Capítulo 55 - Assim Começa o Segundo Ano








As pessoas temem a escuridão desde tempos antigos, acreditando que criaturas inumanas espreitam a noite. Mas, em um mundo de seres inumanos, a noite pertence às pessoas. O Planeta Vermelho abriga quatro dessas espécies: os prósperos Elfe, habilidosos em magia; os homens-fera Chimäre; os alados Vogel, que cruzam os céus; e os vampiros que odeiam a luz e governam a noite.
Uma dessas vampiras é uma jovem chamada Mercedes Grunewald, que neste ano completa doze anos de idade.
Embora tenha nascido como a filha mais velha de um duque, sua vida está longe de ser abençoada. Seu pai, Bernhard Grunewald, rejeitou suas concubinas e os filhos delas, abandonando-os em uma mansão velha e decadente. Ainda assim, o direito de nascimento da Mercedes como possível herdeira fazia com que ele fornecesse algum sustento — apenas o mínimo necessário para manter ela e sua mãe. Porém, no momento em que ele decidisse por um herdeiro que não fosse a Mercedes, ela, sua mãe e a criada que as ama seriam jogadas aos lobos.
Pelo menos, foi isso que a Mercedes presumiu. Por isso, ela mirou na única profissão acessível a qualquer pessoa: a de Caçadora. Ela viajaria e conquistaria labirintos, reunindo a força necessária para se sustentar sozinha. E isso deu certo. Ela conquistou como companheiros um ogro Asura chamado Benkei e um wolfang schwarz chamado Kuro, além de obter controle total sobre um dos inúmeros labirintos deste mundo.
No entanto, o destino tem o hábito de contrariar as expectativas. Apesar de finalmente conquistar tudo o que precisava para viver de forma independente do pai, ela acabou chamando sua atenção sem querer. Como resultado, Mercedes passou a viver sob o mesmo teto que sua mãe, seus irmãos mais velhos Gottfried e Felix, e suas irmãs Monika e Margaret, na mansão principal dos Grunewald.
Bem, isso apenas significa que ela precisará usar essas circunstâncias a seu favor. Mudando sua abordagem, ela se matriculou na Academia Edelrot há um ano, dedicando-se aos estudos e buscando alcançar novos patamares — seja para um dia viver sem o Bernhard ou, talvez, para enfrentá-lo caso essa relação superficialmente amigável se deteriore.

Durante seus dias na escola, porém, ela se envolveu em uma disputa pelo trono. Com os esforços combinados dela e de seu pai, o rei tolo foi deposto, e a verdadeira herdeira, a Princesa Sieglinde, foi colocada no poder.
Com o caos finalmente resolvido, Mercedes voltou seu foco para o fortalecimento de suas capacidades mágicas. Donos de labirintos podem carregar seus labirintos como armas e comandar os monstros em seu interior como bem entenderem. Assim, ela invocou um goblin enfeitiçador — um mago habilidoso — como tutor e iniciou seu treinamento, embora não veja resultados imediatos.
Desejando manter seu corpo ágil, ela evitou o método que o goblin adota para aumentar seu poder mágico — ganhar gordura — e decide seguir o mesmo caminho de sua colega de classe e tia, Hannah. Em outras palavras, ela armazena mana, mas não massa.
De acordo com a Zwölf, a administradora de seu labirinto, toda a matéria, orgânica ou inorgânica, é composta por nanomáquinas. Portanto, este mundo não é natural, mas criado artificialmente — algo que pode ser ignorado por enquanto. O mais importante é que essas nanomáquinas são conhecidas popularmente como mana, uma substância manipulada para produzir magia.

Ao comandar o mana no ar, é possível produzir fogo ou gelo, mas isso exige o uso das reservas mágicas. Ao gastar o próprio mana, é possível produzir uma grande variedade de fenômenos — em outras palavras, magia.
A magia opera com um princípio incrivelmente simples: quanto maior a massa, mais magia se pode usar. A 『força mágica』 mede a quantidade de mana que alguém consegue armazenar e, embora o mana gasto possa ser reposto com comida, ter mais massa realmente torna certas pessoas mais aptas à magia.
Ainda assim, Mercedes sabe que aumentar seu peso tornará seus movimentos mais lentos. Por isso, ela opta por armazenar mana como mana, não como massa, aumentando sua força mágica sem comprometer sua mobilidade.
Embora obtenha algum sucesso modesto, as coisas não são tão simples quanto ela esperava. Ela não sente estar mais perto de despertar suas afinidades derivadas e se conforma em fortalecer sua magia de gravidade e vento enquanto aguarda.

