minha direção. Eu estendo um Reino defensivo ao meu redor, e todos os ataques ricocheteiam. Alguns da linha de frente avançaram com espadas e lanças, mas pararam ao perceber a barreira.
Mesmo tendo interrompido o ataque por ora, os moradores deixaram claro que lutarão até a morte se eu tentar ameaçá-los. Se eu não recuar agora, as coisas só vão escalar.
Então eu me viro e saio correndo da vila. Nem um cavalo conseguiria me alcançar na minha velocidade, e a nuvem de poeira que levanto apaga os moradores da vista num instante.

| Makoto | [Droga! Como diabos hyumanês é a única língua que eu não consigo falar?!]



Era a única língua que eu absolutamente, inegavelmente deveria saber.

O que diabos eu faço agora?!
Eu estou numa merda profunda...


Eles não conseguiam me entender. Até agora, eu simplesmente falava normalmente em japonês, e tudo — de orcs a anões, e até aranhas monstros — não era problema algum. Não faz o menor sentido que minha habilidade não funcione com hyumans, dentre todas as coisas. Tem que haver algum engano.
Só para aliviar meus medos crescentes, eu peço para a Tomoe e os outros tentarem falar comigo na chamada Língua Comum, que a maioria dos hyumans fala, mas tudo o que eu ouço é puro disparate. O fato de eles conseguirem se comunicar com hyumans enquanto eu não consigo só joga sal na ferida. Mio, em especial, me pegou de surpresa.

Como ela consegue falar de boa? Eu achei que ela não tivesse memórias além da fome! Ela é um gênio ou o quê?!

A Língua Comum é o idioma principal usado pelos hyumans neste mundo, quase sem exceção. Toda nação hyuman o adota como língua oficial de negócios e governo. Eu pergunto por que não se chama Hyumanês ou algo assim, mas, pelo visto, todas as principais potências políticas do mundo são estados hyuman — como têm sido há muito tempo —, e a influência centralizadora deles sobre o mundo e a cultura global fez com que suas visões prevalecessem. É surpreendente que uma sequência sem sentido de sons seja tão comum e difundida.
Eu fiquei tão incapaz de aceitar isso que passei a acreditar que estão tirando sarro de mim, então tentei provar. Faço representantes de todas as raças que vivem no Subespaço se reunirem num salão e deixo todos interagirem. Depois de falar com cada um por vez, confirmo que eu sou o único que consegue entender as palavras de todos os presentes. Eles também conseguem se comunicar com a Tomoe e a Mio com eficiência razoável, claro, mas entre si, a compreensão varia de duvidosa a inexistente. Dentre eles, os orcs se destacam como os únicos capazes de conversar aceitavelmente com todas as outras raças, e eu consigo ver isso sendo útil no futuro.
De qualquer forma, agora fica claro que eu preciso aprender a Língua Comum de algum jeito, e que eu estarei completamente ferrado do jeito que as coisas estão sem a Tomoe e a Mio.

Droga... Eu não vou esquecer isso, eu juro!




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