O tempo passa rapidamente e, num piscar de olhos, o novo ano letivo chega. Mercedes agora está no segundo ano, e o Felix no sexto. Desta vez, suas irmãs mais novas, Monika e Margaret, também ingressaram como novas alunas. Quanto ao Gottfried... infelizmente, sua idade se torna um problema. Ele é apenas um ano mais velho que a Mercedes, mas não consegue acompanhar uma turma de terceiro ano. Assim, acabou estudando sozinho na mansão.
Essa família sofre muitas tragédias, e talvez o Gottfried seja quem mais sofre.
Após os exames de admissão, Monika foi colocada na Classe A, enquanto a Margaret ficou na Classe C. Apesar da Margaret alcançar a maior nota nas provas escritas, seu desempenho na parte prática foi ruim. Ela simplesmente não tem talento para atividades mais brutais.
Ainda assim, aprovação é aprovação, e tudo o que ela precisa é recuperar um pouco do terreno perdido.


***



| Gustav | [No próximo mês, testaremos suas habilidades práticas com uma expedição a Blut. Ao longo da vida, vocês farão muitas excursões e, se algum de vocês decidir se tornar Caçador, precisará atravessar terras remotas, racionar provisões e gerenciar a própria resistência dentro de labirintos. E se conseguirem se tornar senhores de um domínio, terão de liderar caçadas contra bandidos e monstros. Sem mencionar que os pés são a linha vital de um mercador, considerando o quanto precisam viajar entre cidades. Portanto, com tudo isso em mente, vocês seguirão uma rota específica até Blut. Forneceremos fundos, mas vocês terão que escolher seus suprimentos, planejar rotas e se preparar adequadamente. Vocês podem discutir entre si, mas é estritamente proibido trazer provisões ou equipamentos de fora], anunciou Gustav, o professor responsável pela Classe A, enquanto a Mercedes escutava em silêncio.

Então, o primeiro teste prático do ano será uma expedição. Como o Gustav afirmou, a maioria das profissões neste mundo depende do uso das próprias pernas. Isto não é a Terra, e não existe internet — não se pode trabalhar de casa. Obter qualquer informação exige caminhar até onde for necessário, com os próprios pés.
Neste teste, a maior desvantagem da Mercedes é o fato de não poder usar suprimentos previamente adquiridos. Ainda assim, essa limitação é necessária, pois, caso contrário, os estudantes mais ricos dominariam com facilidade.
Assim, os alunos têm um mês para decidir o que precisam. O teste começa muito antes da excursão em si e, ao que tudo indica, a academia fornecerá um uniforme — incluindo calçados.

| Gustav | [Deixem-me explicar o cenário. Bandidos atacaram uma cidade vizinha, que pediu ajuda. As rotas tradicionais estão sob controle dos bandidos, então vocês serão forçados a usar caminhos não convencionais. Podem escolher qualquer rota, mas coloquem um pé sequer na estrada principal e serão reprovados imediatamente. A cidade solicita ajuda urgente, portanto rapidez é essencial, mas lembrem-se: de nada adianta chegar exaustos e mal conseguindo ficar de pé. Vocês precisarão equilibrar velocidade e resistência]
| Sieglinde | [O que você acha que deveríamos comprar, Mercedes? Para ser sincera, eu não faço ideia], pergunta Sieglinde assim que o Gustav encerrou a explicação, aproximando-se imediatamente para pedir sua opinião.

Hannah está sentada ao lado, rindo baixinho, claramente sem a menor intenção de oferecer conselhos. As duas terão que resolver isso sozinhas.

| Mercedes | [Depende se você quer comprar um monstro para servir como suas pernas ou usar o dinheiro para provisões. Cada escolha financeira muda completamente a estratégia. Se você comprar um monstro ágil, não poderá comprar muita comida, o que significa chegar rápido, mas faminta demais para lutar. Por outro lado, focar em comida garante que você chegue em boas condições, mas, dado o cenário, demorar demais também resulta em falha]
| Sieglinde | [E se usarmos um monstro alado que nos leve voando direto até Blut?]
| Mercedes | [Eu considerei isso, mas um grande o suficiente para carregar uma vampira seria caro demais. Duvido que possamos pagar com os fundos fornecidos]

Esse exercício exige manter uma velocidade razoável enquanto se preserva energia suficiente para lutar ao chegar. A escola fornece o dinheiro, mas todo o resto fica por conta dos alunos. Em apenas um ano, o rigor acadêmico aumentou drasticamente.

| Sieglinde | [A cidade vizinha de Blut... De carruagem, levaria dois dias e meio, e a pé, provavelmente o dobro disso. Mesmo que compremos um monstro ágil como montaria, a viagem ainda levaria pelo menos um dia, e ainda teríamos que alimentá-lo. O custo seria absurdo, e investir com tudo em um monstro provavelmente só faria com que ele perdesse fôlego no meio do caminho], diz Sieglinde, encarando um mapa enquanto pensa.

Para a Mercedes, esse teste poderia ser uma simples caminhada, se ela quisesse. Ela já percorreu a rota entre Blut e a capital Abendrot há mais de um ano. Testar suas habilidades agora parece quase inútil. Usando magia de gravidade para se mover à velocidade do som, a distância é irrelevante.
Se uma carruagem viaja a dez quilômetros por hora e chega a Abendrot em cerca de dois dias e meio, então a distância entre Blut e a capital é de aproximadamente seiscentos quilômetros. Claro, isso assumindo uma viagem contínua, o que não acontece na prática, já que os cavalos precisam descansar. A distância real é ainda menor.
Por outro lado, Mercedes pode se mover à velocidade do som — cerca de 1.200 quilômetros por hora. Se quiser, ela chega a Blut em apenas trinta minutos e faz o trajeto de ida e volta em uma hora. Não há necessidade de se preocupar com fome, nem de comprar provisões. E, claro, ela chegaria pronta para lutar.
Ainda assim, isso destruiria o propósito do teste. Não se trata apenas da jornada, mas de como os alunos decidem alocar seus recursos. Assim, ela decide deixar a magia de lado e realizar a expedição da forma difícil. Nada de atalhos fáceis. Ela quer adquirir experiência real, o que exige esforço.

Quando as aulas terminam, o trio sai pela cidade observando vitrines em busca dos itens necessários. Para provisões, o ideal são alimentos baratos e que sustentem, mas que não os tornem lentos pelo peso. A maioria dos estudantes corre imediatamente para comprar garrafas de sangue, um exemplo claro de o quanto os vampiros dependem dessa substância.

| Sieglinde | [E chocolate? Ouvi dizer que sustenta bem]
| Mercedes | [Esquece. É caro demais]

A mente da Sieglinde salta imediatamente para o chocolate, uma substância que a Mercedes inventou como provisão para exploração de labirintos, usando conhecimento de sua vida passada. Mais tarde, ela vendeu o método de fabricação para a Trein, e, como resultado, o chocolate se tornou um item altamente cobiçado pela nobreza — muito distante do alimento durável que a Mercedes idealizou originalmente. O Trein optou por vender o produto como artigo de luxo, destruindo sua intenção inicial. Agora, ele é caro demais para servir como sustento real.
Embora a Mercedes possa comprar o produto barato por ser sua inventora, ela ainda mantém um grande estoque guardado em seu labirinto. Curiosamente, alimentos armazenados em labirintos nunca estragam; as nanomáquinas que normalmente decompõem a matéria acabam preservando-a ali.
Mesmo assim, usar esse estoque violaria as regras mais uma vez.

| Hannah | [Enlatados também são caros, mas parece que estão começando a ficar mais baratos], murmurou Hannah ao observar uma etiqueta de preço. Mercedes também vendeu o método de fabricação desses produtos ao Trein, novamente com a intenção de criar alimentos duráveis. Infelizmente, eles também são caros. Vampiros marítimos dominam o mercado, aumentando a demanda e, consequentemente, os preços. Como não exigem pimenta-preta nem pedras mágicas de gelo para armazenamento, são ideais para longas viagens marítimas.

O sucesso dos enlatados, porém, vem acompanhado da queda da pimenta-preta, que antes era um item de luxo. Seu preço despencou, tornando-se apenas ligeiramente mais caro que outros temperos, levando os comerciantes especializados às lágrimas.

| Sieglinde | [Também precisamos preservar nossas pernas. Será que existe algo que ajude nisso?]
| Hannah | [Há muitas opções, Sua Alteza. Você pode comprar botas encantadas com pedras mágicas de vento, que permitem saltar pelo ar com facilidade, ou usar magia de gelo — ou pedras mágicas — para congelar o caminho à frente e deslizar. Pedras mágicas de terra também podem ajudar a criar atalhos]
| Sieglinde | [Mas você não vai me dizer qual opção é a mais eficaz, vai?]
| Hannah | [Claro que não! Qual seria o sentido desse teste se eu simplesmente desse as respostas? As ideias que apresentei são as mais óbvias]

Hannah realmente é mole. Apesar de dizer que não ajudaria, ela praticamente entregou as dicas. Ainda assim, não ofereceu a resposta final.
Sieglinde caminha pela loja, pensativa, ponderando sua situação.




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